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Bem-vinda ao nosso blog!
Aqui, mamães muito diferentes mas com um único objetivo compartilham suas experiências nesta grande aventura que é a maternidade! Nós queremos, acima de tudo, ser mamães sábias, que edificam seus lares e vivem com toda plenitude o privilégio de sermos mães! Usamos muitos dos princípios ensinados pelo Nana Nenê - Gary Ezzo, assim como outros livros. Nosso objetivo é compartilhar o que aprendemos a fim de facilitar a vida das mamães! Fomos realmente abençoadas com livros (e cursos) e queremos passar isso para frente!


"Com sabedoria se constroi a casa, e com discernimento se consolida.
Pelo conhecimento os seus cômodos se enchem do que é precioso e agradável"
Prov. 24:4,5
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domingo, 4 de outubro de 2015

Emocionante VBAC humanizado! Relato de parto natural domiciliar com transferência.

Olá a todas!

Puxa, quantos meses estou sem publicar. O tempo realmente voa! Os últimos meses foram intensos e desafiantes para a nossa família. Meu marido ficou por 1 ano desempregado (apenas fazendo trabalhos avulsos de casa), eu finalmente concluí os meus estágios e terminei a faculdade - sim, agora sou oficialmente pedagoga! - e, por fim, estou GRÁVIDA de novo. Vem aí mais uma menininha para perfumar o nosso jardim de flores, hehe. Estamos felicíssimos. Esta semana completei 26 semanas e em breve (espero!) pretendemos nos mudar de casa para acomodar melhor a nossa família que cresce e também para ficarmos mais próximos do local de trabalho do marido que é em outra cidade. Muitas novidades, né? Os detalhes de como está a gestação, os planos para o parto, o homeschooling, os novos aprendizados e afins ficarão para uma próxima oportunidade porque hoje eu vim especialmente para publicar o relato de parto VBAC (vaginal birth after caesarean) de uma amiga da época de escola, a Juliana Dawel Laviola.

Um relato emocionante!! Confiram abaixo. :)

Um abraço,
Talita

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Trabalho de Parto – Ju e David – 19/03/15

Introdução: Meu primeiro parto foi uma cesariana provavelmente desnecessária. Digo provavelmente porque não há como ter certeza, a desculpa da médica: desproporção céfalo-pélvica. Essa é uma real indicação de cesárea, porém, muito rara. Dadas as condições: bolsa rota sem trabalho de parto às 7:00, internação precoce às 9:00, indução com ocitocina sintética, puxos dirigidos durante quase todo o processo, anestesia com somente 4 pra 5 cm de dilatação, muito cansaço e indicação às 17:30 me levam a crer que realmente houve falta de paciência para a evolução completa do TP. Isso me frustrou, e muito. Não sei porque, mas sou uma mulher com vontade imensa de parir meus filhos, por isso a frustração. Deitar naquela maca e abrir a janela para os familiares me fez sentir-me exposta, uma atração de circo, durante um momento de chateação. O meu problema: eu gosto de pensar nos outros e neste momento, era a última coisa que devia ter feito. Quis respeitá-los pelas horas de espera e dá-los o gostinho de verem a Nicole nascer. Todos estavam muito felizes, recebi sorrisos sinceros naquele momento, amo a todos que ali estavam mostrando seu amor por mim e pela mais nova integrante da família, porém, fiz errado, não foi bom pra mim.
Alguns conceitos do mundo do "parto com respeito" me foram apresentados pela Talita, que hoje me convida para escrever em seu blog. Mas não me lembro exatamente como fui me aprofundando no assunto. Antes de engravidar, lia muitos relatos de parto, assistia a vídeos de parto e comecei a estudar e compreender o que havia acontecido comigo e chegar a uma conclusão: eu queria parir sozinha, em meu lar, no aconchego da minha casa, sem plateia, sem que ninguém soubesse, inclusive. Queria o melhor para meu bebê, o menos traumático para ele, mesmo que exigisse que eu passasse pela maior e mais intensa dor da minha vida. Mas, como estava aprendendo, seria dor de vida, dor que valia a pena, dor que traria meu bebê da maneira mais saudável e natural possível. Era isso o que eu queria, estava decidida!
Engravidei, fui atrás da minha equipe. Conheci a Ana Cristina Duarte e me identifiquei com sua simplicidade e profundo conhecimento do assunto. Me senti segura. O restante da equipe escolhi por indicações dela: Janie Paula (doula) e Juliana Sandler (médica obstetra para plano B - caso precisássemos ir para o hospital numa emergência ou até por opção - e para acompanhamento do pre-natal em conjunto com a Ana Cristina). Às 38 semanas e 6 dias, entrei em trabalho de parto. Segue meu relato como foi sentido por mim:

Era quarta-feira, a madrugada havia sido estranha… acordei umas 4 vezes com dor forte, uma cólica, que passava após alguns minutos. Levantei por volta das 10:00 com a Nicole - 2 anos e 11 meses - me chamando: “Quero leite, mamãe”. Segui com a minha rotina, as contrações vinham fracas, mas não paravam. Não avisei a Janie, minha doula, afinal, estava em pródromos há 4 dias, o tempo todo em contato com ela, que me dizia: “Viva a vida! Aproveite os últimos dias de barriga! Coma coisas gostosas! Faça tudo o que quer e gosta! Pode ser hoje, mas pode não ser! Não fique parada esperando o TP (trabalho de parto) começar!” OK! Então era isso… continuei vivendo! A Nicole não iria à escola naquele dia, pois tinha pediatra. Combinei horário com a minha sogra, que iria me acompanhar na consulta. Mas doía… estava ficando com medo… deveria mesmo sair de casa? "Ju! Sem fazer alarde! Não avise ninguém! Viva a vida!" Liguei a TV para Nicole e fui deitar… não conseguia fazer mais nada.
Ao meio-dia resolvi contar contrações. Pensei: "Não é possível que isso seja normal, estão muito frequentes, não param!". Sim, estavam regulares, a cada 3 minutos. Mandei mensagem pra Janie que me disse: “Não saia de casa e chame seu marido. Ainda não sabemos se vai engrenar, mas fique quietinha no seu lugar”.
Cancelei com a minha sogra e fui sentar com a Nicole no sofá. E ela, tão sensível, me surpreendeu: “Mamãe, vai deitar na sua cama, você precisa descansar”. “Mas, eu quero ficar com você”, respondi. E ela: “Não mamãe, eu fico aqui sozinha, você vai lá na sua cama descansar”. Então eu fui! Não sei quanto tempo se passou até que a Janie me ligou: “Ju, to indo para aí. Vai tomar um banho bem relaxante”.
Chamei a Nicole a fomos as duas para o chuveiro. Sentei num banquinho e a coloquei na banheira no chão. Era muito bom ficar lá! Enquanto brincava na água, ela dizia: “Sabia que tem uma Gabi (Não me perguntem porque esse nome!) na minha barriga? Ela vai sair hoje…” Mesmo eu não tendo falado nada, ela percebia tudo! Como duvidar da sensibilidade das crianças?
Saí do banho e pouco tempo depois, o Daniel chegou. Me deu um abraço e me confortou: “É hoje! Vamos conhecer o nosso bebê!” Mas eu não acreditava que poderia ter chegado a hora e dizia: “Calma, pode regredir, não sabemos se é hoje”. Eu continuei deitada e ele foi até a cozinha e voltou com uma cesta cheia de guloseimas deliciosas que ele mesmo vinha comprando nas últimas semanas especialmente para o TP. Tinha chocolate, castanha de caju e iogurte. Durante as primeiras horas, comi quase tudo! Foi muito bom ter essas guloseimas ao meu lado e o incentivo de todos ao redor para que eu comesse porque, se dependesse de mim, não teria tomado nem água!
Logo em seguida (devia ser umas 14:00) chega a Janie, a minha doula, e a querida Anna Amorim, que escolhi para fotografar este momento. Ela, tão sensível e experiente, também me trazia palavras de conforto. Janie me deixou muito à vontade, fazia cafuné, massagens e até uma trança no cabelo ganhei! Decidimos chamar a minha sogra para buscar a Nicole, afinal, ela não queria ficar por perto e insistia que eu descansasse!



