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Aqui, mamães muito diferentes mas com um único objetivo compartilham suas experiências nesta grande aventura que é a maternidade! Nós queremos, acima de tudo, ser mamães sábias, que edificam seus lares e vivem com toda plenitude o privilégio de sermos mães! Usamos muitos dos princípios ensinados pelo Nana Nenê - Gary Ezzo, assim como outros livros. Nosso objetivo é compartilhar o que aprendemos a fim de facilitar a vida das mamães! Fomos realmente abençoadas com livros (e cursos) e queremos passar isso para frente!


"Com sabedoria se constroi a casa, e com discernimento se consolida.
Pelo conhecimento os seus cômodos se enchem do que é precioso e agradável"
Prov. 24:4,5

segunda-feira, 9 de junho de 2014

A nossa vida no Québec - Os últimos 8 meses (Parte 2)

Os pontos abaixo são um resumo das minhas impressões sobre a vida no Québec até o momento. Vou dar mais detalhes sobre como eram as creches com as quais eu tive contato, descrever como foi o nosso 1o inverno aqui, falar sobre outras diferenças culturais / estruturais que tenho percebido, dentre outros.

Confira a parte 1 aqui.

Bilinguismo e Multiculturalismo
Em outros posts, já falei sobre como fizemos para garantir que, desde o Brasil, as meninas fossem expostas aos dois idiomas (inglês e português) para que pudessem ficar fluentes em ambos. Como a habilidade de se expressar num idioma está fortemente vinculada ao emocional e ao relacionamento que temos com as pessoas, viemos para o Canadá e, sem pensar muito sobre o assunto, continuamos o hábito de falar somente em inglês em casa com elas (apesar de sempre falarmos em português um com o outro). No fim do nosso terceiro mês aqui, mais ou menos, comecei a perceber e a me incomodar com o fato de que a Nicole resistia em falar português com os avós nas conversas pelo Skype. Ou seja, apenas ouvir o pai e a mãe conversarem em português um com o outro em casa não estava sendo suficiente para garantir a fluência dela. No Brasil dava certo porque praticamente toda a comunicação fora de casa (exceto igreja) era em português também. Óbvio, né?! Pois é, mas nós não nos atentamos para isso e não planejamos como seria a questão dos idiomas neste um ano fora.

Percebido o "problema", eu me esforcei para falar em português em casa com as duas (principalmente com a Nicole). Também comecei a colocar vídeos no Youtube para elas verem de vez em quando (basicamente Crianças Diante do Trono e Galinha Pintadinha) na intenção de que elas começassem a cantar as musiquinhas em português. É claro que elas entendiam tudo em português, mas na parte da comunicação, a Nicole resistiu durante algum tempo (acho que 2 ou 3 semanas) para me responder em português já que o inglês havia se tornado tão predominante na vida dela. Até a pronúncia dela no começo ficou engraçadinha e algumas conjugações saiam totalmente erradas mas, como disse, conseguimos reverter a situação em pouco tempo. Acho que a Nicole, de certa forma, sempre teve facilidade com idiomas e comunicação. Hoje ela fala novamente os dois idiomas sem dificuldade (claro que ela inventa palavras vez ou outra, mas quem nunca?! Eu também faço!) e, com a irmã, percebo que o idioma de preferência continua sendo o inglês, o que para mim não é problema algum.

Mas e a Alícia?! Bem, a Alícia está há um mês de completar 3 anos e, não sei se já comentei antes, mas fonética e comunicação nunca foram o forte dela. Para "ajudar", como ela é a segunda filha, eu sou muito menos disciplinada para falar um idioma só com ela e não me policio tanto para corrigi-la quando ela fala algo errado ou mistura os dois na mesma frase. Com a Nicole nesta idade, eu exigia que ela repetisse a frase toda de novo na forma certa antes de atender ao seu pedido. Apesar disso, eu percebo que a Alícia tem preferência por falar inglês (acho que porque estamos aqui), mas é muito comum ainda ela começar com "Eu" e falar todo o resto em inglês. Resultado: nem sempre as pessoas a entendem. Mas ela ainda é nova e eu já passei da fase de me preocupar. No começo eu mentalmente a comparava com a irmã e o que ela já sabia falar com x idade, e me "estressava"... até pensei em levá-la numa fono (quando estávamos no Brasil ainda) pra ver se ela tinha algum problema de dicção. Mas agora que vejo o quanto ela já progrediu e o quanto ainda está progredindo, fico em paz e sei que ela vai desabrochar no tempo dela! Tem uma historinha no material de homeschool das meninas - chamada Leo, The Late Bloomer (clique no link para ver crianças lendo a história) - que fala justamente disso. De tanto ler e ler a história para elas, acho que acabei internalizando a mensagem. :-)

Na Parte 1 deste post, eu mencionei que as meninas frequentaram uma creche francófona aqui no Québec. Elas não ficaram fluentes em francês porque foram apenas 3 meses em meio-período (e elas nunca iam todos os dias da semana), mas foi interessante vê-las incorporando o francês em algumas brincadeiras e atividades da casa. Até hoje, por exemplo, quando terminam de usar o banheiro, é comum elas nos avisarem dizendo J'ai fini (=terminei). Eu também já peguei a Nicole brincando de telefone em inglês e francês - ela perguntava algo em francês e fingia que a pessoa do outro lado não entendia, para então traduzir para o inglês. Apesar disso, nenhum de nós aqui precisa falar francês no dia-a-dia!! Praticamente nada. Meu marido é do tipo cara-de-pau e gosta de se arriscar pra aprender (certo ele, né?!), mas como Montreal é uma cidade bem bilíngue, eu raramente me aventuro a responder em francês para as pessoas na rua (medo de errar e também porque não sei mesmo). Os atendentes no comércio dizem "Bonjour" e "Hi" e é a resposta do cliente que determina em que idioma será o atendimento - então eu geralmente digo "Hi", rsrs.

É por este motivo que, apesar de estarmos numa província francófona e as placas, propagandas, embalagens dos produtos, cardápios e afins serem em francês, isto não é suficiente para deixar ninguém fluente (muito menos criança que ainda nem sabe ler!), ainda mais porque nós frequentamos uma igreja anglófona e temos muitos amigos que falam inglês (ou português). A única exceção, eu diria, é uma amiguinha das meninas, nossa vizinha, que também se chama Nicole. A família é da Ucrânia e imigrou para o Canadá havia um ano quando os conhecemos no parque (isso quando havíamos acabado de chegar também). Nem ela nem os pais falam inglês muito bem, mas como na época eu não sabia absolutamente nada de francês, eles foram super simpáticos e se esforçaram muito para se comunicar comigo em inglês. Imagine a cena bizarra: a cada duas palavras eles procurando alguma palavra em inglês no google, hehe.

O multiculturalismo e multilinguismo daqui de Montreal são gritantes. São tantas nacionalidades diferentes que fico boba! Vir pra cá mudou completamente a minha visão sobre o ser humano, abriu a minha mente. E a maioria das pessoas fala, no mínimo, 2 a 3 idiomas fluentemente. Tem noção?! Uma amiga brasileira que mora aqui há 12 anos, por exemplo, é casada com um egípcio. O casal conversa em inglês um com o outro, mas com o filho ela fala português e e ele árabe. O menino vai para uma garderie bilíngue onde está aprendendo a se comunicar em inglês e francês. Outro vizinho é canadense-francês (o típico gringo que imaginamos quando pensamos na América do Norte, que é uma raridade encontrar aqui, haha) e fala em inglês com a filha, mas a mãe da criança é espanhola (eles não moram juntos) e, pra completar, ela frequenta garderie francófona. Ou seja, mais um exemplo de criança sendo exposta a pelo menos 3 idiomas ao mesmo tempo. E por aí vai... as famílias aqui são um emaranhado de povos e línguas - é interessante pensar no que isso vai dar! E pensar que no Brasil tem especialista que teima que não é bom para a criança aprender inglês (uma 2a língua) muito nova... pura baboseira!

Outra curiosidade é que, diferente do que percebo entre nós, brasileiros que também somos uma mistura de muitas culturas, as pessoas daqui parecem se importar muito mais com as suas raízes. Pode ser que seja algo recente, não sei, mas é nítido que elas fazem questão de manter vivos não só a língua materna como também costumes do seu país de origem. Ao meu ver, isso não aconteceu quando o Brasil foi populado por imigrantes. Por exemplo, eu sou descendente de italianos e meus avós, que nasceram no Brasil (ambos filhos de italianos/franceses), sequer aprenderam a falar o idioma dos pais de origem. Tanto que eu sei muito pouco ou nada sobre o que é ser italiana, e me considero 100% brasileira. Mas aqui não, as pessoas aprendem o idioma local (no caso, o francês, que é uma obrigatoriedade para poder imigrar, só não sei se também no caso de refugiados), mas em casa continuam falando o idioma materno, e o ensinam a seus filhos. Na rua, nos ônibus, em restaurantes é muito comum ouvir uma mistura louca de idiomas. A cultura árabe/muçulmana é facilmente identificada por aquele pano que as mulheres colocam sobre a cabeça (desculpem-me a ignorância, mas não lembro o nome!), e isso mesmo na 2a geração de imigrantes (aquelas que nasceram e viveram aqui a vida toda e ainda assim se esforçam para manter suas tradições familiares do país de origem). Isto também se reflete nos tipos de restaurantes que você encontra pela cidade, tem para todos os gostos - comida indiana, árabe, tailandesa, chinesa, japonesa, libanesa, etc. - a variedade é imensa. E por isso quando chegamos foi tão difícil descobrir quais eram os costumes ou comidas quebequenses (ou canadenses).

Por falar em cultura canadense, em três ocasiões diferentes tivemos o privilégio de ser convidados para comer na casa de famílias canadenses (que moraram aqui a vida toda). E em todas elas eu reparei que o educado é o anfitrião servir cada convidado ao redor da mesa para só então todos comerem juntos (até as crianças esperam). Ele(a) pergunta o que você quer comer e faz o seu prato. Diferente, né?! Achei formal demais e me senti constrangida de ter de retribuir um jantar assim para esses amigos, rs. Se o fizesse, com certeza faria à moda brasileira mesmo: coloca-se toda a comida na mesa e cada um se serve com o que quer, bem à vontade!! Sei lá, acho estranho eu colocar comida no prato para outras pessoas que mal conheço - não parece que eu estou "decidindo" o quanto ela tem de comer?! Sem contar que culturalmente para nós brasileiros o bom quando se come na casa de alguém é "limpar o prato" para não fazer desfeita, né! E também pra não desperdiçar comida. Mas aqui acho que não tem isso não.

Para fechar este ponto, quero dizer que sinto de não falarmos francês com fluência ainda! Queria dar essa oportunidade para as meninas (de serem poliglotas desde pequenas), mas ao mesmo tempo sinto que poder homeschool é uma bênção e privilégio ainda maiores do que elas falarem 3 línguas perfeitamente. Ainda assim, faço o que dá para expô-las ao idioma: de vez em quando vamos à biblioteca pegar livrinhos em francês (para eu ler pra elas, yikes!), uma vez por semana coloco filminhos para elas assistirem em francês (Calliou, Peppa Pig, Mickey Mouse ou às vezes outros educativos que encontro no Youtube), a Nicole faz aula de piano com uma professora francófona (que fala pouco inglês) e na aula de balé e outras atividades no centro comunitário, a professora/educadora dá as explicações nos dois idiomas (em francês, depois em inglês). Também entrei em contato com uma família francófona (mãe canadense, pai francês) que homeschool os três filhos (de 3, 5 e 7 anos) e que acabou de se mudar para a ilha. Uma vez por semana a gente tenta se encontrar no parque para as crianças interagirem (os filhos só sabem francês) e, quem sabe, se soltarem mais no francês. São estratégias, vamos ver no que vai dar.

