Bem-vinda!!

Bem-vinda ao nosso blog!
Aqui, mamães muito diferentes mas com um único objetivo compartilham suas experiências nesta grande aventura que é a maternidade! Nós queremos, acima de tudo, ser mamães sábias, que edificam seus lares e vivem com toda plenitude o privilégio de sermos mães! Usamos muitos dos princípios ensinados pelo Nana Nenê - Gary Ezzo, assim como outros livros. Nosso objetivo é compartilhar o que aprendemos a fim de facilitar a vida das mamães! Fomos realmente abençoadas com livros (e cursos) e queremos passar isso para frente!


"Com sabedoria se constroi a casa, e com discernimento se consolida.
Pelo conhecimento os seus cômodos se enchem do que é precioso e agradável"
Prov. 24:4,5

sexta-feira, 23 de maio de 2014

A nossa vida no Québec - Os últimos 8 meses (Parte 1)

Eba, voltei ao blog! Entreguei meu último trabalho na universidade em meados de abril e ainda estou me recuperando da maratona que foram os últimos oito meses aqui no Canadá. Que alívio e que alegria; agora posso finalmente me dedicar ao homeschooling!

E cá entre nós, ficar em casa é tudo de bom. :)

Meu nível de cansaço mental e físico nos últimos meses estava tão profundo que eu tinha a nítida visão e sensação de estar envelhecendo. Um ano e meio atrás eu disse que o trabalho de ficar em casa com os filhos cansava mais do que trabalhar fora o dia todo, não disse? E é verdade, cansa mais mesmo, mas agora descobri algo que para mim desgasta ainda mais: tentar conciliar as duas coisas - vida dentro e fora de casa, estudando em período integral, levando criança pra escola, tentando conciliar tudo. Eu sei que existem muitas mães capazes de lidar numa boa com a pressão de tantos afazeres e preocupações, trabalham fora o dia todo e ainda estudam à noite, mas eu sinceramente não consigo... eu fico à beira de um ataque de nervos!

Simplesmente não consigo educar à distância e ficar feliz com o resultado, sabe? As muitas horas fora e a constante preocupação de textos para ler ou trabalhos para fazer não me deixavam fazer em casa um trabalho que eu considero decente. Pior, viver esgotada também me impedia de curtir a maternidade, o casamento, meu relacionamento com Deus... enfim, no meu caso tudo vira obrigação e torna-se um fardo pesado demais para carregar (e admito que o problema também é porque eu não me contento em não dar o meu melhor nos estudos). Quando estou cansada dia após dia, fico irritada com facilidade e sem paciência para brincar com minhas filhas ou mesmo corrigi-las de forma amorosa. Acabo virando uma mãe brava e autoritária, e reajo a situações inesperadas como não gostaria de reagir. Agora que estou em casa, tomo precauções para não debandar para o outro lado: ficar bitolada com as preocupações da casa e não respirar ar puro (figurativamente) periodicamente para renovar as energias. Nada como o bom e velho equilíbrio para garantir que não "endoidemos", hehe.

Bem, há seis meses, em 20 de outubro, eu escrevi um relato (leia aqui) sobre nossa mudança para o Canadá e como estava sendo nossa adaptação ao novo país. De lá pra cá muitas novidades aconteceram, mas eu vou tentar resumir os pontos mais importantes.