Após a chegada delas, perdi totalmente a noção do tempo. As contrações se aproximavam e eram cada vez mais doloridas (aliás, umas mais fortes e outras menos). Finalmente me convenci de que estava chegando a hora e me animei, achava que até as 22:00, o David teria nascido. Imaginei chamar a família para vir conhecê-lo no mesmo dia, comeríamos uma pizza e celebraríamos!
A Janie me aconselhou a levantar, caminhar. Disse que a Letícia (obstetriz auxiliar da Ana Cris) estava chegando. Fui para a sala e lá fiquei conversando entre as contrações, curtindo o momento! Sim! É possível curtir um TP! Meu marido tocava violão para mim, era um som agradável, que me trazia muita paz.



A Letícia chegou* e me examinou. Disse que estava tudo ótimo e evoluindo.
Dilatação acontecendo! 
Ok! Eu sentia que estava conquistando cada etapa, e que estava fácil. Apesar das dores, me sentia ótima! Sentei na bola de pilates e descansava o corpo na cama entre as contrações. A dor era intensa na região lombar. Janie fazia massagens e aquecia com uma manta elétrica. O calor ajudava muito! Eu vocalizava a cada contração, orientada pela Janie. Emitir um som ajudava, aliviava.


Em seguida fui para o chuveiro. Sentada na bola de pilates deixava a água escorrer, hora nas costas, hora na barriga. A dor nas costas era definitivamente a mais intensa. Eu continuava tranquila e, neste momento, entendi o que era a famosa “partolândia”: para mim, foi um estado de semi-consciência, onde, em meio à dor, se sente prazer e, os pensamentos se misturam e pouco se consegue falar. A bolsa amniótica ainda estava íntegra e eu já estava imaginando meu bebe nascendo empelicado (quando nasce envolto na bolsa amniótica). Sempre achei este fenômeno incrível e adoraria presenciá-lo! Daniel sentou num banquinho à minha frente e segurava a minha mão, me incentivava, falava poucas palavras, mas a sua presença era tudo que eu precisava. Me sentia segura.
Enquanto eu estava no chuveiro, elas enchiam a piscina na sala. Saí do chuveiro direto para ela. Foi uma sensação deliciosa! O tempo passava e, da piscina, voltei para o chuveiro, o dia havia escurecido, mas não tinha ideia do horário e nem me passou pela cabeça de perguntar! A dor aumentava, durante as contrações, um pensamento: Não aguento mais! Quanto falta? “Ahhhhhhh”, vocalizava e o tempo passava. Eu tinha ânimo, estava perto, deveria estar, só podia estar!


Não sei em que momento a Ana Cris chegou*. Na partolândia, perdi a noção do tempo e da sequencia exata de eventos! Em um determinado momento, dentro da banheira, ela me pediu permissão para fazer um toque. Me informou um colo de 8 cm… Desanimei tudo o que havia animado… Ela, com um sorriso no rosto, disse que estava tudo ótimo e que estávamos indo bem.

Eu relaxava contra a parede da piscina em cada intervalo. Fechava os olhos e até cochilava. Neste momento ganhava força, me recuperava para a próxima contração. Ficava maravilhada com essa perfeição, um tempo de descanso, onde tudo passa e os pensamentos invertem: Nem foi tão ruim assim. Estou indo bem, até que é fácil!


Neste momento*, finalmente veio uma vontade de fazer força (comparando hoje à força que fiz no expulsivo mesmo percebi que a vontade que tive neste momento não se comparava à força necessária). Me animei! Fiz uma, duas, três… não sei quantas mais… mas nada acontecia. Sentia, agora, que o David ainda estava longe. Tentei chamar por ele: “Vem, David. Vem, bebê!”.
A dor, intensa, sim, mais do que eu imaginei que seria. Em meio aos pensamentos daquela semi-consciência maluca, eu disse para a Janie, que estava sentada atrás de mim, na beira da piscina: “Acho melhor...”, “O que é melhor, Ju?”, “Acho melhor eu tomar uma anestesia”, “Eu não acho, Ju... seu corpo está trabalhando. Deixe a dor agir. Deixe ela fazer o que ela precisa fazer.” Eu queria muito saber quanto faltava, mas a cada contração a única coisa que era possível saber é que era uma a menos, uma mais próxima de eu conhecer o David.
Ana Cris pediu para me examinar de novo, desta vez durante uma contração. A bolsa estava muito firme. Chegava a entrar no canal de parto e voltava. Isso me fazia sentir vontade de fazer força, mas esta vontade não vinha em todas as contrações e não era forte também, como eu sempre havia ouvido que seria. Me sugeriu que eu tentasse estourar a bolsa. Eu não queria sair da água, mas fui convencida. Isso aceleraria o processo.


Ficar em pé deveria ajudar, me pendurei no Daniel, as contrações eram alucinantes, literalmente, não me sentia mais dentro de mim. Sensação única e inexplicável. Segui as orientações e fiz uma série de puxos dirigidos (quando se faz força durante a contração, mesmo sem vontade). E nada... a bolsa não estourava. Depois de um tempo*, Ana Cris me deu a opção de ir para o hospital para realizar o procedimento de rompimento artificial da bolsa. Eu queria muito que o David nascesse em casa. Não aceitei de cara. Quis continuar mais um tempo. Letícia acompanhava os batimentos do bebê durante as contrações. Mais tempo passou e nada. Eu não queria mais fazer força, estava começando a ficar com medo. Os pensamentos invertiam novamente... Não estava dando certo. Num determinado momento, Ana Cris se levanta e diz: “Ju, vamos ter de terminar no hospital”. Ela explicou que estava tudo bem, que houve uma pequena desaceleração nos batimentos cardíacos do bebê fora de contração. Ainda não era considerado um padrão anormal mas, por precaução, deveríamos acelerar as coisas, e tinha de ser no hospital.
Misto de frustração e alívio, este era o sentimento do momento. E medo, também havia o medo… como sair do apartamento para a rua com dor? Como seria o trajeto? Vai dar tudo certo? Voltei a mim, ou seja: racional, calculista, preocupada, insegura… perdi toda aquela sensação única causada pelas fortes doses de ocitocina correndo pelo sangue a cada contração. Perguntei que horas eram para a Ana Amorim: “3:00”. Não acreditei! Pensei: "Era pra ter nascido há muito tempo! O que há de errado comigo?!". Comecei a duvidar da minha capacidade de parir meus filhos.
Descemos de elevador, entramos no carro, chegamos ao hospital: deu tudo certo até aqui. A entrada para a sala de parto foi rápida. Ao encontrar com a Dra. Juliana, GO escolhida a dedo para ser o plano B, pedi anestesia. Sua resposta: “Calma, vou examiná-la”.
Na sala de parto*, deitada na maca, conheci a Dra. Vânia, pediatra também escolhida com carinho para cuidar do meu maior bem dentro da frieza daquele hospital. Lembrei-me de me desculpar por ter faltado em sua consulta naquela tarde. A Dra. Ju então disse: “Vamos para a banqueta, seu bebê já vai nascer!”
Não, mas eu quero anestesia! Por favor, por favor!” Eu queria desistir: Pare essa montanha russa porque eu quero descer. Mas o parto é realmente como uma montanha russa, depois que apertou o cinto, tem de sentir cada frio na barriga até que ela volte ao ponto de partida.
Ju, você não precisa dela. Seu bebe está pronto, vai nascer já, você aguentou até aqui, agora está muito perto!”.
Mas eu não quero mais. Por favor!”, falei enquanto levantava e me dirigia à banqueta, apoiada pelo Daniel. Ao sentar, Janie com seriedade falou: “Só você pode trazê-lo para seus braços! Você quer isso! Você pode e consegue! Força, falta muito pouco!”.
Dra Ju estourou a bolsa assim que me sentei. Não me lembro de sentir nada neste momento e tudo passou muito rápido dali pra frente. Foi mais de uma hora, mas para mim foram como 5 min!
Ao me sentar, me senti no centro de um estádio, a ponto de alcançar a maior vitória da minha vida. Todos os rostos ao meu redor radiantes, sorrisos para todos os lados, e uma grande torcida: “Vamos Ju, você consegue! Está quase lá! Não desista! Força Ju, força”. A voz do Daniel em meio às outras se destacava e me dava segurança. Se ele está dizendo é porque está tudo bem, realmente está perto, eu realmente consigo.
O tempo passou rápido daqui pra frente. Bolsa estourada, eu concentrada ao máximo, não me lembro da dor, mas sim uma pressão, imensa: vou estourar, vou explodir, como faz isso?!
Ele está aqui Ju, olhe!” No espelho eu via os seus cabelinhos: “Que cabeludo Ju, ele vai nascer! Força!”, era o Daniel, novamente, o melhor incentivo que eu poderia ter!
Alguém pegou minha mão: “Toque nele, faça carinho, Ju!” Ainda dentro de mim senti sua cabecinha, quente, macia. Olhava no espelho, aquilo era inacreditável! Que sensação única, que coisa linda! A cada contração força, muita força, do tipo que não sabia que havia dentro de mim!
E sua cabecinha saiu! Eu não acreditava!
Estava cansada, exausta, mas estava acabando. Só mais uma Ju! (Sim, eu acreditava que ele viria em só mais uma contração.) E assim foi, ele veio e foi amparado pelas mãos do pai. 