As creches
Em São Paulo eu já tinha reparado que a classe média foge do termo "creche" para se referir ao lugar onde coloca o filho para passar o dia e prefere dizer que ele frequenta uma "escolinha". Pedagogos fazem o mesmo - na intenção de enobrecer o termo e fugir de uma associação com assistência social, eles a denominam como "educação infantil". Não sei como é esta questão de nomenclatura no resto do mundo, mas no Canadá o termo é daycare ou, em francês no Québec, garderie, e remete justamente a um lugar de cuidado, um local onde as crianças pequenas passam o dia recebendo cuidados para que os pais possam trabalhar ou estudar. Como as CPEs (creches do governo) são bem conceituadas e bastante concorridas (principalmente por causa do preço!), as garderies privadas costumam fazer propaganda de que oferecem "programa educativo" para atrair a clientela. Existem também as creches residenciais, o que eles chamam de garde en milieu familial, para quem prefere um tipo de atendimento alternativo (não seria o meu caso, presenciei cenas de crianças de garde em milieu familial no parque com a cuidadora que me deixaram com uma péssima impressão).

O bairro onde eu moro é bem privilegiado (economicamente falando) e diferente da cidade de Montreal em si (pelo menos a parte que pude conhecer até o momento). Aqui há casas lindas, verdadeiras mansões e, no centro comunitário que frequentamos, é comum as crianças irem acompanhadas pelas babás ou pelas próprias mães. As vizinhas que moram no mesmo tipo de apartamento que o meu (os mais pobres do bairro!!) não têm o mesmo privilégio porque elas precisam trabalhar fora e colocam a criança em creche. Mesmo entre as mães com uma condição social melhor (as que podem ficar com os filhos em casa durante a 1a infância), me surpreendi com a pouca confiança que elas têm na própria capacidade. Talvez seja uma particularidade do Québec, pois vim pensando que encontraria mulheres mais confiantes e autônomas no que se refere ao cuidado e instrução dos filhos. Não esperava que fossem se surpreender ao ouvir que eu pretendo homeschool. Como no Brasil, algumas sequer haviam ouvido falar sobre a prática e acabam sendo dependentes do serviços de terceiros (creche, atividades no centro comunitário, ou outros). Não analisei o suficiente para concluir se elas também são imigrantes recentes, mas é uma hipótese! No geral, a sensação que eu tive é que o pensamento coletivo aqui é bem próximo ao que encontramos no Brasil: existem poucos homeschoolers e uma grande ansiedade por parte das mães (e pais) de colocarem logo seus filhos em daycare educativa, para que eles ganhem independência e estejam "melhor preparados" social e intelectualmente para entrarem na escola aos 5 ou 6 anos. Apesar disso, existem sim pequenas comunidades de homeschoolers (como esta), com estrutura, recursos e até mapa virtual para ajudar os praticantes e aspirantes a achar uns aos outros. Foi assim que conheci essa minha vizinha que ensina os filhos em casa. Acho que no Brasil ainda não existem iniciativas com essa.

Mas voltando ao tema, a principal diferença que eu senti na creche daqui é a liberdade que os pais têm de ir e vir dentro da instituição e saber tudo o que está acontecendo com a criança. Achei fenomenal, principalmente por causa da experiência ruim que tive na "escolinha" bilíngue em que a Nicole estudou em São Paulo. Lá a comunicação via agenda era desastrosa e os pais sequer eram autorizados para entrar com a criança ou ficar lá dentro com ela, por alguns minutinhos que fosse (só era permitido no período de adaptação e olhe lá). Nós tínhamos de entregá-la e buscá-la na porta e confiar cegamente. Inclusive, já recebi bronca desaforada por telefone da própria dona depois de enviar um bilhete na agenda pedindo para acompanhar um dia de aula com a minha filha - ela perguntou: "Você gostaria que outros pais assistissem aula com sua filha?", como se fosse uma aberração crianças terem contato com outros adultos!

Aqui é totalmente diferente: nas duas instituições em que a Nicole frequentou tanto eu quanto o meu marido tínhamos a nossa própria chave de acesso ao local e podíamos entrar e sair quando quiséssemos. E também podíamos falar livremente com as educadoras lá dentro (nenhuma coordenadora ficava barrando o acesso dos pais a elas, como também é costume no Brasil, principalmente em escolas particulares). Aliás, na minha experiência aqui não teve esse esquema de agenda individual dizendo se a criança se alimentou, dormiu, quantas vezes foi ao banheiro, etc. Quando você busca a criança a educadora já está ali ao vivo e a cores e conta o que aconteceu (ou então você mesmo pergunta). Assim é muito mais prático. A primeira creche ficava aberta o dia todo (das 7:00 às 18:00) e os pais é quem decidiam o horário de deixar e buscar a criança (respeitando o número máximo de horas que a legislação canadense permite que criança fique em creche, sob pena de pagamento de multa caso ultrapasse o tempo). Na segunda creche, como não era em tempo integral mas em dois turnos (manhã e tarde), a nossa chave de acesso para o turno da tarde funcionava a partir das 13:00 em ponto (nem um minuto antes!) e nós, obrigatoriamente, tínhamos de buscar as meninas antes das 17:00 já que este era o horário de fechamento (quem se atrasasse pagava multa também!). O interessante é que, além de não gastarem dinheiro com funcionário para receber as crianças na entrada (mão-de-obra aqui é cara), a creche ainda obriga os pais a se envolverem e a vivenciarem a área em comum da creche já que ela é, digamos assim, a 2a casa das crianças. O pai (ou mãe) põe a mão na massa: entra com o filho, guarda seus pertences no armário/cabides (no inverno, tem todo o trabalho de tirar botas de neve, o macacão, a jaqueta, luvas e gorro), o leva para fazer xixi e lavar as mãos (nesta já cumprimenta as educadoras) para só então se despedir da criança e ir embora. O mesmo na hora de buscar.

Notei outras diferenças também. Na primeira creche, além de uma troca de roupas que a coordenadora havia pedido, eu enviei uma bolsinha com toalha, pasta e escova de dentes - afinal, minha filha iria passar o dia lá, almoçar, etc. Mas eles não levam as crianças para escovar os dentes durante o dia! Culturalmente para eles simplesmente não faz parte das atividades de creche ensinar o hábito da higiene bucal após as refeições como fazemos no Brasil. Já lavar as mãos é algo que eles fazem o tempo todo. Ao entrar, mesmo que a criança não precise usar o banheiro, ela obrigatoriamente tem de lavar as mãos antes de pegar algum brinquedo. Bem, demoramos uns três dias para perceber que ela não estava usando a escova e, quando meu marido perguntou porque a Nicole não estava escovando os dentes, a educadora fez uma cara de espanto e disse que poderíamos levar a escova de volta pra casa. :-)

Outra curiosidade é a neura que eles têm com alergias alimentares. Nas duas creches foi muito reforçado que era proibido entrar com qualquer tipo de alimento industrializado - ao ponto de na hora do lanche oferecerem leite em vez de suco por causa dos corantes artificiais! Imagino que essa regra e preocupação tenham razão de ser. Num lugar com pessoas de origem tão distintas, é melhor se precaver mesmo.

O inverno
Gente, o inverno aqui é punk! Muito longo e muito frio. Acho que nada poderia me preparar para o frio que pegamos aqui neste inverno. Disseram que há muitos anos o inverno não era tão rigoroso assim, mas sei não se eu acredito, rs. E essa história de que abaixo dos -15 graus é tudo a mesma coisa pra mim é papo furado. Abaixo de -15 é frio pra caramba e, acreditem, pode piorar muito. É um frio tão agressivo que deixa a pele ressecada (ela fica vermelha, como se estivesse queimada) e faz congelar até os pelos do nariz (eles ficam duros e depois o gelo derrete e começa a escorrer). Ou seja, tem de cobrir quase todo o rosto pra não se machucar! Eu que nunca fui de usar creme nas mãos porque não gosto da sensação delas melecadas, precisei usá-lo várias vezes ao dia para não ficar com as mãos descascando e feridas. O ar dentro de casa era tão seco que ao acordar meu nariz chegava a sangrar - com catota dura! Aliás, o ar seco secava tudo rapidamente (roupas, toalhas e até sapatos dentro de casa), o que não acontecia em nossa casa no Brasil. A pior coisa da época de inverno no Brasil é que as toalhas de banho não secam nunca e as roupas emboloram dentro dos armários por causa da umidade. Aqui o perigo é outro: por causa dessa secura toda, há muito risco de incêndios (acontece com certa frequência, um prédio do nosso bairro pegou fogo!) e, com isso, torna-se prudente ter seguro de residência.

A primeira neve caiu no início de dezembro. Me lembro bem porque foi no meu último dia de aula e eu voltei pra casa de ônibus aquela noite toda feliz sentindo e vendo os flocos de neve caírem. Uau, tudo ficou branquinho, exatamente como nos filmes. Quanta alegria! Queríamos muito aproveitar tudo o que podíamos do inverno, mas ele é tão absurdamente longo que chegou um ponto em que eu não aguentava mais ver tanto branco. Não tinha mais onde colocar tanta neve que se acumulava nas calçadas! Era meados de abril, supostamente em plena primavera, e a paisagem continuava branca! Apesar de tudo, preciso afirmar: aqui ninguém passa frio não. A cidade é toda preparada para esta época do ano, os prédios sempre bem aquecidos, as estações de metrô fervendo de calor, e até dentro do ônibus é quentinho. No centro, são tantas passagens subterrâneas ligando um prédio ao outro que você nem precisa enfrentar as baixas temperaturas lá fora. Em nosso apartamento, por exemplo, nós regulávamos a temperatura e, como o aquecimento está incluso no aluguel, nem de cobertor precisávamos à noite. Ou seja, inverno aqui NÃO é sinônimo de sofrer pra tomar banho ou mesmo de dormir com duas calças, duas blusas, meias, cobertor e ainda um edredom por cima!

Vista da janela do nosso apartamento no inverno.

Talvez a nossa família sentiu ainda mais o impacto do inverno porque estávamos a pé. Quisemos bancar os corajosos e resistimos em comprar um automóvel já que o transporte público daqui é bom e não queríamos ficar procurando vaga na rua ou gastando com estacionamento toda vez que saíssemos de casa. No começo foi "só alegria", mesmo com todo o perrengue que era caminhar até o mercado e carregar sacolas no braço ao voltar, ou então ir de ônibus e metrô para a igreja ou outros lugares com as crianças no colo. Como elas ficavam pesadas com toda aquela parafernália de inverno! Além do peso, as botas sujavam os nossos casacos (porque neve bonita é aquela que acabou de cair, depois ela fica "barrenta"). A alternativa então era carregar as meninas nos ombros, mas mesmo assim sair de casa exigia um tremendo esforço físico (de mim, principalmente). Eu já estava pedindo arrego e me arrependendo amargamente de não termos comprado um carro. Até que em meados de fevereiro demos o braço a torcer e compramos um carro bem velhinho. Óooo, que alegria foi novamente, rsrs. :-)

Hoje, depois de um inverno que pareceu não ter fim e de uma primavera que começou a dar o ar da graça um mês após a data oficial no calendário, os dias estão finalmente esquentando e ficando do jeito que eu gosto!! Com uma ressalva: está escurecendo tarde da noite e é complicado colocar as meninas pra dormir às 19:30 ou 20:00 quando o sol ainda está brilhando lá fora (no inverno era o contrário, escurecia cedo pra caramba, entre 16:00 e 16:30!). Dizem que no verão o calor daqui é insuportável também - por que será que aqui as temperaturas oscilam tanto, frequentemente nos extremos do termômetro? - mas depois ter de usar, por 8-9 meses, calça e manga longa toda vez que ia pra rua, ainda estou no estágio do "ver para crer", haha. Se for tudo isso de ruim que estão dizendo, eu acho que não vou ligar tanto... afinal, tenho certeza de que vai durar muito pouco (uns 2 meses?) e, pra mim, poder usar chinelo, shorts e regata vai ser uma alegria sem tamanho!!

O lugar onde moramos é um paraíso!
Não me canso de admirar tamanha beleza da natureza.