Em retrospectiva - Um milagre após outro...
Vim para o Canadá com bolsa de estudos e, portanto, decidimos que o meu marido ficaria em casa nos primeiros meses de adaptação. Assim, ele poderia pessoalmente cuidar das meninas (para amenizar o choque da mudança) enquanto eu estudava. No fim de setembro (no mesmo mês em que chegamos), ele solicitou o work  permit pela internet e, três meses depois, recebeu o visto pelo correio. Ainda no fim do ano, ele já começou a procurar emprego pela internet, enviou currículos e chegou até a fazer algumas entrevistas e foi chamado para treinamento numa empresa. Apesar disso, a contratação na empresa onde ele está hoje só foi acontecer mesmo dois meses depois (reparamos que as coisas aqui andam mais devagar), em meados de fevereiro. Este foi o primeiro milagre! Chegamos no Québec, a única província francófona do Canadá, sem falar praticamente NADA de francês, e sabíamos que conseguir emprego aqui sem falar francês era algo muito difícil. A nossa oração sempre foi que ele pudesse trabalhar em algo em que falar bem o inglês e o português fosse o diferencial. E Deus nos ouviu! Ele não só conseguiu o "emprego ideal" (com um salário acima da média para quem está chegando no país), mas também foi contratado justamente no mês em que eu parei de receber a bolsa de estudos (que durou seis meses). Ou seja, não tivemos falta de nada! O tempo de Deus foi, como sempre, perfeito.

O segundo milagre foi a creche para as meninas. Serviço de creche no Canadá custa caro. O valor para apenas uma filha custaria praticamente o mesmo (ou mais) de um mês de aluguel no nosso apartamento de 2 dormitórios. Imagine então ter de pagar creche para duas filhas?! Para quem é residente temporário, as chances de conseguir pagar menos (por causa do reembolso do governo para residentes permanentes) diminuem. A nossa única chance de conseguir pagar menos seria por meio de matrícula em garderie administrada pelo governo, a chamada CPE (Centre de La Petite Enfance), algo que, o que mais se ouve por aqui, é praticamente impossível. Coloca-se o nome da criança numa lista de espera online ou direto na CPE e espera-se, por tempo indeterminado, por uma vaga. Ouvi relatos de mulheres que inscreveram o bebê assim que souberam estar grávidas e esperaram por anos, sem nunca serem chamadas. No fim de dezembro, consegui vaga para a Nicole começar numa CPE perto da universidade no início de janeiro. Era bilíngue e em período integral. No primeiro dia ela gostou muito, estava felicíssima de ser a new butterfly do grupo de crianças, mas foi só perceber que teria de ir todos os dias e passar muitas horas lá que começou a se desesperar. Ela precisava chegar antes das 9:30 da manhã para o início das atividades e tinha de ficar por pelo menos 5 horas direto, sob pena de perder o direito à vaga. Era inverno e quando a buscávamos já estava praticamente escuro (aqui o dia escurece às 4 da tarde no inverno!!), então ela voltava pra casa arrasada porque o dia já tinha acabado. Implorava para não ir mais e poder ficar em casa fazendo homeschool, principalmente porque ela sabia que a Alícia ficava o dia todo comigo (obs. Estávamos aguardando abrir uma vaga para a Alícia na mesma CPE já que agora a irmã estava lá e ela teria prioridade). Nesta época, o Douglas ainda procurava emprego e eu, sem botar fé que conseguiríamos vaga em alguma garderie pagável, no fim do semestre anterior tinha decidido passar o máximo de aulas para o período da noite. O resultado não poderia ser pior: quando a Nicole chegava em casa, eu já tinha saído para as minhas aulas!

O fato é que ela durou nesta CPE por apenas 2 semanas e 2 dias! Toda manhã era um escândalo e na creche ela ficava inconsolável, se negando a participar das atividades. Tanto que em alguns dias as educadoras precisaram nos ligar para buscá-la mais cedo. Quem conhece a Nicole sabe que ela não tem a menor dificuldade de interação e independência. Acontece que ela realmente estava com o coração partido, queria de todo jeito ficar em casa. Todo dia me perguntava porque precisava ir... eu explicava, mas ela continuava inconformada. Eu também não estava gostando de vê-la tão pouco todos os dias, então um certo dia eu propus a ela o desafio de orarmos e pedirmos a Deus uma solução para o problema. Pois a resposta de Deus chegou em menos de dois dias! Ela saiu dessa CPE e foi direto para outra muito melhor - desta vez totalmente francófona, em 1/2 período (apenas 4 horas por dia) e com vaga para as minhas duas filhas! A localização desta também era melhor já que, diferente da primeira, bastava sair do metrô e já estava quase na porta da garderie. E o melhor, por causa da carga horária reduzida, eu pagava para as duas o mesmo valor cobrado somente para uma na CPE anterior. Para completar, o esquema desta garderie era diferente: crianças de 18 meses em diante ficavam juntas o tempo todo, o que achei ótimo. Além das minhas filhas poderem ficar juntas (justamente o que eu queria), essa forma de trabalhar permite uma socialização muito mais saudável já que a criança aprende a lidar com faixas etárias diferentes. Ou seja, não podia ser mais perfeito, foi presente de Deus!