Daniel me entregou ele: “Pegue Ju, pegue seu filho! Ele nasceu, você conseguiu, Ju!” Era muita emoção, eu ouvia seu choro, mas estava sem reação, como se o tempo tivesse parado, eu congelada. Tudo continuava em movimento à minha volta, mas eu travei. Tudo isso em frações de segundo… Peguei meu bebe no colo, o encostei no peito, tão quente, liso, todo molinho. Ele parou de chorar no mesmo instante que toquei nele. Que mágico, sobrenatural, incrível, sensação única, maravilhosa!

Em minha mente, agradeci a Deus, que criou este sistema, que criou a relação mãe, filho e parto, que é vivido só pelos dois, juntos, numa sintonia única, que se completam um pelo outro: o bebê e sua mãe, eu e o David. Daniel chorava ao meu lado, emocionado, me elogiava: “Como você foi incrível, Ju! Que mulher! Nunca mais vou olhá-la com os mesmos olhos! Você foi demais!”. E elogiava o bebê: “Como ele é lindo, perfeito! Que incrível!” Deixei que ele proferisse as palavras, pois eu, só conseguia sentir... e olhar, e cheirar e ouvir, seus grunhidinhos. Curti, curti e curti aquele momento, aquele corpinho contra o meu, ainda ligado pelo cordão dentro de mim.


Me acordaram! Precisava levantar para deitar de volta na maca. E eu levantei, apoiada mas sozinha, andando, após o parto. Isso é possível! Deitei na maca com ajuda, pois o segurava como se fosse um cristal, caro e delicadíssimo. Olhei no relógio: 4:50! Mais uma contração, fraca, quase sem dor, e nasceu a placenta. O órgão que manteve vivo meu filho por 9 meses me foi apresentado. Apertei o cordão ainda ligado ao bebê, todos aguardaram para que ele recebesse todo sangue, tão rico, presente no cordão enquanto pulsava. E ele foi cortado pelo Daniel quando parou de pulsar.
Deitado sobre mim estava meu presente, minha vitória, tão pequeno. Quis então passar a mão, conferir! Perninhas, mãozinhas, as costas, enrugada e macia, cabeça cheia de cabelo, olhos apertadinhos, mas abertos, bem abertos, olhavam para mim. Coloquei-o no seio e ele mamou, lindamente! Sim, nasce sabendo! E era meu, só meu. 
Estava dentro de mim e eu o trouxe para meus braços, sozinha (porque sim, era aquele o meu papel), mas acompanhada, por pessoas que me ajudaram, demais e sem as quais nada teria sido como foi: Daniel, Janie, Ana Cris, Letícia, Dra Ju, Dra Vania e Ana Amorim. Meu eterno obrigada!

*LEGENDA de horários aproximados:
12:00 - comecei a contar as contrações
14:00 - a doula chegou
17:30 - a parteira Letícia chegou 
21:00 - a parteira Ana Cris chegou
00:00 - senti a primeira vontade de fazer força
2:00 - Ana Cris sugeriu irmos para o hospital para romper a bolsa
3:30 - cheguei no hospital e fui examinada pela médica na sala de parto
4:50 - David nasceu!

No total foram 17h de TP calculadas a partir do momento em que comecei a contar as contrações.

Palavra final: Já ouvi falar de muitos partos mais demorados do que o meu e às vezes me pego pensando que fui fraca, que deveria ter insistido em ficar em casa, que deveria ter aguentado mais. Mas também ouço muito nas conversas sobre parto humanizado que o parto ideal não existe. Existe o parto possível.  E este foi o MEU parto, o que eu consegui dar conta e foi o melhor que poderia ser!

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Relato de parto natural domiciliar... e super rápido! Você encararia um assim?

O relato de parto que venho publicar hoje é de uma amiga muito querida no Brasil que pediu para eu não divulgar o nome das pessoas da sua família. Nos conhecemos há mais de 2 anos e ficamos amigas porque éramos da mesma igreja e nossas filhas têm a mesma idade (com diferença de poucos meses). Como ela também se sente chamada a praticar o homeschooling, no 1o semestre de 2013 fizemos encontros quinzenais (play dates) com as nossas filhas que deixaram muitas recordações!

Quando deixei o Brasil, em 01/09/2013, ela havia acabado de completar 40 semanas de gestação de sua 3a filha. A bebê nasceu no dia seguinte! Foi um parto natural EM CASA como ela havia sonhado e orado a Deus. Seus dois primeiros partos foram normais também, porém hospitalares e cheios de intervenções, e ela queria muito viver uma experiência natural desta vez. Lembro de várias conversas que tivemos sobre este assunto durante a gravidez (já que é um assunto de que eu gosto muito, rs), sei que ela pegou dicas com outra amiga que também teve partos domiciliares (dois!), frequentou um grupo de apoio à maternidade, conversou bastante com o marido e, principalmente, pediu direção de Deus até se sentir em paz com a decisão. Enfim, ela pesquisou e se informou o máximo que pôde sobre o assunto para tirar dúvidas em relação ao que era melhor: parir em hospital, em casa de parto, ou em casa? Com ou sem doula? Com obstetra ou obstetriz (parteira)?

Abaixo segue o relato que ela me enviou (escrito dois dias após o nascimento da bebê e que eu editei para preservar a privacidade das pessoas envolvidas).

Relato de Parto – escrito em 04/09/2013
DUM 24/11/2012

Que alegria, estava grávida de mais um bebê. Queria muito essa gestação apesar dos temores. Fiquei feliz. Já fazia um tempo que havia desmamado a minha segunda filha, estava menstruando desde de julho e só fui engravidar mesmo em dezembro.

A gestação foi normal, perfeita, cheguei aos 75kg como nas outras duas, strepto B negativo, que bom, tudo perfeito. US de 38 semanas disse que ela era pequena com 2700g, mas na verdade ela não era pequena, nasceu bem com 3450g.

Durante a gestação fui aprendendo sobre o parto, as intervenções, conheci o GAMA e passei a ir nas reuniões de 5a feira. Foi muito bom. Tomei coragem, nos conscientizamos e decidimos pelo parto domiciliar. Passei com a parteira de uma amiga, mas não gostei. Passei com outra parteira e resolvi ficar com ela porque ia ser um pouco mais barato. No final, com 38 semanas resolvi mudar de parteira novamente porque achava esta menos intervencionista, mais preparada para intercorrências, mais moderna e mais profissional. A anterior tinha certos métodos (aminioscopia, estourar bolsa, massagem, etc.) que eu não queria.

Dia 31 de agosto, sábado, completei 40 semanas. O tampão saindo aos pedacinhos e pedações durante a semana inteira, sentia a barriga pesada e uma pressão maior no períneo. Passei no médico na 3a feira, dia 27, e ele disse que estava com 4-5 cm de dilatação. Achamos que o parto poderia ser a qualquer momento. Na 4a feira eu queria ir ao mercado, mas estava com medo de entrar em trabalho de parto e liguei para a parteira para ela me examinar. Ela disse que o colo estava posterior e que essa dilatação era residual por ser a 3a gestação, que eu poderia ir ao mercado porque ainda não era a hora. Dia 31, sábado, foi o picnic da igreja, queria muito ir, mas não estava em paz. Acabei entendendo no meu coração que tem tempo pra tudo e que naquele momento eu deveria me submeter às minhas circunstâncias. Era tempo de ficar quieta e aguardar. Tive poucas cólicas que vinham e iam. Domingo também, algumas coliquinhas pela manhã, à tarde passou, voltou a noite. Mandei uma mensagem pra parteira no domingo à noite. Tínhamos ido ao Habib's com as meninas para elas brincarem um pouco (pois passamos o final de semana de molho em casa), mas eu estava tendo as coliquinhas lá no restaurante. De lá mesmo mandei mensagem pra parteira, que ficou de sobreaviso. 