Vida em apartamento
Aproveitando o assunto da secura do inverno, eu ficava boba com a quantidade de pó visível que se formava dentro de casa nas superfícies, mesmo com tudo fechado (e muito bem selado para manter a casa termicamente isolada). Eu não dava conta de limpar! Talvez por causa do aquecimento? Não sei, mas o fato é que, diferente do que estamos acostumados no Brasil, limpeza se resume a passar um pano úmido. Não existe "lavar o banheiro" ou "lavar a cozinha" porque não pode jogar água no chão! As casas são feitas de madeira e não têm ralo no chão. Isso foi algo que eu estranhei bastante porque passar pano não tem o mesmo efeito, na minha opinião! Aliás, eles vendem os "panos prontos" (cleaning wipes, como os lenços umedecidos para bebês) para você não precisar de pano de chão já que pano é pano e pode pegar fogo no inverno. E eu reparei que até pano de prato aqui é diferente: ele não é de algodão, mas de algum tecido que não absorve direito a água, provavelmente é anti-inflamável. Como a cultura aqui é ter lava-louças quase como um item obrigatório (a lógica do Brasil é oposta: mão-de-obra barata e eletrodomésticos caros), pano de prato que não seca louça não é um problema para eles.

Se morar em apartamento já é restritivo para quem tem criança pequena, morar num apartamento com paredes ocas é pior ainda, hehe. Pois é, eu achei muito chato ficar o tempo todo pedindo para minhas filhas pararem de pular, correr, etc. para não incomodar os vizinhos debaixo. E não é nem porque eles reclamavam (meus vizinhos são muito tranquilos), mas é porque eles têm bebê de colo e seria muito chato acordá-lo de uma soneca, por exemplo. Também não gostei de morar em apartamento com paredes ocas por causa da falta de privacidade. Numa noite em que a Alícia teve febre e acordou aos berros perto da meia-noite (eu já falei que ela é escandalosa?), logo quando chegamos, eu a peguei no colo e fomos para o banheiro porque eu não queria acordar o resto da casa. O problema é que a planta do nosso apartamento é estranha e o único banheiro fica bem do lado da porta de entrada. Acredita que uma vizinha do apartamento que fica do outro lado do corredor (não direitamente em frente à minha porta) veio bater em casa pra perguntar se estava tudo bem? Eu imagino que ela teve toda boa intenção do mundo (afinal, ela tem um filho da mesma idade que a minha caçula), mas eu achei muito chato. Me senti invadida, sabe? Não estou acostumada com falta de liberdade dentro da minha própria casa. Sei lá... em pensar que o que eu falo, alguém na casa do lado pode estar ouvindo.

Outro medo é a sacada... estamos no 2o andar e não deixo as meninas brincarem na pequena área porque elas podem inventar de subir na grade, passar pelo meio... enfim, melhor prevenir acidentes. Por esses motivos, no fim de junho vamos nos mudar para um apartamento no térreo. Continuaremos no mesmo bairro e no mesmo tipo de prédio, mas na rua de trás de onde moramos agora. Eu vou sentir falta da imensa árvore que fica bem em frente da nossa janela, de onde posso ver esquilos subindo pelo tronco e ver/ouvir os passarinhos cantando. Mas espero que os prós de ir para o térreo compensem os contras, a começar pelo tipo de planta do apartamento que é mais parecida com os modelos que encontramos no Brasil e também pela possibilidade de termos um espaço útil maior do lado de fora (de frente com a janela), onde esperamos fazer um jardinzinho.

Desfraldamento
Apenas para não passar batido, vou resumir rapidamente como foi o processo de desfraldamento com a Alícia: um pesadelo!! Hahaha, é rir pra não chorar porque, olha, foi dureza! Eram tantas calças e calcinhas sujas e molhadas que nós não dávamos conta de lavar!! A banheira vivia cheia delas e, inclusive, tive de sair pra comprar uma dúzia de calcinhas novas só pra ter de reserva. Ainda hoje acontecem acidentes (são infrequentes), mas o pior nós definitivamente já superamos. UFA, respiro aliviada!! Rsrs. Desde que as minhas aulas terminaram e eu comecei a ficar em casa de novo, as coisas começaram a entrar nos eixos. O tempo todo eu sabia que "a culpa" era minha (se é que existe um culpado), pois a Alícia raramente fazia xixi na calça enquanto estava na garderie, por exemplo. Lá ela fazia direitinho no vaso, mas era só estar em casa (ou na rua!) comigo ou com o pai que o negócio desandava. Era como se ela descuidasse de propósito, para se fazer de bebê e chamar a nossa atenção. Entendo que era a forma dela de lidar com todas as mudanças e estou FELIZ que esta fase tumultuada passou.

Bem, é isso. Comecei este post tem quase um mês, está mais do que na hora de publicá-lo!!

sexta-feira, 23 de maio de 2014

A nossa vida no Québec - Os últimos 8 meses (Parte 1)

Eba, voltei ao blog! Entreguei meu último trabalho na universidade em meados de abril e ainda estou me recuperando da maratona que foram os últimos oito meses aqui no Canadá. Que alívio e que alegria; agora posso finalmente me dedicar ao homeschooling!

E cá entre nós, ficar em casa é tudo de bom. :)

Meu nível de cansaço mental e físico nos últimos meses estava tão profundo que eu tinha a nítida visão e sensação de estar envelhecendo. Um ano e meio atrás eu disse que o trabalho de ficar em casa com os filhos cansava mais do que trabalhar fora o dia todo, não disse? E é verdade, cansa mais mesmo, mas agora descobri algo que para mim desgasta ainda mais: tentar conciliar as duas coisas - vida dentro e fora de casa, estudando em período integral, levando criança pra escola, tentando conciliar tudo. Eu sei que existem muitas mães capazes de lidar numa boa com a pressão de tantos afazeres e preocupações, trabalham fora o dia todo e ainda estudam à noite, mas eu sinceramente não consigo... eu fico à beira de um ataque de nervos!

Simplesmente não consigo educar à distância e ficar feliz com o resultado, sabe? As muitas horas fora e a constante preocupação de textos para ler ou trabalhos para fazer não me deixavam fazer em casa um trabalho que eu considero decente. Pior, viver esgotada também me impedia de curtir a maternidade, o casamento, meu relacionamento com Deus... enfim, no meu caso tudo vira obrigação e torna-se um fardo pesado demais para carregar (e admito que o problema também é porque eu não me contento em não dar o meu melhor nos estudos). Quando estou cansada dia após dia, fico irritada com facilidade e sem paciência para brincar com minhas filhas ou mesmo corrigi-las de forma amorosa. Acabo virando uma mãe brava e autoritária, e reajo a situações inesperadas como não gostaria de reagir. Agora que estou em casa, tomo precauções para não debandar para o outro lado: ficar bitolada com as preocupações da casa e não respirar ar puro (figurativamente) periodicamente para renovar as energias. Nada como o bom e velho equilíbrio para garantir que não "endoidemos", hehe.

Bem, há seis meses, em 20 de outubro, eu escrevi um relato (leia aqui) sobre nossa mudança para o Canadá e como estava sendo nossa adaptação ao novo país. De lá pra cá muitas novidades aconteceram, mas eu vou tentar resumir os pontos mais importantes.

Em retrospectiva - Um milagre após outro...
Vim para o Canadá com bolsa de estudos e, portanto, decidimos que o meu marido ficaria em casa nos primeiros meses de adaptação. Assim, ele poderia pessoalmente cuidar das meninas (para amenizar o choque da mudança) enquanto eu estudava. No fim de setembro (no mesmo mês em que chegamos), ele solicitou o work  permit pela internet e, três meses depois, recebeu o visto pelo correio. Ainda no fim do ano, ele já começou a procurar emprego pela internet, enviou currículos e chegou até a fazer algumas entrevistas e foi chamado para treinamento numa empresa. Apesar disso, a contratação na empresa onde ele está hoje só foi acontecer mesmo dois meses depois (reparamos que as coisas aqui andam mais devagar), em meados de fevereiro. Este foi o primeiro milagre! Chegamos no Québec, a única província francófona do Canadá, sem falar praticamente NADA de francês, e sabíamos que conseguir emprego aqui sem falar francês era algo muito difícil. A nossa oração sempre foi que ele pudesse trabalhar em algo em que falar bem o inglês e o português fosse o diferencial. E Deus nos ouviu! Ele não só conseguiu o "emprego ideal" (com um salário acima da média para quem está chegando no país), mas também foi contratado justamente no mês em que eu parei de receber a bolsa de estudos (que durou seis meses). Ou seja, não tivemos falta de nada! O tempo de Deus foi, como sempre, perfeito.

O segundo milagre foi a creche para as meninas. Serviço de creche no Canadá custa caro. O valor para apenas uma filha custaria praticamente o mesmo (ou mais) de um mês de aluguel no nosso apartamento de 2 dormitórios. Imagine então ter de pagar creche para duas filhas?! Para quem é residente temporário, as chances de conseguir pagar menos (por causa do reembolso do governo para residentes permanentes) diminuem. A nossa única chance de conseguir pagar menos seria por meio de matrícula em garderie administrada pelo governo, a chamada CPE (Centre de La Petite Enfance), algo que, o que mais se ouve por aqui, é praticamente impossível. Coloca-se o nome da criança numa lista de espera online ou direto na CPE e espera-se, por tempo indeterminado, por uma vaga. Ouvi relatos de mulheres que inscreveram o bebê assim que souberam estar grávidas e esperaram por anos, sem nunca serem chamadas. No fim de dezembro, consegui vaga para a Nicole começar numa CPE perto da universidade no início de janeiro. Era bilíngue e em período integral. No primeiro dia ela gostou muito, estava felicíssima de ser a new butterfly do grupo de crianças, mas foi só perceber que teria de ir todos os dias e passar muitas horas lá que começou a se desesperar. Ela precisava chegar antes das 9:30 da manhã para o início das atividades e tinha de ficar por pelo menos 5 horas direto, sob pena de perder o direito à vaga. Era inverno e quando a buscávamos já estava praticamente escuro (aqui o dia escurece às 4 da tarde no inverno!!), então ela voltava pra casa arrasada porque o dia já tinha acabado. Implorava para não ir mais e poder ficar em casa fazendo homeschool, principalmente porque ela sabia que a Alícia ficava o dia todo comigo (obs. Estávamos aguardando abrir uma vaga para a Alícia na mesma CPE já que agora a irmã estava lá e ela teria prioridade). Nesta época, o Douglas ainda procurava emprego e eu, sem botar fé que conseguiríamos vaga em alguma garderie pagável, no fim do semestre anterior tinha decidido passar o máximo de aulas para o período da noite. O resultado não poderia ser pior: quando a Nicole chegava em casa, eu já tinha saído para as minhas aulas!

O fato é que ela durou nesta CPE por apenas 2 semanas e 2 dias! Toda manhã era um escândalo e na creche ela ficava inconsolável, se negando a participar das atividades. Tanto que em alguns dias as educadoras precisaram nos ligar para buscá-la mais cedo. Quem conhece a Nicole sabe que ela não tem a menor dificuldade de interação e independência. Acontece que ela realmente estava com o coração partido, queria de todo jeito ficar em casa. Todo dia me perguntava porque precisava ir... eu explicava, mas ela continuava inconformada. Eu também não estava gostando de vê-la tão pouco todos os dias, então um certo dia eu propus a ela o desafio de orarmos e pedirmos a Deus uma solução para o problema. Pois a resposta de Deus chegou em menos de dois dias! Ela saiu dessa CPE e foi direto para outra muito melhor - desta vez totalmente francófona, em 1/2 período (apenas 4 horas por dia) e com vaga para as minhas duas filhas! A localização desta também era melhor já que, diferente da primeira, bastava sair do metrô e já estava quase na porta da garderie. E o melhor, por causa da carga horária reduzida, eu pagava para as duas o mesmo valor cobrado somente para uma na CPE anterior. Para completar, o esquema desta garderie era diferente: crianças de 18 meses em diante ficavam juntas o tempo todo, o que achei ótimo. Além das minhas filhas poderem ficar juntas (justamente o que eu queria), essa forma de trabalhar permite uma socialização muito mais saudável já que a criança aprende a lidar com faixas etárias diferentes. Ou seja, não podia ser mais perfeito, foi presente de Deus!

Resumindo, elas frequentaram esta CPE por um total de apenas 3 meses (do fim de janeiro até o fim de abril), mas foi um tempo muito memorável! Não iam todos os dias (a coordenadora não se importava desde que continuássemos pagando, rs), usávamos a creche somente quando eu precisava de verdade (por causa das minhas aulas e porque era cansativo demais ir com as duas de ônibus e metrô). Mas neste tempo, elas puderam aprender muitas palavras e musiquinhas em francês, se divertiram com os coleguinhas e, principalmente, sei que elas foram muito bem cuidadas pela equipe que tinha muito carinho por elas.

Esta foto foi tirada com a educadora preferida delas no dia da despedida.

Ah... antes de encerrar esta parte, preciso contar mais um detalhe do milagre do emprego do Douglas! Uma grande preocupação que tínhamos era com relação ao horário de trabalho dele. De cara, na entrevista, ele já foi avisado da possibilidade de ter de trabalhar no período noturno, até meia-noite, caso fosse aprovado no treinamento. Aceitamos a condição mesmo sabendo que eu estudava à noite 3 noites por semana e isso colocaria um peso terrível nos meus ombros. Significava que ou eu levava as meninas para a aula comigo ou corria o risco de perder o semestre! Pedimos a Deus por uma solução e descansamos nEle. O treinamento teórico, que estava previsto para durar 5 semanas, iniciou em 17 de fevereiro e, durante este período, o horário das 8:00 às 16:00 seria perfeito para ele buscar as meninas na CPE assim que saísse do trabalho. Pela manhã eu ficava com as meninas em casa, dava almoço e depois as levava para a garderie antes de ir para a universidade estudar. Passaram-se as primeiras cinco semanas e, na sequência, avisaram que eles teriam mais 2 semanas de incubação para treinamento prático, cumprindo o mesmo horário de trabalho. Como se já não bastasse tanta graça, a empresa iria receber gente importante na semana seguinte e todos os gerentes estariam ocupados para dar suporte. Sabem o que isso significou? Que o período de incubação foi estendido, calhando perfeitamente com a semana em que eu entreguei meu último trabalho da faculdade! Foi somente em 21 de abril, quando eu já estava de férias, que ele começou no novo horário de trabalho, das 16:00 à meia-noite.

A nossa vida de um mês pra cá - Praticando homeschooling!
Desde que minhas aulas terminaram, estou num ritmo de vida totalmente novo!! Está uma delícia fazer homeschool com as meninas. E com a nova rotina, estou até conseguindo fazer exercício físico! A primeira providência foi me matricular numa academia para fazer Pilates e outras aulas. Estava precisando muito me exercitar! Agora tenho tempo livre para ler por prazer (comecei dois livros - um é sobre educação, chama-se Dumbing Us Down - The Hidden Curriculum of Compulsory Schooling e outro sobre saúde reprodutiva, chama-se Taking Charge of Your Fertility - The Definitive Guide to Natural Birth Control, Pregnancy Achievement, and Reproductive Health), algo que era impossível de fazer quando eu estudava full time.

Haha, já deu pra perceber que eu estou bem feliz com as mudanças, né! :)

Para o homeschool optei por usar dois programas ao mesmo tempo. Os dois são cristãos. Um é gratuito (Easy Peasy All-In-One-Homeschool) e o material está todo na internet. Comecei do Getting Started 1 (bem do início) para que a Alícia consiga acompanhar com a Nicole. Fizemos o Day 25 hoje (ainda tem chão, são 222 dias essa primeira parte!). A proposta do Getting Started 1 e Getting Started 2 é que a criança aprenda a ler cedo para que possa trabalhar sozinha quando começar o Level 1. Eu não tenho intenção nenhuma de acelerar as coisas... quero ir no tempo delas. Porém, vejo que elas estão ávidas por aprender. A Nicole me pede para estudar! As lições são bem gostosas e curtas o suficiente para que a Alícia, que ainda nem completou 3 anos, consiga acompanhar - ela está aprendendo a clicar com o mouse, rs. Eu prevejo que no futuro, quando ela crescer e ganhar mais maturidade, eu tenha de refazer muitas lições com ela, mas pode ser que eu esteja enganada. Só a experiência dirá. Quase todo dia tem alguma sugestão de craft para fazer, e quase sempre inclui pintar, recortar e colar. Pra mim se tornou terapia! Como não temos impressora, eu já fui algumas vezes à faculdade e imprimi com antecedência uma quantidade razoável de lições de que vamos precisar.

Hoje excepcionalmente usamos canetinhas para fazer o craft,
mas normalmente usamos lápis de cor (Nicole) e giz de cera (Alícia).

O outro currículo que usamos é da mesma empresa de quem compramos livros no ano passado (Sonlight Christian Homeschool Curriculum). Desta vez, comprei o Pre-Kindergarten Program para crianças de 4-5 anos. O pacote anterior, Preschool Program, para crianças de 3-4 anos, nós já tínhamos e o trouxemos na mala para cá. Simplesmente amamos o tempo de leitura no sofá! Terminamos hoje a Week 4 com elas (cada ano tem 36 semanas). O tempo diário previsto para as atividades desse programa é 20-40 minutos e dá para fazer a qualquer hora do dia. Os Read-Alouds (as leituras em voz alta) têm bastante poesia, rimas, contos e curiosidades em geral. Às vezes lemos e encenamos a história para recontá-la ao papai depois. Uma novidade no programa deste ano é um livro sem imagens, só de texto. No começo foi difícil para a Nicole e exigiu um tipo de concentração diferente já que o seu hábito era ficar do lado "lendo" as ilustrações enquanto eu lia em voz alta. Mas agora percebo que já estamos engrenando melhor e aos poucos ela está se acostumando a usar a própria imaginação.

Como gostei muito do Mighty Mind que veio no kit do ano passado, acrescentei ao pacote deste ano, por um valor à parte, um material de matemática chamado Patternables. São figuras geométricas que acompanham folhas com desenhos para as crianças encaixarem. Elas gostam muito de montar com as pecinhas. Além disso, usamos muito o ipad tanto para exercícios de matemática quanto de alfabetização. Tem cada aplicativo maravilhoso! Como devem ter percebido, não sou contra tecnologia para crianças. Acho que devemos usá-la, com sabedoria, a favor da nossa educação. É uma ferramenta muito útil. Esclareço ainda que, curiosamente, matemática e alfabetização são as únicas duas matérias de metodologia de ensino que ainda não cursei na faculdade (sou estudante de Pedagogia). Por isso, quando voltarmos para o Brasil, agora no próximo semestre, estou ansiosa para saber o que os teóricos da educação têm a dizer sobre essas duas áreas. Vai ser interessante!  Terei a oportunidade de estudar a teoria de algo que eu já estou adquirindo um certo "saber fazer" (e, claro, formulando minhas próprias concepções teóricas) e isso, com certeza, vai potencializar minha capacidade de crítica durante o curso.

Finalmente, às vezes ouço mães que gostariam de homeschool dizer que acham excelente, mas que não se consideram suficientemente organizadas ou disciplinadas para fazê-lo. Pode ser ilusão minha de principiante, mas estou usando dois programas diferentes e posso garantir que não toma tanto tempo assim - no máximo 2 horas por dia, mas pra falar a verdade raramente chega a tanto! As meninas ainda têm tempo de sobra pra brincar, assistir desenho, e fazer outras atividades livres. No momento, a Nicole também está fazendo aulas de piano e de balé durante a semana. Como eu sou muito simpatizante do unschooling, prezo mais o raciocínio e lógica do que conteúdo em si. Minha filosofia tem sido me permitir toda autonomia e liberdade de que preciso para fazer ajustes conforme a vida pede pois, é tanto impossível como indesejável seguir uma rotina rígida. Por exemplo, o meu horário ideal de fazer as atividades é pela manhã, logo após o café (digo meu porque é quando meu cérebro está mais ativo), mas neste um mês de experiência, houve dias em que não foi possível fazer toda manhã, então fizemos de tarde ou de noite. Outros dias, pra ser sincera, nós nem fizemos!! Mesmo assim, estamos "em dia com a matéria", ou seja, cumprimos com o programa sugerido para a semana. Pelo menos neste estágio, o programa é bem simples... o principal, ao meu ver, é o que elas aprendam com a vida e que sejam instigadas pela curiosidade natural à medida que fazem perguntas. A curiosidade infantil é aguçada! Como muitas coisas que eu não sei explicar ou não lembro direito, pesquisamos juntas no google e no Youtube. Olha só os temas que já exploramos (sem esgotá-los, é evidente) nas últimas duas semanas que nada tiveram a ver com o programa oficial de estudos:

- Porque o céu fica laranja no pôr-do-sol;
- Que "bicho" é a joaninha é antes de virar joaninha;
- O que é um furacão; - O que as cobras comem;
- Como as aves constroem seus ninhos (assistimos a alguns vídeos sobre o joão-de-barro):
- Porque a gente tem febre.

Eu tenho outros assuntos relevantes sobre os quais ainda gostaria de escrever, mas o post está ficando longo demais. Vou deixar para começar um novo em breve. Espero conseguir me organizar para voltar a escrever no blog com mais frequência...

Confira a parte 2 aqui.

Um grande abraço a todos e todas que me leem!

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Relato de parto natural domiciliar... e super rápido! Você encararia um assim?

O relato de parto que venho publicar hoje é de uma amiga muito querida no Brasil que pediu para eu não divulgar o nome das pessoas da sua família. Nos conhecemos há mais de 2 anos e ficamos amigas porque éramos da mesma igreja e nossas filhas têm a mesma idade (com diferença de poucos meses). Como ela também se sente chamada a praticar o homeschooling, no 1o semestre de 2013 fizemos encontros quinzenais (play dates) com as nossas filhas que deixaram muitas recordações!

Quando deixei o Brasil, em 01/09/2013, ela havia acabado de completar 40 semanas de gestação de sua 3a filha. A bebê nasceu no dia seguinte! Foi um parto natural EM CASA como ela havia sonhado e orado a Deus. Seus dois primeiros partos foram normais também, porém hospitalares e cheios de intervenções, e ela queria muito viver uma experiência natural desta vez. Lembro de várias conversas que tivemos sobre este assunto durante a gravidez (já que é um assunto de que eu gosto muito, rs), sei que ela pegou dicas com outra amiga que também teve partos domiciliares (dois!), frequentou um grupo de apoio à maternidade, conversou bastante com o marido e, principalmente, pediu direção de Deus até se sentir em paz com a decisão. Enfim, ela pesquisou e se informou o máximo que pôde sobre o assunto para tirar dúvidas em relação ao que era melhor: parir em hospital, em casa de parto, ou em casa? Com ou sem doula? Com obstetra ou obstetriz (parteira)?

Abaixo segue o relato que ela me enviou (escrito dois dias após o nascimento da bebê e que eu editei para preservar a privacidade das pessoas envolvidas).

Relato de Parto – escrito em 04/09/2013
DUM 24/11/2012

Que alegria, estava grávida de mais um bebê. Queria muito essa gestação apesar dos temores. Fiquei feliz. Já fazia um tempo que havia desmamado a minha segunda filha, estava menstruando desde de julho e só fui engravidar mesmo em dezembro.

A gestação foi normal, perfeita, cheguei aos 75kg como nas outras duas, strepto B negativo, que bom, tudo perfeito. US de 38 semanas disse que ela era pequena com 2700g, mas na verdade ela não era pequena, nasceu bem com 3450g.