Na hora de dormir, domingo, eu estava cansada. Pensei comigo mesma: "Eu não vou entrar em trabalho de parto essa noite, eu vou dormir. Quero estar descansada". Dormi mesmo, dormi bem, não senti NADA. Acordei tranquila. Quando fiz xixi pela manhã, percebi uma gotinha de sangue no papel. Lembrei do que a minha mãe havia dito, que isso foi um sinal pra ela de que o parto estava chegando, mas pensei: “De pequenos sinais estou cheia. Pode ser agora ou não". Não estava sentindo nada. Mandei uma mensagem pro meu pai pela manhã:

Oi Pai,
Dormi bem, não tive cólicas durante a noite.
Hoje de manha, saiu um pontinho de sangue, menos que uma gota.
Esta progredindo, mas neste momento não estou sentindo nada.
Fiquem tranquilos porque eu vou perceber quando começar.
Bjs.

Tomei banho, desci, dei café para as meninas e tomei café. Quando ia começar a arrumar a cozinha, tive uma contração forte. Era 8:30. Pensei: “Essa foi forte. Não vou poder ficar aqui sozinha com as meninas se continuar assim. Vamos ver se vai engatar…”. 

Dez minutos depois, outra contração igual. Nem terminou a contração, já liguei para o meu marido. Falei pra ele que tive duas cólicas fortes e que não poderia ficar em casa sozinha, falei pra ele vir pra casa pra ficar comigo e me ajudar a cuidar das meninas. Ele disse que só poderia vir mesmo se fosse para a neném nascer, mas que ele iria falar com o chefe e ver se poderia vir, e que me ligaria de volta. Liguei para minha mãe e disse pra ela o que estava acontecendo, que ele viria logo e que ela poderia vir pegar as meninas pelo meio-dia (nem imaginava que tudo seria tão rápido!).

Dez minutos depois meu marido liga de volta, diz que está vindo. Eu confirmei dizendo que se não fosse um parto domiciliar, ele teria que me levar para o hospital naquele momento. Isso o tranquilizou de que realmente era hora de vir pra casa. Ele me mandou ligar para a parteira e pedir pra ela vir me ver. Eu resolvi terminar de arrumar a cozinha pra ligar pra ela depois, pois sabia que ela chegaria rapidamente, já que ela morava perto. Tentei terminar de arrumar a cozinha, mas tive uma outra daquelas contrações que me interrompeu e me assustou... resolvi ligar pra ela naquela hora! Ela perguntou de quanto em quanto tempo, falei que achava que de 10 em 10 minutos. Ela estava cansada pois tinha passado a noite em claro com outro parto, pediu para que eu contasse quantas contrações na próxima meia hora e então retornasse pra ela. (Sério?! OK). 

Meu marido chegou em casa às 9:30, eu estava andando pela sala. A minha filha mais velha, que fofa, segurava na minha mão e ia andando comigo enquanto eu vocalizava. Foi muito especial ter o suporte dela nessa hora. Muito, muito especial mesmo. Eu perguntei pra ela se ela estava com medo, ela disse que não e ela me perguntava se a bebê estava chegando. Eu não tinha certeza ainda (rsrs!), mas dizia pra ela que achava que sim. Quando o meu marido chegou, passei a lista pra ele do que precisava ser feito: 1) cronometrar as contrações para a parteira, 2) arrumar as meninas, 3) encher a banheira e 4) ligar para a minha mãe pra pegar as meninas AGORA.

Eu precisava de quietude, a dor era intensa e estava tudo muito agitado. A parteira liga e pergunta como está, meu marido diz que de 3 em 3 minutos, ela diz: “Opa, estou indo!”. Acabei indo para o quarto e fechei a porta. Fiquei lá e via o meu marido arrumando as meninas, enchendo a banheira, eu não tinha a menor condição de ajudá-lo. A dor era tanta, me ajoelhei no chão, apoiei minha cabeça na cama e fiquei ali. Vinha e voltava, mas entre as contrações ficava ainda uma dorzinha. Era tão rápido e já vinha outra. Eu queria água, ele ocupado, pensei: "Não tenho a menor condição de descer para pegar água". Fiquei ali mesmo, queria trocar de roupa, ir para o banheiro, para o chuveiro, precisava me acomodar de alguma forma, porque a dor estava forte. Eu pensava: "São 9:30 da manhã, acho que não vou aguentar até 12:00 com essas dores. Meu Deus, me ajude!". O versículo que Deus havia me dado para este parto era Salmos 28:6-7a: "Bendito seja o Senhor, pois ouviu as minhas súplicas. O Senhor é a minha força e o meu escudo; nele o meu coração confia, e dele recebo ajuda". Dele recebo ajuda. Dele recebo ajuda. Soava no meu coração. Pedia graça, forças. 

Decidi que tinha de me trocar, juntei forças e levantei, me troquei e fui para o banheiro. Meu marido tinha deixado um treco embaixo da banheira, estava super desconfortável para pisar ou entrar na água. Fiquei tentando levantar a banheira (que já estava meio cheia) pra tirar aquele treco, consegui! Me acocorei lá dentro com a água batendo nas minhas costas e fiquei lá. Nesse tempo chega minha mãe, e a parteira. E eu lá fazendo os meus barulhos, com as minhas cólicas, acocorada dentro da banheira. Não sei muito bem como foi, só lembro da parteira chegando com um sorriso, me chamando de querida, e perguntando se eu ia botar um ovo hoje. Eu ri e disse que sim, um ovo bem grande! Rsrs.


Acho que eu cumprimentei minha mãe também, mas não tenho certeza. De repente aparece o meu marido, pedi pra ele tirar foto. Eram cólicas muito fortes, fiquei ali de quatro com a água batendo nas minhas costas. Quando apoiava a cabeça na banheira, conseguia relaxar mais as costas, os ombros e a dor era melhor. O meu marido queria falar comigo, mas eu pedia pra ele não falar porque eu não tinha como me concentrar no que ele estava falando, eu precisava ficar bem fechada em mim mesma. Orava, queria chorar, queria fraquejar, mas falava pra mim mesma: "Tenho de ser forte, não posso fraquejar". Fraquejava e me erguia, foi uma luta interior naquele momento. Orava. De repente, vontade de fazer força, vontade de fazer cocô, falei para a parteira: "Quero fazer cocô!". Ela disse: “É a neném, querida! Não é cocô, é a neném, pode vir, deixa vir".

E assim a força veio, sozinha, eu só me rendi, e a cabecinha começou a sair. UAU! Eu não acreditava que já estava nascendo, doía, mas era muita emoção, uma mistura de medo, alegria e dor, muita dor, tudo tão rápido. Pus a mão lá embaixo e senti a cabeça dela. UAU! Foi saindo. Pedi para o meu marido pôr a mão ali e sentir a cabeça dela, meio pra dentro, meio pra fora. Que loucura! Que emocionante! Foram 4 contrações para ela sair. Entre as contrações do expulsivo, eu estava maravilhada! Conseguia esquecer da dor, porque estava muito maravilhada! Durante muita dor, mas já estava no final. Senti arranhar por dentro, mas era menos dolorido do que a contração porque a contração durava 1 minuto ou um pouco mais e o arranhão eram 2 segundos. Ela nasceu! Eu estava chocada, como havia sido rápido!

Eram 10:25, e a minha bebê nasceu. Eu perguntava se ela estava bem, pois esse era o meu medo. E a parteira dizia: "Ela está ótima querida, ótima"! UAU! Eu peguei ela no colo, estava em choque, como foi rápido, que sensação impressionante, ela tinha saído de dentro de mim, passado pelo canal vaginal e estava chorando em meus braços. Que especial! Minha bebê. Que linda! Que perfeita! Obrigada, Deus!

Uau, já tinha terminado. Ficamos ali uma meia hora. Minha mãe apareceu com as meninas. Tiramos fotos. Foi demais! Saí da banheira e fui pra cama. Fiquei com a bebê no colo, ela chorava, mas pouco, ficava a maior parte do tempo quietinha, respirando e mexendo os bracinhos, as mãozinhas e os dedinhos. Que fofinha. Logo saiu a placenta, com mais umas contraçõezinhas. Mas tranquilo. Carimbamos a placenta. Ela mamou, sugava tão bem. Forte. Sugou por 1h. Depois cortamos o cordão.