Durante a gestação fui aprendendo sobre o parto, as intervenções, conheci o GAMA e passei a ir nas reuniões de 5a feira. Foi muito bom. Tomei coragem, nos conscientizamos e decidimos pelo parto domiciliar. Passei com a parteira de uma amiga, mas não gostei. Passei com outra parteira e resolvi ficar com ela porque ia ser um pouco mais barato. No final, com 38 semanas resolvi mudar de parteira novamente porque achava esta menos intervencionista, mais preparada para intercorrências, mais moderna e mais profissional. A anterior tinha certos métodos (aminioscopia, estourar bolsa, massagem, etc.) que eu não queria.

Dia 31 de agosto, sábado, completei 40 semanas. O tampão saindo aos pedacinhos e pedações durante a semana inteira, sentia a barriga pesada e uma pressão maior no períneo. Passei no médico na 3a feira, dia 27, e ele disse que estava com 4-5 cm de dilatação. Achamos que o parto poderia ser a qualquer momento. Na 4a feira eu queria ir ao mercado, mas estava com medo de entrar em trabalho de parto e liguei para a parteira para ela me examinar. Ela disse que o colo estava posterior e que essa dilatação era residual por ser a 3a gestação, que eu poderia ir ao mercado porque ainda não era a hora. Dia 31, sábado, foi o picnic da igreja, queria muito ir, mas não estava em paz. Acabei entendendo no meu coração que tem tempo pra tudo e que naquele momento eu deveria me submeter às minhas circunstâncias. Era tempo de ficar quieta e aguardar. Tive poucas cólicas que vinham e iam. Domingo também, algumas coliquinhas pela manhã, à tarde passou, voltou a noite. Mandei uma mensagem pra parteira no domingo à noite. Tínhamos ido ao Habib's com as meninas para elas brincarem um pouco (pois passamos o final de semana de molho em casa), mas eu estava tendo as coliquinhas lá no restaurante. De lá mesmo mandei mensagem pra parteira, que ficou de sobreaviso. 

Na hora de dormir, domingo, eu estava cansada. Pensei comigo mesma: "Eu não vou entrar em trabalho de parto essa noite, eu vou dormir. Quero estar descansada". Dormi mesmo, dormi bem, não senti NADA. Acordei tranquila. Quando fiz xixi pela manhã, percebi uma gotinha de sangue no papel. Lembrei do que a minha mãe havia dito, que isso foi um sinal pra ela de que o parto estava chegando, mas pensei: “De pequenos sinais estou cheia. Pode ser agora ou não". Não estava sentindo nada. Mandei uma mensagem pro meu pai pela manhã:

Oi Pai,
Dormi bem, não tive cólicas durante a noite.
Hoje de manha, saiu um pontinho de sangue, menos que uma gota.
Esta progredindo, mas neste momento não estou sentindo nada.
Fiquem tranquilos porque eu vou perceber quando começar.
Bjs.

Tomei banho, desci, dei café para as meninas e tomei café. Quando ia começar a arrumar a cozinha, tive uma contração forte. Era 8:30. Pensei: “Essa foi forte. Não vou poder ficar aqui sozinha com as meninas se continuar assim. Vamos ver se vai engatar…”. 

Dez minutos depois, outra contração igual. Nem terminou a contração, já liguei para o meu marido. Falei pra ele que tive duas cólicas fortes e que não poderia ficar em casa sozinha, falei pra ele vir pra casa pra ficar comigo e me ajudar a cuidar das meninas. Ele disse que só poderia vir mesmo se fosse para a neném nascer, mas que ele iria falar com o chefe e ver se poderia vir, e que me ligaria de volta. Liguei para minha mãe e disse pra ela o que estava acontecendo, que ele viria logo e que ela poderia vir pegar as meninas pelo meio-dia (nem imaginava que tudo seria tão rápido!).

Dez minutos depois meu marido liga de volta, diz que está vindo. Eu confirmei dizendo que se não fosse um parto domiciliar, ele teria que me levar para o hospital naquele momento. Isso o tranquilizou de que realmente era hora de vir pra casa. Ele me mandou ligar para a parteira e pedir pra ela vir me ver. Eu resolvi terminar de arrumar a cozinha pra ligar pra ela depois, pois sabia que ela chegaria rapidamente, já que ela morava perto. Tentei terminar de arrumar a cozinha, mas tive uma outra daquelas contrações que me interrompeu e me assustou... resolvi ligar pra ela naquela hora! Ela perguntou de quanto em quanto tempo, falei que achava que de 10 em 10 minutos. Ela estava cansada pois tinha passado a noite em claro com outro parto, pediu para que eu contasse quantas contrações na próxima meia hora e então retornasse pra ela. (Sério?! OK). 

Meu marido chegou em casa às 9:30, eu estava andando pela sala. A minha filha mais velha, que fofa, segurava na minha mão e ia andando comigo enquanto eu vocalizava. Foi muito especial ter o suporte dela nessa hora. Muito, muito especial mesmo. Eu perguntei pra ela se ela estava com medo, ela disse que não e ela me perguntava se a bebê estava chegando. Eu não tinha certeza ainda (rsrs!), mas dizia pra ela que achava que sim. Quando o meu marido chegou, passei a lista pra ele do que precisava ser feito: 1) cronometrar as contrações para a parteira, 2) arrumar as meninas, 3) encher a banheira e 4) ligar para a minha mãe pra pegar as meninas AGORA.

Eu precisava de quietude, a dor era intensa e estava tudo muito agitado. A parteira liga e pergunta como está, meu marido diz que de 3 em 3 minutos, ela diz: “Opa, estou indo!”. Acabei indo para o quarto e fechei a porta. Fiquei lá e via o meu marido arrumando as meninas, enchendo a banheira, eu não tinha a menor condição de ajudá-lo. A dor era tanta, me ajoelhei no chão, apoiei minha cabeça na cama e fiquei ali. Vinha e voltava, mas entre as contrações ficava ainda uma dorzinha. Era tão rápido e já vinha outra. Eu queria água, ele ocupado, pensei: "Não tenho a menor condição de descer para pegar água". Fiquei ali mesmo, queria trocar de roupa, ir para o banheiro, para o chuveiro, precisava me acomodar de alguma forma, porque a dor estava forte. Eu pensava: "São 9:30 da manhã, acho que não vou aguentar até 12:00 com essas dores. Meu Deus, me ajude!". O versículo que Deus havia me dado para este parto era Salmos 28:6-7a: "Bendito seja o Senhor, pois ouviu as minhas súplicas. O Senhor é a minha força e o meu escudo; nele o meu coração confia, e dele recebo ajuda". Dele recebo ajuda. Dele recebo ajuda. Soava no meu coração. Pedia graça, forças. 

Decidi que tinha de me trocar, juntei forças e levantei, me troquei e fui para o banheiro. Meu marido tinha deixado um treco embaixo da banheira, estava super desconfortável para pisar ou entrar na água. Fiquei tentando levantar a banheira (que já estava meio cheia) pra tirar aquele treco, consegui! Me acocorei lá dentro com a água batendo nas minhas costas e fiquei lá. Nesse tempo chega minha mãe, e a parteira. E eu lá fazendo os meus barulhos, com as minhas cólicas, acocorada dentro da banheira. Não sei muito bem como foi, só lembro da parteira chegando com um sorriso, me chamando de querida, e perguntando se eu ia botar um ovo hoje. Eu ri e disse que sim, um ovo bem grande! Rsrs.


Acho que eu cumprimentei minha mãe também, mas não tenho certeza. De repente aparece o meu marido, pedi pra ele tirar foto. Eram cólicas muito fortes, fiquei ali de quatro com a água batendo nas minhas costas. Quando apoiava a cabeça na banheira, conseguia relaxar mais as costas, os ombros e a dor era melhor. O meu marido queria falar comigo, mas eu pedia pra ele não falar porque eu não tinha como me concentrar no que ele estava falando, eu precisava ficar bem fechada em mim mesma. Orava, queria chorar, queria fraquejar, mas falava pra mim mesma: "Tenho de ser forte, não posso fraquejar". Fraquejava e me erguia, foi uma luta interior naquele momento. Orava. De repente, vontade de fazer força, vontade de fazer cocô, falei para a parteira: "Quero fazer cocô!". Ela disse: “É a neném, querida! Não é cocô, é a neném, pode vir, deixa vir".

E assim a força veio, sozinha, eu só me rendi, e a cabecinha começou a sair. UAU! Eu não acreditava que já estava nascendo, doía, mas era muita emoção, uma mistura de medo, alegria e dor, muita dor, tudo tão rápido. Pus a mão lá embaixo e senti a cabeça dela. UAU! Foi saindo. Pedi para o meu marido pôr a mão ali e sentir a cabeça dela, meio pra dentro, meio pra fora. Que loucura! Que emocionante! Foram 4 contrações para ela sair. Entre as contrações do expulsivo, eu estava maravilhada! Conseguia esquecer da dor, porque estava muito maravilhada! Durante muita dor, mas já estava no final. Senti arranhar por dentro, mas era menos dolorido do que a contração porque a contração durava 1 minuto ou um pouco mais e o arranhão eram 2 segundos. Ela nasceu! Eu estava chocada, como havia sido rápido!

Eram 10:25, e a minha bebê nasceu. Eu perguntava se ela estava bem, pois esse era o meu medo. E a parteira dizia: "Ela está ótima querida, ótima"! UAU! Eu peguei ela no colo, estava em choque, como foi rápido, que sensação impressionante, ela tinha saído de dentro de mim, passado pelo canal vaginal e estava chorando em meus braços. Que especial! Minha bebê. Que linda! Que perfeita! Obrigada, Deus!

Uau, já tinha terminado. Ficamos ali uma meia hora. Minha mãe apareceu com as meninas. Tiramos fotos. Foi demais! Saí da banheira e fui pra cama. Fiquei com a bebê no colo, ela chorava, mas pouco, ficava a maior parte do tempo quietinha, respirando e mexendo os bracinhos, as mãozinhas e os dedinhos. Que fofinha. Logo saiu a placenta, com mais umas contraçõezinhas. Mas tranquilo. Carimbamos a placenta. Ela mamou, sugava tão bem. Forte. Sugou por 1h. Depois cortamos o cordão.

A parteira desceu e me deixou sozinha com o meu marido e a neném. Ficamos ali, que lindo! Contemplando, digerindo todo aquele momento. Coloquei a minha roupa novamente e ligamos rapidamente no Skype para passar a noticia para os pais do meu marido. Nem havíamos pesado a bebê ainda. Falamos rapidamente com eles, voltamos pra cima, pesamos a bebê, estava tudo bem. 

A parteira foi embora, minha mãe levou as meninas pra almoçar na casa dela e passar a tarde com as primas. Meu marido comprou duas marmitas no bar da esquina e nós almoçamos juntos, com a neném   do nosso lado. Que momento especial. Que fome! Foi lindo, perfeito, abençoado, demais! Melhor parto, falei que se tiver outros, não quero hospital de jeito nenhum! E dessa vez, se eu deixasse pra ir pro hospital às 8:30, na hora em que começaram as contrações, provavelmente a neném teria nascido no carro. Deus tem sido muito bom conosco! Obrigada, Senhor! Tu és fiel!!

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Os primeiros mil dias da criança e a importância dos pais!

Um assunto que sempre chama a minha atenção é a importância dos laços afetivos para a formação emocional saudável de uma criança. Há menos de um ano tive o privilégio de ler um livro que fala justamente sobre isto. Escrito por uma psicanalista e psicoterapeuta de Oxford chamada Sue Gerhardt, ele demonstra através da ciência como as primeiras interações psíquicas e sociais de um bebê afetam a constituição fisiológica do seu cérebro em desenvolvimento. Não é um livro de cunho cristão e acredito que ele ainda não tenha sido traduzido para o português - em inglês o título é Why Love Matters - How Affection Shapes a Baby's Brain - mas se você lê em inglês eu fortemente recomendo a leitura. Ele apresenta evidências científicas interessantíssimas confirmando o que fica cada vez mais claro para mim: a diferença que faz para a educação dos filhos a presença amorosa e diretiva dos pais no dia-a-dia.