A parteira desceu e me deixou sozinha com o meu marido e a neném. Ficamos ali, que lindo! Contemplando, digerindo todo aquele momento. Coloquei a minha roupa novamente e ligamos rapidamente no Skype para passar a noticia para os pais do meu marido. Nem havíamos pesado a bebê ainda. Falamos rapidamente com eles, voltamos pra cima, pesamos a bebê, estava tudo bem. 

A parteira foi embora, minha mãe levou as meninas pra almoçar na casa dela e passar a tarde com as primas. Meu marido comprou duas marmitas no bar da esquina e nós almoçamos juntos, com a neném   do nosso lado. Que momento especial. Que fome! Foi lindo, perfeito, abençoado, demais! Melhor parto, falei que se tiver outros, não quero hospital de jeito nenhum! E dessa vez, se eu deixasse pra ir pro hospital às 8:30, na hora em que começaram as contrações, provavelmente a neném teria nascido no carro. Deus tem sido muito bom conosco! Obrigada, Senhor! Tu és fiel!!

domingo, 15 de dezembro de 2013

Uma mulher e três experiências: uma cesariana, um parto normal hospitalar e um parto domiciliar - PARTE 2

(Este post é continuação do de ontem. Para lê-lo clique aqui!).

Relato do Parto da Giulia

O positivo
A Giulia veio inesperadamente. Parei com o anticoncepcional por causa das dores pós-parto do Lorenzo. A solução da médica para acabar com meu problema era aumentar os níveis de estrogênio. Ou eu parava a pílula e via se meu organismo reagia sozinho ou eu tomava uma pílula tradicional e corria o risco com a amamentação. Como eu já tinha tentado de tudo para acabar com o problema, resolvi tentar parar com o anticoncepcional já que correr risco com a amamentação estava fora de cogitação.

Em outubro, já tinha passado da data da minha menstruação vir e resolvi fazer um teste. Negativo. Passou mais uma semana e nada da minha menstruação, fiz outro teste e a segunda linha apareceu bem fraquinha. Comprei um terceiro teste, mais confiável, e repeti dois dias depois. A lista estava lá, bem nítida. Eu estava grávida, de novo... Feliz por um lado, mas em pânico por outro.

A gravidez
Eu liguei em todas as clínicas da minha cidade e não consegui nenhuma vaga para fazer pré-natal. Grávida de umas 6 ou 7 semanas e ninguém tinha vaga?? Começou meu desespero. Também liguei nas duas casas de parto possíveis e me inscrevi na fila de espera sem nenhuma esperança. Em uma última tentativa consegui um médico para o início de dezembro. O problema é que eu verifiquei as referências sobre o tal médico na internet e era terrível. Ele tinha usado fórceps e deixado um bebê com sequelas. Decidi que não iria nele de jeito nenhum. Era melhor encarar uma gravidez sem pré-natal.

Decidi então que iria parir em casa com uma parteira tradicional. O problema é que eu precisava de um médico de qualquer maneira. Como ela não era “legal”, não tinha como solicitar exames e em uma emergência, era melhor ter um prontuário aberto em algum hospital. Consegui uma médica na cidade vizinha por indicação de uma conhecida. Ela me sugeriu outra cesárea logo de cara e eu disse que gostaria de tentar de novo. Ela disse que me ajudaria. Sai de lá confiante. Pelo menos, se eu precisasse de médico, ela parecia ser uma opção razoável.

Novas consultas e novas emoções. Meu exame de urina acusou presença de strepto B. A médica, muito calma, disse que eu tomaria antibiótico durante o TP e pronto. E como eu faria com o antibiótico em um PD? Além disso, ela me disse que provavelmente começaríamos uma indução às 37 semanas para evitar que o bebê nascesse muito grande. Começou meu desespero de novo. Somado a tudo isso, horas de espera por uma consulta de 5 minutos.

Com 20 semanas eu decidi que não iria mais para as consultas. O prontuário já estava aberto e eu decidi que ir ao médico era tortura desnecessária. Toda vez que eu tinha consulta eu me sentia mal antes, durante e depois. Na mesma semana que eu tomei este decisão, a casa de parto me ligou e tinham uma vaga para mim!

O pré-natal na casa de parto foi excelente. Consultas de 1h, muito carinho, tiravam todas as minhas dúvidas, me davam informações e nada foi imposto. Todos os procedimentos foram discutidos comigo e cabia a mim decidir se eu queria ou não (inclusive o antibiótico para o strepto B). E eu poderia parir em casa se eu quisesse! Tirando a questão do strepto que me atormentou a gravidez toda, a partir deste momento eu me senti em paz.

Eu não vi a gravidez passar até que comecei a sentir contrações demais (por volta de umas 32 semanas) e a parteira me pediu para “repousar” o máximo que eu conseguisse para não nascer prematuro, se não, eu teria de ir para o hospital.

O parto
De domingo para segunda-feira (17/06 – com quase 38 semanas), os meninos quiseram dormir com a gente. Por volta das 6h da manhã, Lorenzo acordou querendo mamar. Eu estava amamentando-o quando veio uma contração e eu senti um pouco de líquido escorrer. Levantei-me e vi que realmente tinha vazado líquido, além do tampão também ter saído.

Arrumei os meninos para a escola, avisei minha amiga e ela veio ficar comigo. Saímos para a casa de parto já era quase hora do almoço e nada de contrações ou pelo menos nada diferente do que eu já vinha sentindo. O mais estranho é que o líquido parou de vazar. A parteira me examinou, fez dois testes e disse que provavelmente não era líquido, só lubrificação comum do final da gravidez.
Voltei para casa, o marido foi para o trabalho de bicicleta e eu fiquei de buscar as crianças. Passamos uma tarde agradável. Eu fiquei na bola, forramos a cama e resolvi deixar as roupas dos meninos separadas para uma emergência. Minha amiga ainda ficou tirando um barato do meu alarme falso. No final da tarde, eu comecei a sentir as contrações mais fortes, mas ainda sem ritmo e não me preocupei. Fui ao supermercado, preparei as coisas para a minha reunião e busquei os meninos na escola. Eu estava meio indisposta, mas atribui ao cansaço já que tinha dormido mal. Falei com a minha mãe no skype e ela me perguntou o que estava acontecendo porque minha cara estava estranha. Eu disse que não era nada, só cansaço mesmo e como estava calor, eu estava um pouco indisposta. Engraçado como eu não percebi que as contrações tinham mudado e minha mãe, do outro lado do mundo, era capaz de perceber que algo estava diferente. Eu cheguei a me esconder na cozinha em uma das contrações para minha mãe não me ver!

Fui para a reunião por volta das 19h e comecei a cronometrar as contrações. Elas duravam no mínimo uns 45 segundos e vinham a cada 15 minutos. Tentei me distrair o máximo que eu pude, mas eu simplesmente não conseguia disfarçar, nem me mexer na hora da contração. Mandei uma mensagem para meu marido perguntando se não era melhor eu ligar pra parteira de novo, mas ele achou que ainda não precisava, que era cedo. Por volta das 22h, esperei passar uma contração, peguei o carro e vim pra casa. Deu tempo certinho de eu estacionar e veio outra.

Chegando em casa, pedi para o meu marido colocar as crianças para dormir e ele acabou dormindo também. Fui para o banho com a bola. Enquanto eu tomava banho eu quis desistir. Fiquei pensando onde eu estava com a cabeça quando resolvi ter esse bebê. Eu devia ter decidido por outra cesárea porque passar 3 dias com estas dores e ainda aguentar o TP (trabalho de parto) todo não ia ser moleza (eu estava me baseando no TP do Lorenzo). O bom é que esse desânimo passou rápido. Conversei com meu bebê e disse que se ele quisesse vir, eu estava esperando e pronto, que a gente ia conseguir. Por incrível que pareça saí do chuveiro mais calma. Era um pouco antes das 23h. Tentei acordar meu marido, mas ele disse que ia descansar porque eu podia precisar dele no outro dia e ele estava muito cansado.

Fiquei na sala sozinha com minha bola e eu tentava arrumar uma posição cada vez que vinha a contração, mas todas as posições eram péssimas e eu comecei a sentir muito sono. Deitei no sofá e tentei dormir. Eu dormia exatos 10 minutos e lá vinha a contração. Eu tinha que levantar porque deitada era tortura demais. Fiquei assim um pouco mais de uma hora quando comecei a sentir frio também. Vesti meu pijama e minhas meias de inverno porque me deu até tremedeira e fui deitar na minha cama. Eu tive umas duas ou três contrações na cama com um intervalo de uns 7-8 minutos. De repente, outra contração e eu resolvi ficar de quatro. A bolsa estourou, mas estourou mesmo. Fez barulho e saiu muita água. Molhou a cama, o chão, tudo. Meu marido me ajudou a ir para o chuveiro e do banheiro mesmo ligamos para a parteira e para a doula. Era um pouco mais de 12h30.

Elas falaram que já estavam vindo, mas eu já não conseguia nem falar nesta hora. As contrações vinham a cada 2 minutos e duravam mais de 1 minuto cada. Mal dava tempo de eu respirar entre elas. A casa estava uma zona. Imaginem que meu marido tinha ficado sozinho com as crianças por 3h. Tinha brinquedo espalhado por tudo, a pia cheia de louça, um caos. Ele me deixou no banheiro e foi arrumar um pouco a bagunça. Ah, e ainda pediu pra eu passar uma água nas minhas roupas pra tirar a meleca...

Eu fiquei no chuveiro com a bola até a primeira parteira chegar. Ela tentou ouvir o coração do bebê umas 3x entre as contrações, mas não conseguiu e pediu pra eu sair só um pouco para ela ouvi-lo e eu poderia voltar. Eu nem sei como cheguei até a minha cama. Ela ouviu o coração e perguntou se poderia me examinar. Eu deixei morrendo de medo de não estar dilatada com toda aquela dor (traumas do Lorenzo ainda), mas eu estava com 9 cm!

Eu fiquei tão feliz, pelo menos faltava pouco e eu não ia ficar com aquela dor 3 dias como eu estava imaginando. Logo em seguida a outra parteira e a doula chegaram e eu já comecei a sentir os puxos. Foi muito rápido. Eu não tive nem coragem de mexer e fiquei deitada de lado na cama, do jeito que eu estava. Veio aquela vontade de fazer força e eu me segurei. Eu confesso que fiquei morrendo de medo de rasgar tudo de novo. A doula me deu a mão e me lembrou que eu não precisava ter medo, que se eu quisesse podia colocar a mão pra ajudar, assim, eu sentiria o bebê nascendo. Foi ótimo, me deu o maior ânimo colocar a mão e sentir o bebê coroando. A contração veio e eu não fiz muita força, fiz força o suficiente só para a cabeça não voltar pra dentro. Senti queimar e depois a cabecinha saindo. Me deu um alívio tão grande! Ninguém puxou minha bebê e nem me apressou para ela terminar de sair. A parteira viu se não tinha circular de cordão e esperou. Quando a contração veio de novo, eu empurrei o corpinho e senti ela saindo inteirinha. Peguei ela e a abracei. Tão linda! Toda cheia de vernix e sem sangue!!!!

Ninguém viu o sexo. Puseram um paninho sobre ela para aquecer e fui eu que vi que era uma menina! Peguei no cordão também, senti ele pulsar, a textura. O marido que cortou o cordão e decidimos guardar a placenta para plantarmos mais pra frente.

A primeira parteira chegou em casa por volta da 1h30 e a Giulia nasceu à 1h48 da manhã do dia 18/06/2013, com 51cm e 3125g. Ela não sofreu nenhuma intervenção. Não teve colírio, vitamina K, antibiótico, nada. Nasceu na hora e da maneira que ela quis e eu não tive nenhuma laceração (oba!).

Realmente cada parto e cada bebê é único. Foi tudo muito diferente do que eu imaginei e não podia ser mais perfeito. Foi um caminho longo, onde pude contar com pessoas especiais (obrigada!!!) e que curou muitas das minhas feridas. Espero que a minha história sirva de inspiração para outras mulheres e que elas se sintam realizadas assim como eu!

Nascimento do Pietro - Cesariana eletiva no Brasil.

Nascimento do Lorenzo - Parto normal hospitalar no Canadá.

Nascimento da Giulia - Parto natural domiciliar no Canadá.

Uma mulher e três experiências: uma cesariana, um parto normal hospitalar e um parto domiciliar - PARTE 1

Amanda Naldi tem 32 anos, é casada com Daniel e mãe de Pietro (5 anos), Lorenzo (2 anos) e Giulia (5 meses). Natural de São Paulo, ela imigrou para o Canadá há pouco mais de 3 anos. Eu a conheci num grupo de brasileiros pelo Facebook quando li seu comentário de que havia ganhado bebê em casa, aqui no Canadá. Fiquei curiosa para saber mais e pedi que ela contasse como foram suas experiências de parto para eu compartilhar aqui com vocês.

Foram três experiências de parto completamente diferentes! Primeiro, uma cesariana eletiva tranquila em São Paulo, depois um parto normal hospitalar traumático seguido de um parto domiciliar dos sonhos, ambos aqui no Canadá. Uma história que vale a pena ler!

Relato de parto – VBAC no Canadá

História
Eu cresci ouvindo minha mãe falar barbaridades de parto normal. Ela sofreu muito no meu parto, tentaram de tudo, inclusive fórceps e eu acabei nascendo através de uma cesárea, toda machucada (quase fiquei cega e uso óculos até hoje por causa disso). O diagnóstico: DCP (desproporção cefalo-pélvica). Minha mãe ficou traumatizada e influenciou toda a família. Meu irmão mais novo nasceu através de uma cesárea eletiva, assim como todas as minhas primas e os filhos das minhas primas também. Logo, depois das minhas avós, todas na minha família tiveram os filhos através de cesáreas.

Meu primeiro filho nasceu no Brasil, através de uma cesárea eletiva sem nenhuma indicação. Ele nasceu no dia que completamos 40 semanas. Eu não fui amarrada, todos foram muito gentis comigo e o amamentei assim que terminaram de me costurar e examiná-lo (ele sofreu todas as intervenções de rotina). Pra mim aquilo era o normal e eu estava dando o melhor para o meu filho. Na época, eu inclusive achei a recuperação excelente. Tive dor por alguns dias, mas eu conseguia cuidar do meu filho sozinha e estava encantada com a maternidade.
 

No entanto, amamentar doía e eu vivia com meu seio machucado. Minha família começou a pressionar para eu dar mamadeira porque era o “normal”. Minha mãe me dizia que logo eu voltaria a trabalhar e seria melhor assim. Nesta época eu ficava bastante tempo na internet e decidi pesquisar sobre amamentação e descobri outro mundo. Eu decidi tomar as rédeas da situação e fazer as coisas do meu jeito. O grupo GVA (Grupo Virtual de Amamentação) no Orkut me salvou. Eu não apenas amamentei exclusivamente meu filho até os 6 meses, como ele foi amamentado por quase 3 anos mesmo eu trabalhando em tempo integral. Não foi fácil, mas toda vez que eu penso nisso fico orgulhosa de nós dois. Junto com a pesquisa sobre amamentação acabei lendo muito sobre educação de crianças, parto, etc. A maternidade em geral. Isso me tornou outra pessoa. Acho que neste momento eu sai da “matrix”.
 

Decidi que quando eu tivesse outro filho tudo seria diferente. O tempo foi passando, minha vida deu uma reviravolta e decidimos imigrar para o Canadá. Largamos emprego, família, casa e viemos para o Canadá sem nada. Meu filho estava com 2 anos e 4 meses na época. Uns 4 meses depois, época de Natal eu me senti mal, desmaiei e fui parar no hospital com um sangramento que eu pensava ser minha menstruação querendo voltar (eu ainda não tinha ficado menstruada depois do nascimento do meu filho). Como a data da minha última menstruação era de 2007 decidiram fazer um ultrassom. Eu descobri então que eu estava grávida de 8 semanas!
 

Foi um período muito difícil. Estávamos sem emprego, num país novo e tendo que se comunicar em uma língua que não dominávamos (francês). Desespero total!
 

Passado o susto inicial, marquei consulta pra fazer o pré-natal e comecei a procurar uma doula. Meu marido concordou comigo que seria um investimento válido mesmo a situação financeira sendo complicada. Procurei na internet e, no fim, alguém me indicou uma doula brasileira.
 

Entrei em contato com a doula. Na época eu estava com 13 semanas mais ou menos. Ela se mostrou interessada e logo depois marcamos um encontro. Ela foi em casa e conversamos bastante. Neste encontro conversamos um pouco sobre a cesárea eletiva do Pietro, sobre não ter tido nenhum tipo de intercorrência na gravidez, sobre a recuperação "perfeita" que eu tive mesmo sendo uma cirurgia, sobre os meus medos (episiotomia e fórceps), a história da minha mãe e do meu nascimento, minha vontade de tentar um parto natural desta vez, entre outras coisas.
 