Sem querer julgar ninguém por suas escolhas pessoais, até porque vejo que é antes de tudo um problema de políticas públicas, eu admito que tenho dificuldade de engolir o argumento de que o único fator que importa é a qualidade de tempo que se dedica aos filhos. Sim, claro que a qualidade é essencial, mas ela é intimamente ligada ao fator 'tempo'. Como é possível ter qualidade de tempo sem quantidade?? Eu acho bem difícil, ainda mais nos primeiros anos, quando o cérebro da criança ainda está em formação e sendo literalmente marcado para a vida toda, como mostra a autora.

Por isso, hoje venho compartilhar as sábias palavras do pediatra e ex-reitor da UNICAMP, José Martins Filho, que "discute a atual licença-maternidade no Brasil e defende uma mudança na legislação que permita à mãe ficar mais próxima de seu filho nos primeiros anos de vida, sem que tenha que abrir mão do trabalho" (conforme a descrição publicada pelo Instituto Alana no Youtube).

São menos de 4 minutos de entrevista que espero que a ajudem a refletir sobre o seu papel como mãe. Desejo que você seja inspirada ao vislumbrar a diferença que a sua presença faz na vida dos seus pequenos, hoje e amanhã, e o impacto que isto fará na construção de um mundo melhor! E, finalmente, que encontre forças em Deus para não desistir de ficar mais perto deles hoje, apesar das inúmeras dificuldades e resistência que talvez você encontre pelo caminho.



Antes de terminar e seguindo esta mesma linha da importância dos vínculos familiares para a vida social bem sucedida do ser humano, existe um outro livro, escrito pelo psicólogo canadense Gordon Neufeld e o médico húngaro Gabor Maté, que eu também estou muito interessada em ler.  O título é Hold On to Your Kids: Why Parents Need to Matter More Than Peers. Na verdade, eu assisti a uma entrevista de 2004 em que o Dr. Gordon Neufeld denuncia a falsa suposição de que quanto mais cedo a criança entrar na escola melhor. Ele mostra que o contrário é verdadeiro e aponta para o perigo da formação precoce de vínculos com os pares (crianças da mesma idade), em vez de com os pais, numa idade em que o que a criança precisa é de amor incondicional e de direção de um adulto. Afinal, salvo minorias exceções de pais abusivos, quem melhor do que mãe e pai para suprir esta necessidade da criança?! Veja a entrevista toda, se souber inglês, e compartilhe com seus amigos. Garanto que serão 26 minutos muito bem investidos!

Aproveito o assunto de hoje para também direcioná-los à leitura de outros posts em que já falei sobre o assunto de maternidade, família, creche e políticas públicas.

Basta clicar nos links abaixo para lê-los.

Creche noturna beneficia a sociedade?
Você concorda com o aumento da jornada escolar?
Eu largar o emprego e depender financeiramente do meu marido? Você só pode estar louca!
Meu bebê nasceu e logo termina minha licença. O que eu faço agora?

Um grande abraço,
Talita

domingo, 15 de dezembro de 2013

Uma mulher e três experiências: uma cesariana, um parto normal hospitalar e um parto domiciliar - PARTE 2

(Este post é continuação do de ontem. Para lê-lo clique aqui!).

Relato do Parto da Giulia

O positivo
A Giulia veio inesperadamente. Parei com o anticoncepcional por causa das dores pós-parto do Lorenzo. A solução da médica para acabar com meu problema era aumentar os níveis de estrogênio. Ou eu parava a pílula e via se meu organismo reagia sozinho ou eu tomava uma pílula tradicional e corria o risco com a amamentação. Como eu já tinha tentado de tudo para acabar com o problema, resolvi tentar parar com o anticoncepcional já que correr risco com a amamentação estava fora de cogitação.

Em outubro, já tinha passado da data da minha menstruação vir e resolvi fazer um teste. Negativo. Passou mais uma semana e nada da minha menstruação, fiz outro teste e a segunda linha apareceu bem fraquinha. Comprei um terceiro teste, mais confiável, e repeti dois dias depois. A lista estava lá, bem nítida. Eu estava grávida, de novo... Feliz por um lado, mas em pânico por outro.

A gravidez
Eu liguei em todas as clínicas da minha cidade e não consegui nenhuma vaga para fazer pré-natal. Grávida de umas 6 ou 7 semanas e ninguém tinha vaga?? Começou meu desespero. Também liguei nas duas casas de parto possíveis e me inscrevi na fila de espera sem nenhuma esperança. Em uma última tentativa consegui um médico para o início de dezembro. O problema é que eu verifiquei as referências sobre o tal médico na internet e era terrível. Ele tinha usado fórceps e deixado um bebê com sequelas. Decidi que não iria nele de jeito nenhum. Era melhor encarar uma gravidez sem pré-natal.

Decidi então que iria parir em casa com uma parteira tradicional. O problema é que eu precisava de um médico de qualquer maneira. Como ela não era “legal”, não tinha como solicitar exames e em uma emergência, era melhor ter um prontuário aberto em algum hospital. Consegui uma médica na cidade vizinha por indicação de uma conhecida. Ela me sugeriu outra cesárea logo de cara e eu disse que gostaria de tentar de novo. Ela disse que me ajudaria. Sai de lá confiante. Pelo menos, se eu precisasse de médico, ela parecia ser uma opção razoável.

Novas consultas e novas emoções. Meu exame de urina acusou presença de strepto B. A médica, muito calma, disse que eu tomaria antibiótico durante o TP e pronto. E como eu faria com o antibiótico em um PD? Além disso, ela me disse que provavelmente começaríamos uma indução às 37 semanas para evitar que o bebê nascesse muito grande. Começou meu desespero de novo. Somado a tudo isso, horas de espera por uma consulta de 5 minutos.

Com 20 semanas eu decidi que não iria mais para as consultas. O prontuário já estava aberto e eu decidi que ir ao médico era tortura desnecessária. Toda vez que eu tinha consulta eu me sentia mal antes, durante e depois. Na mesma semana que eu tomei este decisão, a casa de parto me ligou e tinham uma vaga para mim!

O pré-natal na casa de parto foi excelente. Consultas de 1h, muito carinho, tiravam todas as minhas dúvidas, me davam informações e nada foi imposto. Todos os procedimentos foram discutidos comigo e cabia a mim decidir se eu queria ou não (inclusive o antibiótico para o strepto B). E eu poderia parir em casa se eu quisesse! Tirando a questão do strepto que me atormentou a gravidez toda, a partir deste momento eu me senti em paz.

Eu não vi a gravidez passar até que comecei a sentir contrações demais (por volta de umas 32 semanas) e a parteira me pediu para “repousar” o máximo que eu conseguisse para não nascer prematuro, se não, eu teria de ir para o hospital.

O parto
De domingo para segunda-feira (17/06 – com quase 38 semanas), os meninos quiseram dormir com a gente. Por volta das 6h da manhã, Lorenzo acordou querendo mamar. Eu estava amamentando-o quando veio uma contração e eu senti um pouco de líquido escorrer. Levantei-me e vi que realmente tinha vazado líquido, além do tampão também ter saído.

Arrumei os meninos para a escola, avisei minha amiga e ela veio ficar comigo. Saímos para a casa de parto já era quase hora do almoço e nada de contrações ou pelo menos nada diferente do que eu já vinha sentindo. O mais estranho é que o líquido parou de vazar. A parteira me examinou, fez dois testes e disse que provavelmente não era líquido, só lubrificação comum do final da gravidez.
Voltei para casa, o marido foi para o trabalho de bicicleta e eu fiquei de buscar as crianças. Passamos uma tarde agradável. Eu fiquei na bola, forramos a cama e resolvi deixar as roupas dos meninos separadas para uma emergência. Minha amiga ainda ficou tirando um barato do meu alarme falso. No final da tarde, eu comecei a sentir as contrações mais fortes, mas ainda sem ritmo e não me preocupei. Fui ao supermercado, preparei as coisas para a minha reunião e busquei os meninos na escola. Eu estava meio indisposta, mas atribui ao cansaço já que tinha dormido mal. Falei com a minha mãe no skype e ela me perguntou o que estava acontecendo porque minha cara estava estranha. Eu disse que não era nada, só cansaço mesmo e como estava calor, eu estava um pouco indisposta. Engraçado como eu não percebi que as contrações tinham mudado e minha mãe, do outro lado do mundo, era capaz de perceber que algo estava diferente. Eu cheguei a me esconder na cozinha em uma das contrações para minha mãe não me ver!

Fui para a reunião por volta das 19h e comecei a cronometrar as contrações. Elas duravam no mínimo uns 45 segundos e vinham a cada 15 minutos. Tentei me distrair o máximo que eu pude, mas eu simplesmente não conseguia disfarçar, nem me mexer na hora da contração. Mandei uma mensagem para meu marido perguntando se não era melhor eu ligar pra parteira de novo, mas ele achou que ainda não precisava, que era cedo. Por volta das 22h, esperei passar uma contração, peguei o carro e vim pra casa. Deu tempo certinho de eu estacionar e veio outra.

Chegando em casa, pedi para o meu marido colocar as crianças para dormir e ele acabou dormindo também. Fui para o banho com a bola. Enquanto eu tomava banho eu quis desistir. Fiquei pensando onde eu estava com a cabeça quando resolvi ter esse bebê. Eu devia ter decidido por outra cesárea porque passar 3 dias com estas dores e ainda aguentar o TP (trabalho de parto) todo não ia ser moleza (eu estava me baseando no TP do Lorenzo). O bom é que esse desânimo passou rápido. Conversei com meu bebê e disse que se ele quisesse vir, eu estava esperando e pronto, que a gente ia conseguir. Por incrível que pareça saí do chuveiro mais calma. Era um pouco antes das 23h. Tentei acordar meu marido, mas ele disse que ia descansar porque eu podia precisar dele no outro dia e ele estava muito cansado.

Fiquei na sala sozinha com minha bola e eu tentava arrumar uma posição cada vez que vinha a contração, mas todas as posições eram péssimas e eu comecei a sentir muito sono. Deitei no sofá e tentei dormir. Eu dormia exatos 10 minutos e lá vinha a contração. Eu tinha que levantar porque deitada era tortura demais. Fiquei assim um pouco mais de uma hora quando comecei a sentir frio também. Vesti meu pijama e minhas meias de inverno porque me deu até tremedeira e fui deitar na minha cama. Eu tive umas duas ou três contrações na cama com um intervalo de uns 7-8 minutos. De repente, outra contração e eu resolvi ficar de quatro. A bolsa estourou, mas estourou mesmo. Fez barulho e saiu muita água. Molhou a cama, o chão, tudo. Meu marido me ajudou a ir para o chuveiro e do banheiro mesmo ligamos para a parteira e para a doula. Era um pouco mais de 12h30.

Elas falaram que já estavam vindo, mas eu já não conseguia nem falar nesta hora. As contrações vinham a cada 2 minutos e duravam mais de 1 minuto cada. Mal dava tempo de eu respirar entre elas. A casa estava uma zona. Imaginem que meu marido tinha ficado sozinho com as crianças por 3h. Tinha brinquedo espalhado por tudo, a pia cheia de louça, um caos. Ele me deixou no banheiro e foi arrumar um pouco a bagunça. Ah, e ainda pediu pra eu passar uma água nas minhas roupas pra tirar a meleca...

Eu fiquei no chuveiro com a bola até a primeira parteira chegar. Ela tentou ouvir o coração do bebê umas 3x entre as contrações, mas não conseguiu e pediu pra eu sair só um pouco para ela ouvi-lo e eu poderia voltar. Eu nem sei como cheguei até a minha cama. Ela ouviu o coração e perguntou se poderia me examinar. Eu deixei morrendo de medo de não estar dilatada com toda aquela dor (traumas do Lorenzo ainda), mas eu estava com 9 cm!