Ela me explicou que ela fez um curso de doula e que ela ainda era "estagiária". Por esta razão ela poderia me acompanhar se eu quisesse e não haveria custo nenhum. Além disso, ela buscaria respostas com suas professoras caso fosse necessário. O único porém era que não teria uma substituta caso ela não pudesse comparecer no parto. Confesso que eu fiquei muito feliz depois desse encontro. Eu acreditava ter tirado a sorte grande! Era tudo de que eu precisava!
 

Com uns 7 meses de gravidez, as coisas começaram a complicar. O médico que me acompanhava no pré-natal começou a me dar fortes indícios de que ele queria fazer outra cesárea. Solicitou um exame que mediria a altura da cicatriz uterina para ver se eu poderia tentar um VBAC (Vaginal Birth After Cesarean). Disse que não seria seguro porque minha cesárea foi costurada em apenas um plano (conforme o papel que minha médica do Brasil forneceu, explicando como foi feita minha cesárea e atestando que era seguro um VBAC), enquanto que o padrão dos EUA e no Canadá (mais seguro) seria de costurar em dois planos. Cada consulta que eu tinha com ele era uma aflição. Menos de 5 minutos de consulta e ele conseguia me deixar insegura!
 

Obs: Aqui não é fácil trocar de médico, nem escolher o hospital em que você vai ser atendida. O sistema de saúde é bem diferente do Brasil. Além disso, eu não conhecia muita coisa e tinha dificuldades com o idioma, o que tornou as coisas ainda mais complicadas.
 

Alguns pontos que eu gostaria de registrar porque eram coisas muito importantes para mim ou eventos que me marcaram nesta época:
 

1) O exame. Eu fiquei 2 meses esperando o hospital me ligar para eu ir fazer o tal exame e eles nunca me ligaram! Fiquei 2 meses tensa por nada!
 

2) O médico do pré-natal. Na última consulta que eu tive com o médico que fez meu pré-natal, ele simplesmente passou uma requisição para o hospital solicitando uma segunda opinião sobre meu VBAC (já que eu não fiz o exame) e me informou que ele sairia de férias por 4 semanas (eu estaria entre 37 e 41 semanas de gravidez neste período). Se ele voltasse de férias e o bebê não tivesse nascido, ele faria outra cesárea porque seria perigoso demais uma indução no meu caso. Ele não quis nem olhar meu plano de parto! Ele disse para mim, você mostre isso no hospital quando ele for nascer, eu não vou olhar porque não sou eu quem vai fazer seu parto! Se for eu, será uma cesárea e pronto. Saí da consulta atordoada. Conversei com a doula e ela me disse que eu poderia ter tido sorte dele sair de férias, afinal ele estava com todo jeito de querer fazer outra cesárea.
 

3) A anestesia. Eu não queria tomar anestesia de jeito nenhum. Eu fiz meu marido prometer que se eu ficasse com muita dor e começasse a pedir anestesia, não era pra deixar me darem. Ele ficou inseguro, mas aceitou meu pedido: ele não deixaria me darem anestesia. Até que este assunto surgiu em um dos encontros com a doula... Ela foi veementemente contra! Ela nos disse que só eu saberia o limite da minha dor e que ele não poderia tomar esta decisão por mim, afinal o corpo e a percepção da dor eram meus. Ele estaria lá pra me apoiar, mas que a decisão no momento deveria ser apenas minha.
 

4) A posição para parir. Eu não queria parir deitada de jeito nenhum. Deixei isso bem claro em todos os momentos. Eu odeio deitar de barriga pra cima em qualquer momento, imagine na hora do parto, com dor e ainda por cima depois de ler tanta evidência científica dizendo que essa posição é péssima, só é fácil para o médico mesmo.
 

5) Episio e fórceps. Eu tinha muito medo de episio e fórceps. Cresci ouvindo minha mãe me contar do pesadelo do meu nascimento. Eu conversei sobre isso com a doula e com meu marido. Aqui não fazem episio de rotina e, portanto, mesmo que acontecesse uma laceração, ela não seria muito “grande”. Era fazer exercícios e preparar o períneo. Assim com 34 semanas eu comecei a massagem e os exercícios regularmente.

Pródromos e Parto
Tudo começou no sábado pela manhã ((39+3sem). Todos saíram e eu fiquei sozinha em casa. Do nada fiquei apertada para ir no banheiro fazer xixi. Quando me limpei tinha uma borra com sangue. Achei que era o tampão. Passei o dia todo com essa borrinha com sangue e sem dor nenhuma. De noite percebi que estava com contrações. Fiquei me remexendo, levantei, andei... Resolvi marcar e as contrações estavam de 15 em 15 minutos, às vezes de 10 em 10 minutos. Finalmente a manhã chegou e com a claridade elas se foram completamente! Como em um passe de mágica elas desapareceram.
 
Domingo acabei passando o dia bastante ansiosa, com muito poucas contrações e muito irregulares. O dia foi embora e eu fiquei com medo do que me esperava a noite... Dito e feito, bastou eu dormir para as contrações começarem de novo. Passei a noite toda me remexendo na cama e anotando as contrações que vinham a cada exatos 15 minutos. Fiz isso das 12h as 4h e adivinha? Passaram completamente depois disso. Resolvi desencanar de marcar os intervalos.
 

Na segunda-feira pela manhã eu falei com a doula de novo e combinamos que se acontecesse de novo na próxima noite que ao invés de ficar parada eu iria me movimentar.
 
Quando escureceu eu comecei a sentir algumas contrações novamente. Eu resolvi tomar um banho e jantar (comi um pão o dia todo e no fim não consegui jantar). Enquanto eu mexia na geladeira veio uma contração e eu senti escorrer um pouco de líquido. Resolvi me abaixar e na primeira acocorada eu senti escorrer um monte de líquido. Eu tive certeza que a bolsa tinha estourado!
 

Liguei pra doula e contei o que tinha acontecido. Ela pediu pra eu tomar um banho e aguardar um pouco porque como eu não estava com contrações era melhor tentar fazer o trabalho de parto engrenar um pouco antes de ir pro hospital. Como não podia induzir, se eu fosse pro hospital sem contrações a chance de ter que fazer cesárea seria maior. Fiquei de ligar pra ela dentro de 2h pra dizer como iam as coisas.
 

Tomei um banho e as contrações começaram com força total. Sentei no computador pra usar o contador de contrações porque contar a duração com dor era impossível. Marquei por uns 30 min e resolvi ligar pra doula porque elas estavam de 5 em 5 minutos, às vezes de 4 em 4. Ela falou pra gente ir pro hospital que ela nos encontraria lá.
 

Vesti minha roupa e terminei de arrumar as coisas pra maternidade. Eu já estava com tanta contração que pra descer as escadas e chegar na rua eu devo ter demorado uns 15 minutos. Cada dois passos eu tinha que parar e esperar a contração passar. Chegamos no hospital e eu ainda consegui rir porque eu não conseguia chegar até o elevador!
 

A entrada na maternidade foi bem fácil e sem nenhuma burocracia. Entreguei a carteirinha e o plano de parto e já me levaram pra sala de parto. Em menos de 5 minutos eu já estava na sala de parto, que mais parecia um quarto mesmo, com a enfermeira instalando o monitor fetal e fazendo o acesso no meu braço. Na hora fiquei feliz porque não iam me amarrar em lugar nenhum, eu ia ficar sem soro e poderia andar se eu quisesse. Logo depois disso a enfermeira me examinou e a primeira decepção. Só tinha 3cm de dilatação! Tudo aquilo de dor e 3cm??? Fiquei apavorada. Ela saiu e deixou nós três sozinhos.
 

Isso eram umas 22h (eu acho). Ficamos nós três na sala, a doula me fazendo massagem e me ajudando com as contrações. Apagamos a luz, ficamos bem confortáveis. Eu não conseguia nem ficar em pé de tanta dor, quanto mais andar. A melhor posição era sentada na beirada da cama mesmo. Eu tentava fazer as respirações que aprendi na yoga, me acalmar, mas nada funcionava. Eu imaginei que ia sentir dor, mas nunca imaginei que as contrações ficavam tão próximas umas das outras tão rápido e faltando tanto pra chegar no final. Quando eram umas 2h eu não aguentava mais de dor. As contrações vinham de 2 em 2 minutos e duravam mais de 1 minuto cada uma. Eu queria vomitar de tanta dor, tentei tudo quanto é posição e nada me ajudava. Não dava tempo nem de respirar e já vinha outra contração. Eu já estava num mundo à parte mesmo. Eu gritava, ficava de 4, esperneava, não estava nem aí pra nada. A enfermeira veio me examinar de novo e a dilatação ainda estava em 5 cm. Nesta hora eu entrei em desespero mesmo, ainda faltava metade e eu já estava com muita dor desde as 20h quando a bolsa rompeu! 6 horas de dor e apenas 5 com de dilatação... A enfermeira sugeriu a banheira e eu aceitei, mas não cheguei a ir até a banheira. Comecei a pedir a anestesia. Meu marido me perguntou se era isso mesmo que eu queria, se eu não preferia ir pra banheira primeiro e eu disse que não, que queria a anestesia. A doula não abriu a boca. Segundo meu marido, ele olhou para ela e ela o apoiou, como quem diz: ela que decide, você não pode fazer nada.
 

Fui no banheiro, tirei minha roupa e coloquei a camisolinha do hospital. Nesta hora, eu quis chorar, de dor, de medo, de ter fracassado tão rápido. Respirei fundo e pensei que talvez não tivesse outro jeito mesmo, pelo menos eu estava tentando o máximo que podia.
 

O anestesista chegou um pouco depois e eu tomei a epidural. Ele falou que demorava uns 10 minutos para fazer efeito, mas acho que foi mais rápido que isso, porque eu senti mais algumas contrações e passou. Nossa, como eu agradeci a quem inventou a anestesia. Me deu um alívio tão grande na hora. Pena que o alívio durou tão pouco tempo. Em segundos eu senti alguém me deitando e me colocando a máscara de oxigênio. Eu não via nada direito, só sei que tinha um monte de gente na sala. Não estava conseguindo entender nada. Só vi a médica falando pra mim que os batimentos cardíacos do bebê tinham caído muito (estavam menores que 80) e que se não voltassem em menos de 10 minutos ela teria que fazer uma cesárea de emergência.
 

Os batimentos estabilizaram. A médica me explicou que isso podia ter acontecido porque o bebê pressionou o cordão umbilical, mas que não dava para garantir e que ele podia estar ficando cansado. Graças a isso, foi instalado um monitor fetal na cabeça do bebê e eu não podia mais me mexer... A médica disse que não podia arriscar perder os batimentos cardíacos depois do que aconteceu e que se baixasse de novo, era cesárea na certa. Assim que tudo se acalmou e ficamos sozinhos de novo, a primeira coisa que a doula me disse foi: "Você sabe que agora você vai ter que parir deitada né?" Eu nem questionei o porquê, eu me odeio por causa disso. Na minha cabeça ela sabia mais do que eu. E pior, nem foi o médico ou a enfermeira que me disse isso, foi minha doula!
 

Depois disso, a doula e meu marido foram descansar e eu fiquei lá imóvel, respirando fundo e observando o monitor de batimentos cardíacos. Fiquei neurótica, não conseguia relaxar. A enfermeira vinha de tempos em tempos conversar comigo, me dizer que estava tudo bem e que eu poderia tentar descansar que ela estava verificando o monitor pra mim, mas eu simplesmente não consegui!
 

Sei que ficamos muitas horas assim. Pela manhã a enfermeira veio ver a dilatação de novo e ainda estava em 7cm... Ela e a doula ficaram impressionadas com a quantidade de contrações que eu tinha e por tanto tempo pra dilatação ainda estar em 7cm. Pouco tempo depois eu comecei a sentir uma vontade de empurrar o monitor fetal pra fora de mim. Falei isso com a doula e ela disse que provavelmente eu já estava quase dilatando tudo e a hora do expulsivo chegando. Ela chamou a enfermeira e a dilatação estava em 9 cm. Faltava uma tal rebarba de um lado. A vontade de empurrar só piorava e agora eu já estava com muita dor de novo. Uma dor diferente das contrações, que vinha junto com uma vontade louca de empurrar.
 

Dilatação completa! Cada vez que vinha uma contração eu tinha que segurar nos meus joelhos e fazer força. O meu pesadelo vinha se concretizando. Eu não queria parir em posição de frango assado nem nos meus piores pesadelos e lá eu estava, nesta posição e segurando meus joelhos. Cada contração eu conseguia fazer 3 forças. Pegaram um espelho pra eu olhar e eu via a cabecinha do meu filho vindo. Isso era muito legal, me dava forças pra respirar fundo, aguentar a próxima e empurrar. Enquanto eu descansava entre as contrações, o médico fazia massagem no períneo, meu marido e a doula conversavam comigo. Eu tinha certeza de que ia conseguir, já estava quase acabando.
 

Mais de duas horas depois e nada do bebê nascer. A médica me diz que o bebê não estava conseguindo se recuperar entre as contrações. Que eu estava fazendo tudo certinho, que a força estava correta, tudo ótimo, mas que ele estava entrando em sofrimento fetal. A médica me disse que ele teria de sair na próxima contração de qualquer jeito e que ela ajudaria com o fórceps. Me disse que eu precisava fazer a maior força que eu conseguisse. A contração veio e eu fiz muita força. Eu senti o bebê saindo, escorregando inteirinho, mas senti tudo rasgando também. Ele saiu inteirinho e de uma vez só.
 

Assim que ele saiu já o colocaram em cima de mim, doía tanto que eu nem conseguia segurá-lo, fiquei com medo dele cair até. Logo em seguida, meu marido cortou o cordão umbilical e eu fiquei tentando colocá-lo no seio pra mamar. Ele gritava tanto, mas tanto que nunca vi coisa igual. Acho que ele gritou sem parar por quase uma hora! Ele nasceu com 3,5kg, 54cm, apgar 10/10/10.
 

A placenta saiu rapidinho em seguida. A médica me mostrou a placenta e o saco onde ele ficava, me disse que eu tive uma laceração de quarto grau, deu anestesia local (estava doendo muito) e costurou. Eu fiquei com meu bebê o tempo todo. Meu marido sentou na poltrona e abaixou a cabeça nas mãos. Eu me sentia atortoada, perdi muito sangue. Ninguém me explicou nada. Assim que fomos para o quarto, a doula foi embora. Foi a última vez que a vi.
 

Essa parte foi muito doída, doída no psicológico, no emocional mesmo. A última coisa que eu queria era parir que nem frango assado e precisar de fórceps. Fora a laceração grave! Além da dor, eu ainda comecei a sofrer com medo das conseqüências dela (incontinência principalmente). Minha mãe fez campanha a favor da cesárea minha vida toda justamente por causa do fórceps e meu parto dos sonhos terminou com o uso dele. Muito frustrante, não dá pra negar. Meu bebê nasceu um pouco machucadinho por causa do fórceps e com uma bossa gigante que sumiu quase um mês depois.
 

A doula me ligou uns 2 dias depois do parto para saber como nós estávamos. Uma conversa de uns 10 minutos na qual eu chorei bastante e disse que estava com muita dor. Ela me orientou a fazer compressas geladas. Ficou de nos visitar no final de semana, no máximo no outro. Esta visita nunca aconteceu. Pior ainda, ela desapareceu. Eu mandei diversos e-mails, tentei ligar diversas vezes, deixei recados e nada. Quatro meses depois do parto, eu decidi fazer um teste e liguei para ela de um número desconhecido. Ela atendeu o celular na primeira tentativa que eu fiz. Eu desliguei sem falar nada. Eu não tive forças pra pronunciar nenhuma palavra. Logo em seguida recebi um e-mail dela dizendo que ela estava muito ocupada e que poderíamos nos encontrar no início do próximo ano. Eu ainda estou esperando...
 

Eu confesso que me senti realmente abandonada depois do parto. Nunca fui examinada pra saber se estava tudo bem (na minha consulta pós-parto, o médico, aquele que queria fazer cesárea por causa da cicatriz, me disse que se não estivesse saindo fezes pela minha vagina era porque estava tudo certo). Chamou meu marido em outra sala e disse que eu estava com DPP (depressão pós-parto). Receitou antidepressivo por um ano sem acompanhamento (eu nunca os comprei). Os pontos demoraram 2 meses pra cicatrizar e eu senti dor durante mais de 6 meses. Eu não tive apoio nenhum. Depois de ir atrás de informações na internet, decidi procurar uma fisioterapeuta e uma psicóloga. Elas foram essenciais para a minha melhora física e emocional. Não tenho mais seqüelas físicas do parto, nem meu bebê, mas até hoje eu ainda não consegui aceitar as coisas direito.

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