Eu fiquei tão feliz, pelo menos faltava pouco e eu não ia ficar com aquela dor 3 dias como eu estava imaginando. Logo em seguida a outra parteira e a doula chegaram e eu já comecei a sentir os puxos. Foi muito rápido. Eu não tive nem coragem de mexer e fiquei deitada de lado na cama, do jeito que eu estava. Veio aquela vontade de fazer força e eu me segurei. Eu confesso que fiquei morrendo de medo de rasgar tudo de novo. A doula me deu a mão e me lembrou que eu não precisava ter medo, que se eu quisesse podia colocar a mão pra ajudar, assim, eu sentiria o bebê nascendo. Foi ótimo, me deu o maior ânimo colocar a mão e sentir o bebê coroando. A contração veio e eu não fiz muita força, fiz força o suficiente só para a cabeça não voltar pra dentro. Senti queimar e depois a cabecinha saindo. Me deu um alívio tão grande! Ninguém puxou minha bebê e nem me apressou para ela terminar de sair. A parteira viu se não tinha circular de cordão e esperou. Quando a contração veio de novo, eu empurrei o corpinho e senti ela saindo inteirinha. Peguei ela e a abracei. Tão linda! Toda cheia de vernix e sem sangue!!!!

Ninguém viu o sexo. Puseram um paninho sobre ela para aquecer e fui eu que vi que era uma menina! Peguei no cordão também, senti ele pulsar, a textura. O marido que cortou o cordão e decidimos guardar a placenta para plantarmos mais pra frente.

A primeira parteira chegou em casa por volta da 1h30 e a Giulia nasceu à 1h48 da manhã do dia 18/06/2013, com 51cm e 3125g. Ela não sofreu nenhuma intervenção. Não teve colírio, vitamina K, antibiótico, nada. Nasceu na hora e da maneira que ela quis e eu não tive nenhuma laceração (oba!).

Realmente cada parto e cada bebê é único. Foi tudo muito diferente do que eu imaginei e não podia ser mais perfeito. Foi um caminho longo, onde pude contar com pessoas especiais (obrigada!!!) e que curou muitas das minhas feridas. Espero que a minha história sirva de inspiração para outras mulheres e que elas se sintam realizadas assim como eu!

Nascimento do Pietro - Cesariana eletiva no Brasil.

Nascimento do Lorenzo - Parto normal hospitalar no Canadá.

Nascimento da Giulia - Parto natural domiciliar no Canadá.

Uma mulher e três experiências: uma cesariana, um parto normal hospitalar e um parto domiciliar - PARTE 1

Amanda Naldi tem 32 anos, é casada com Daniel e mãe de Pietro (5 anos), Lorenzo (2 anos) e Giulia (5 meses). Natural de São Paulo, ela imigrou para o Canadá há pouco mais de 3 anos. Eu a conheci num grupo de brasileiros pelo Facebook quando li seu comentário de que havia ganhado bebê em casa, aqui no Canadá. Fiquei curiosa para saber mais e pedi que ela contasse como foram suas experiências de parto para eu compartilhar aqui com vocês.

Foram três experiências de parto completamente diferentes! Primeiro, uma cesariana eletiva tranquila em São Paulo, depois um parto normal hospitalar traumático seguido de um parto domiciliar dos sonhos, ambos aqui no Canadá. Uma história que vale a pena ler!

Relato de parto – VBAC no Canadá

História
Eu cresci ouvindo minha mãe falar barbaridades de parto normal. Ela sofreu muito no meu parto, tentaram de tudo, inclusive fórceps e eu acabei nascendo através de uma cesárea, toda machucada (quase fiquei cega e uso óculos até hoje por causa disso). O diagnóstico: DCP (desproporção cefalo-pélvica). Minha mãe ficou traumatizada e influenciou toda a família. Meu irmão mais novo nasceu através de uma cesárea eletiva, assim como todas as minhas primas e os filhos das minhas primas também. Logo, depois das minhas avós, todas na minha família tiveram os filhos através de cesáreas.

Meu primeiro filho nasceu no Brasil, através de uma cesárea eletiva sem nenhuma indicação. Ele nasceu no dia que completamos 40 semanas. Eu não fui amarrada, todos foram muito gentis comigo e o amamentei assim que terminaram de me costurar e examiná-lo (ele sofreu todas as intervenções de rotina). Pra mim aquilo era o normal e eu estava dando o melhor para o meu filho. Na época, eu inclusive achei a recuperação excelente. Tive dor por alguns dias, mas eu conseguia cuidar do meu filho sozinha e estava encantada com a maternidade.
 

No entanto, amamentar doía e eu vivia com meu seio machucado. Minha família começou a pressionar para eu dar mamadeira porque era o “normal”. Minha mãe me dizia que logo eu voltaria a trabalhar e seria melhor assim. Nesta época eu ficava bastante tempo na internet e decidi pesquisar sobre amamentação e descobri outro mundo. Eu decidi tomar as rédeas da situação e fazer as coisas do meu jeito. O grupo GVA (Grupo Virtual de Amamentação) no Orkut me salvou. Eu não apenas amamentei exclusivamente meu filho até os 6 meses, como ele foi amamentado por quase 3 anos mesmo eu trabalhando em tempo integral. Não foi fácil, mas toda vez que eu penso nisso fico orgulhosa de nós dois. Junto com a pesquisa sobre amamentação acabei lendo muito sobre educação de crianças, parto, etc. A maternidade em geral. Isso me tornou outra pessoa. Acho que neste momento eu sai da “matrix”.
 

Decidi que quando eu tivesse outro filho tudo seria diferente. O tempo foi passando, minha vida deu uma reviravolta e decidimos imigrar para o Canadá. Largamos emprego, família, casa e viemos para o Canadá sem nada. Meu filho estava com 2 anos e 4 meses na época. Uns 4 meses depois, época de Natal eu me senti mal, desmaiei e fui parar no hospital com um sangramento que eu pensava ser minha menstruação querendo voltar (eu ainda não tinha ficado menstruada depois do nascimento do meu filho). Como a data da minha última menstruação era de 2007 decidiram fazer um ultrassom. Eu descobri então que eu estava grávida de 8 semanas!
 

Foi um período muito difícil. Estávamos sem emprego, num país novo e tendo que se comunicar em uma língua que não dominávamos (francês). Desespero total!
 

Passado o susto inicial, marquei consulta pra fazer o pré-natal e comecei a procurar uma doula. Meu marido concordou comigo que seria um investimento válido mesmo a situação financeira sendo complicada. Procurei na internet e, no fim, alguém me indicou uma doula brasileira.
 

Entrei em contato com a doula. Na época eu estava com 13 semanas mais ou menos. Ela se mostrou interessada e logo depois marcamos um encontro. Ela foi em casa e conversamos bastante. Neste encontro conversamos um pouco sobre a cesárea eletiva do Pietro, sobre não ter tido nenhum tipo de intercorrência na gravidez, sobre a recuperação "perfeita" que eu tive mesmo sendo uma cirurgia, sobre os meus medos (episiotomia e fórceps), a história da minha mãe e do meu nascimento, minha vontade de tentar um parto natural desta vez, entre outras coisas.
 

Ela me explicou que ela fez um curso de doula e que ela ainda era "estagiária". Por esta razão ela poderia me acompanhar se eu quisesse e não haveria custo nenhum. Além disso, ela buscaria respostas com suas professoras caso fosse necessário. O único porém era que não teria uma substituta caso ela não pudesse comparecer no parto. Confesso que eu fiquei muito feliz depois desse encontro. Eu acreditava ter tirado a sorte grande! Era tudo de que eu precisava!
 

Com uns 7 meses de gravidez, as coisas começaram a complicar. O médico que me acompanhava no pré-natal começou a me dar fortes indícios de que ele queria fazer outra cesárea. Solicitou um exame que mediria a altura da cicatriz uterina para ver se eu poderia tentar um VBAC (Vaginal Birth After Cesarean). Disse que não seria seguro porque minha cesárea foi costurada em apenas um plano (conforme o papel que minha médica do Brasil forneceu, explicando como foi feita minha cesárea e atestando que era seguro um VBAC), enquanto que o padrão dos EUA e no Canadá (mais seguro) seria de costurar em dois planos. Cada consulta que eu tinha com ele era uma aflição. Menos de 5 minutos de consulta e ele conseguia me deixar insegura!
 

Obs: Aqui não é fácil trocar de médico, nem escolher o hospital em que você vai ser atendida. O sistema de saúde é bem diferente do Brasil. Além disso, eu não conhecia muita coisa e tinha dificuldades com o idioma, o que tornou as coisas ainda mais complicadas.
 

Alguns pontos que eu gostaria de registrar porque eram coisas muito importantes para mim ou eventos que me marcaram nesta época:
 

1) O exame. Eu fiquei 2 meses esperando o hospital me ligar para eu ir fazer o tal exame e eles nunca me ligaram! Fiquei 2 meses tensa por nada!
 

2) O médico do pré-natal. Na última consulta que eu tive com o médico que fez meu pré-natal, ele simplesmente passou uma requisição para o hospital solicitando uma segunda opinião sobre meu VBAC (já que eu não fiz o exame) e me informou que ele sairia de férias por 4 semanas (eu estaria entre 37 e 41 semanas de gravidez neste período). Se ele voltasse de férias e o bebê não tivesse nascido, ele faria outra cesárea porque seria perigoso demais uma indução no meu caso. Ele não quis nem olhar meu plano de parto! Ele disse para mim, você mostre isso no hospital quando ele for nascer, eu não vou olhar porque não sou eu quem vai fazer seu parto! Se for eu, será uma cesárea e pronto. Saí da consulta atordoada. Conversei com a doula e ela me disse que eu poderia ter tido sorte dele sair de férias, afinal ele estava com todo jeito de querer fazer outra cesárea.
 

3) A anestesia. Eu não queria tomar anestesia de jeito nenhum. Eu fiz meu marido prometer que se eu ficasse com muita dor e começasse a pedir anestesia, não era pra deixar me darem. Ele ficou inseguro, mas aceitou meu pedido: ele não deixaria me darem anestesia. Até que este assunto surgiu em um dos encontros com a doula... Ela foi veementemente contra! Ela nos disse que só eu saberia o limite da minha dor e que ele não poderia tomar esta decisão por mim, afinal o corpo e a percepção da dor eram meus. Ele estaria lá pra me apoiar, mas que a decisão no momento deveria ser apenas minha.
 

4) A posição para parir. Eu não queria parir deitada de jeito nenhum. Deixei isso bem claro em todos os momentos. Eu odeio deitar de barriga pra cima em qualquer momento, imagine na hora do parto, com dor e ainda por cima depois de ler tanta evidência científica dizendo que essa posição é péssima, só é fácil para o médico mesmo.
 

5) Episio e fórceps. Eu tinha muito medo de episio e fórceps. Cresci ouvindo minha mãe me contar do pesadelo do meu nascimento. Eu conversei sobre isso com a doula e com meu marido. Aqui não fazem episio de rotina e, portanto, mesmo que acontecesse uma laceração, ela não seria muito “grande”. Era fazer exercícios e preparar o períneo. Assim com 34 semanas eu comecei a massagem e os exercícios regularmente.

Pródromos e Parto
Tudo começou no sábado pela manhã ((39+3sem). Todos saíram e eu fiquei sozinha em casa. Do nada fiquei apertada para ir no banheiro fazer xixi. Quando me limpei tinha uma borra com sangue. Achei que era o tampão. Passei o dia todo com essa borrinha com sangue e sem dor nenhuma. De noite percebi que estava com contrações. Fiquei me remexendo, levantei, andei... Resolvi marcar e as contrações estavam de 15 em 15 minutos, às vezes de 10 em 10 minutos. Finalmente a manhã chegou e com a claridade elas se foram completamente! Como em um passe de mágica elas desapareceram.
 
Domingo acabei passando o dia bastante ansiosa, com muito poucas contrações e muito irregulares. O dia foi embora e eu fiquei com medo do que me esperava a noite... Dito e feito, bastou eu dormir para as contrações começarem de novo. Passei a noite toda me remexendo na cama e anotando as contrações que vinham a cada exatos 15 minutos. Fiz isso das 12h as 4h e adivinha? Passaram completamente depois disso. Resolvi desencanar de marcar os intervalos.
 

Na segunda-feira pela manhã eu falei com a doula de novo e combinamos que se acontecesse de novo na próxima noite que ao invés de ficar parada eu iria me movimentar.
 
Quando escureceu eu comecei a sentir algumas contrações novamente. Eu resolvi tomar um banho e jantar (comi um pão o dia todo e no fim não consegui jantar). Enquanto eu mexia na geladeira veio uma contração e eu senti escorrer um pouco de líquido. Resolvi me abaixar e na primeira acocorada eu senti escorrer um monte de líquido. Eu tive certeza que a bolsa tinha estourado!
 

Liguei pra doula e contei o que tinha acontecido. Ela pediu pra eu tomar um banho e aguardar um pouco porque como eu não estava com contrações era melhor tentar fazer o trabalho de parto engrenar um pouco antes de ir pro hospital. Como não podia induzir, se eu fosse pro hospital sem contrações a chance de ter que fazer cesárea seria maior. Fiquei de ligar pra ela dentro de 2h pra dizer como iam as coisas.
 

Tomei um banho e as contrações começaram com força total. Sentei no computador pra usar o contador de contrações porque contar a duração com dor era impossível. Marquei por uns 30 min e resolvi ligar pra doula porque elas estavam de 5 em 5 minutos, às vezes de 4 em 4. Ela falou pra gente ir pro hospital que ela nos encontraria lá.
 

Vesti minha roupa e terminei de arrumar as coisas pra maternidade. Eu já estava com tanta contração que pra descer as escadas e chegar na rua eu devo ter demorado uns 15 minutos. Cada dois passos eu tinha que parar e esperar a contração passar. Chegamos no hospital e eu ainda consegui rir porque eu não conseguia chegar até o elevador!
 

A entrada na maternidade foi bem fácil e sem nenhuma burocracia. Entreguei a carteirinha e o plano de parto e já me levaram pra sala de parto. Em menos de 5 minutos eu já estava na sala de parto, que mais parecia um quarto mesmo, com a enfermeira instalando o monitor fetal e fazendo o acesso no meu braço. Na hora fiquei feliz porque não iam me amarrar em lugar nenhum, eu ia ficar sem soro e poderia andar se eu quisesse. Logo depois disso a enfermeira me examinou e a primeira decepção. Só tinha 3cm de dilatação! Tudo aquilo de dor e 3cm??? Fiquei apavorada. Ela saiu e deixou nós três sozinhos.
 

Isso eram umas 22h (eu acho). Ficamos nós três na sala, a doula me fazendo massagem e me ajudando com as contrações. Apagamos a luz, ficamos bem confortáveis. Eu não conseguia nem ficar em pé de tanta dor, quanto mais andar. A melhor posição era sentada na beirada da cama mesmo. Eu tentava fazer as respirações que aprendi na yoga, me acalmar, mas nada funcionava. Eu imaginei que ia sentir dor, mas nunca imaginei que as contrações ficavam tão próximas umas das outras tão rápido e faltando tanto pra chegar no final. Quando eram umas 2h eu não aguentava mais de dor. As contrações vinham de 2 em 2 minutos e duravam mais de 1 minuto cada uma. Eu queria vomitar de tanta dor, tentei tudo quanto é posição e nada me ajudava. Não dava tempo nem de respirar e já vinha outra contração. Eu já estava num mundo à parte mesmo. Eu gritava, ficava de 4, esperneava, não estava nem aí pra nada. A enfermeira veio me examinar de novo e a dilatação ainda estava em 5 cm. Nesta hora eu entrei em desespero mesmo, ainda faltava metade e eu já estava com muita dor desde as 20h quando a bolsa rompeu! 6 horas de dor e apenas 5 com de dilatação... A enfermeira sugeriu a banheira e eu aceitei, mas não cheguei a ir até a banheira. Comecei a pedir a anestesia. Meu marido me perguntou se era isso mesmo que eu queria, se eu não preferia ir pra banheira primeiro e eu disse que não, que queria a anestesia. A doula não abriu a boca. Segundo meu marido, ele olhou para ela e ela o apoiou, como quem diz: ela que decide, você não pode fazer nada.
 

Fui no banheiro, tirei minha roupa e coloquei a camisolinha do hospital. Nesta hora, eu quis chorar, de dor, de medo, de ter fracassado tão rápido. Respirei fundo e pensei que talvez não tivesse outro jeito mesmo, pelo menos eu estava tentando o máximo que podia.
 

O anestesista chegou um pouco depois e eu tomei a epidural. Ele falou que demorava uns 10 minutos para fazer efeito, mas acho que foi mais rápido que isso, porque eu senti mais algumas contrações e passou. Nossa, como eu agradeci a quem inventou a anestesia. Me deu um alívio tão grande na hora. Pena que o alívio durou tão pouco tempo. Em segundos eu senti alguém me deitando e me colocando a máscara de oxigênio. Eu não via nada direito, só sei que tinha um monte de gente na sala. Não estava conseguindo entender nada. Só vi a médica falando pra mim que os batimentos cardíacos do bebê tinham caído muito (estavam menores que 80) e que se não voltassem em menos de 10 minutos ela teria que fazer uma cesárea de emergência.
 

Os batimentos estabilizaram. A médica me explicou que isso podia ter acontecido porque o bebê pressionou o cordão umbilical, mas que não dava para garantir e que ele podia estar ficando cansado. Graças a isso, foi instalado um monitor fetal na cabeça do bebê e eu não podia mais me mexer... A médica disse que não podia arriscar perder os batimentos cardíacos depois do que aconteceu e que se baixasse de novo, era cesárea na certa. Assim que tudo se acalmou e ficamos sozinhos de novo, a primeira coisa que a doula me disse foi: "Você sabe que agora você vai ter que parir deitada né?" Eu nem questionei o porquê, eu me odeio por causa disso. Na minha cabeça ela sabia mais do que eu. E pior, nem foi o médico ou a enfermeira que me disse isso, foi minha doula!
 

Depois disso, a doula e meu marido foram descansar e eu fiquei lá imóvel, respirando fundo e observando o monitor de batimentos cardíacos. Fiquei neurótica, não conseguia relaxar. A enfermeira vinha de tempos em tempos conversar comigo, me dizer que estava tudo bem e que eu poderia tentar descansar que ela estava verificando o monitor pra mim, mas eu simplesmente não consegui!
 

Sei que ficamos muitas horas assim. Pela manhã a enfermeira veio ver a dilatação de novo e ainda estava em 7cm... Ela e a doula ficaram impressionadas com a quantidade de contrações que eu tinha e por tanto tempo pra dilatação ainda estar em 7cm. Pouco tempo depois eu comecei a sentir uma vontade de empurrar o monitor fetal pra fora de mim. Falei isso com a doula e ela disse que provavelmente eu já estava quase dilatando tudo e a hora do expulsivo chegando. Ela chamou a enfermeira e a dilatação estava em 9 cm. Faltava uma tal rebarba de um lado. A vontade de empurrar só piorava e agora eu já estava com muita dor de novo. Uma dor diferente das contrações, que vinha junto com uma vontade louca de empurrar.
 

Dilatação completa! Cada vez que vinha uma contração eu tinha que segurar nos meus joelhos e fazer força. O meu pesadelo vinha se concretizando. Eu não queria parir em posição de frango assado nem nos meus piores pesadelos e lá eu estava, nesta posição e segurando meus joelhos. Cada contração eu conseguia fazer 3 forças. Pegaram um espelho pra eu olhar e eu via a cabecinha do meu filho vindo. Isso era muito legal, me dava forças pra respirar fundo, aguentar a próxima e empurrar. Enquanto eu descansava entre as contrações, o médico fazia massagem no períneo, meu marido e a doula conversavam comigo. Eu tinha certeza de que ia conseguir, já estava quase acabando.
 

Mais de duas horas depois e nada do bebê nascer. A médica me diz que o bebê não estava conseguindo se recuperar entre as contrações. Que eu estava fazendo tudo certinho, que a força estava correta, tudo ótimo, mas que ele estava entrando em sofrimento fetal. A médica me disse que ele teria de sair na próxima contração de qualquer jeito e que ela ajudaria com o fórceps. Me disse que eu precisava fazer a maior força que eu conseguisse. A contração veio e eu fiz muita força. Eu senti o bebê saindo, escorregando inteirinho, mas senti tudo rasgando também. Ele saiu inteirinho e de uma vez só.
 

Assim que ele saiu já o colocaram em cima de mim, doía tanto que eu nem conseguia segurá-lo, fiquei com medo dele cair até. Logo em seguida, meu marido cortou o cordão umbilical e eu fiquei tentando colocá-lo no seio pra mamar. Ele gritava tanto, mas tanto que nunca vi coisa igual. Acho que ele gritou sem parar por quase uma hora! Ele nasceu com 3,5kg, 54cm, apgar 10/10/10.
 

A placenta saiu rapidinho em seguida. A médica me mostrou a placenta e o saco onde ele ficava, me disse que eu tive uma laceração de quarto grau, deu anestesia local (estava doendo muito) e costurou. Eu fiquei com meu bebê o tempo todo. Meu marido sentou na poltrona e abaixou a cabeça nas mãos. Eu me sentia atortoada, perdi muito sangue. Ninguém me explicou nada. Assim que fomos para o quarto, a doula foi embora. Foi a última vez que a vi.
 

Essa parte foi muito doída, doída no psicológico, no emocional mesmo. A última coisa que eu queria era parir que nem frango assado e precisar de fórceps. Fora a laceração grave! Além da dor, eu ainda comecei a sofrer com medo das conseqüências dela (incontinência principalmente). Minha mãe fez campanha a favor da cesárea minha vida toda justamente por causa do fórceps e meu parto dos sonhos terminou com o uso dele. Muito frustrante, não dá pra negar. Meu bebê nasceu um pouco machucadinho por causa do fórceps e com uma bossa gigante que sumiu quase um mês depois.
 

A doula me ligou uns 2 dias depois do parto para saber como nós estávamos. Uma conversa de uns 10 minutos na qual eu chorei bastante e disse que estava com muita dor. Ela me orientou a fazer compressas geladas. Ficou de nos visitar no final de semana, no máximo no outro. Esta visita nunca aconteceu. Pior ainda, ela desapareceu. Eu mandei diversos e-mails, tentei ligar diversas vezes, deixei recados e nada. Quatro meses depois do parto, eu decidi fazer um teste e liguei para ela de um número desconhecido. Ela atendeu o celular na primeira tentativa que eu fiz. Eu desliguei sem falar nada. Eu não tive forças pra pronunciar nenhuma palavra. Logo em seguida recebi um e-mail dela dizendo que ela estava muito ocupada e que poderíamos nos encontrar no início do próximo ano. Eu ainda estou esperando...
 

Eu confesso que me senti realmente abandonada depois do parto. Nunca fui examinada pra saber se estava tudo bem (na minha consulta pós-parto, o médico, aquele que queria fazer cesárea por causa da cicatriz, me disse que se não estivesse saindo fezes pela minha vagina era porque estava tudo certo). Chamou meu marido em outra sala e disse que eu estava com DPP (depressão pós-parto). Receitou antidepressivo por um ano sem acompanhamento (eu nunca os comprei). Os pontos demoraram 2 meses pra cicatrizar e eu senti dor durante mais de 6 meses. Eu não tive apoio nenhum. Depois de ir atrás de informações na internet, decidi procurar uma fisioterapeuta e uma psicóloga. Elas foram essenciais para a minha melhora física e emocional. Não tenho mais seqüelas físicas do parto, nem meu bebê, mas até hoje eu ainda não consegui aceitar as coisas direito.

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