Resumindo, elas frequentaram esta CPE por um total de apenas 3 meses (do fim de janeiro até o fim de abril), mas foi um tempo muito memorável! Não iam todos os dias (a coordenadora não se importava desde que continuássemos pagando, rs), usávamos a creche somente quando eu precisava de verdade (por causa das minhas aulas e porque era cansativo demais ir com as duas de ônibus e metrô). Mas neste tempo, elas puderam aprender muitas palavras e musiquinhas em francês, se divertiram com os coleguinhas e, principalmente, sei que elas foram muito bem cuidadas pela equipe que tinha muito carinho por elas.

Esta foto foi tirada com a educadora preferida delas no dia da despedida.

Ah... antes de encerrar esta parte, preciso contar mais um detalhe do milagre do emprego do Douglas! Uma grande preocupação que tínhamos era com relação ao horário de trabalho dele. De cara, na entrevista, ele já foi avisado da possibilidade de ter de trabalhar no período noturno, até meia-noite, caso fosse aprovado no treinamento. Aceitamos a condição mesmo sabendo que eu estudava à noite 3 noites por semana e isso colocaria um peso terrível nos meus ombros. Significava que ou eu levava as meninas para a aula comigo ou corria o risco de perder o semestre! Pedimos a Deus por uma solução e descansamos nEle. O treinamento teórico, que estava previsto para durar 5 semanas, iniciou em 17 de fevereiro e, durante este período, o horário das 8:00 às 16:00 seria perfeito para ele buscar as meninas na CPE assim que saísse do trabalho. Pela manhã eu ficava com as meninas em casa, dava almoço e depois as levava para a garderie antes de ir para a universidade estudar. Passaram-se as primeiras cinco semanas e, na sequência, avisaram que eles teriam mais 2 semanas de incubação para treinamento prático, cumprindo o mesmo horário de trabalho. Como se já não bastasse tanta graça, a empresa iria receber gente importante na semana seguinte e todos os gerentes estariam ocupados para dar suporte. Sabem o que isso significou? Que o período de incubação foi estendido, calhando perfeitamente com a semana em que eu entreguei meu último trabalho da faculdade! Foi somente em 21 de abril, quando eu já estava de férias, que ele começou no novo horário de trabalho, das 16:00 à meia-noite.

A nossa vida de um mês pra cá - Praticando homeschooling!
Desde que minhas aulas terminaram, estou num ritmo de vida totalmente novo!! Está uma delícia fazer homeschool com as meninas. E com a nova rotina, estou até conseguindo fazer exercício físico! A primeira providência foi me matricular numa academia para fazer Pilates e outras aulas. Estava precisando muito me exercitar! Agora tenho tempo livre para ler por prazer (comecei dois livros - um é sobre educação, chama-se Dumbing Us Down - The Hidden Curriculum of Compulsory Schooling e outro sobre saúde reprodutiva, chama-se Taking Charge of Your Fertility - The Definitive Guide to Natural Birth Control, Pregnancy Achievement, and Reproductive Health), algo que era impossível de fazer quando eu estudava full time.

Haha, já deu pra perceber que eu estou bem feliz com as mudanças, né! :)

Para o homeschool optei por usar dois programas ao mesmo tempo. Os dois são cristãos. Um é gratuito (Easy Peasy All-In-One-Homeschool) e o material está todo na internet. Comecei do Getting Started 1 (bem do início) para que a Alícia consiga acompanhar com a Nicole. Fizemos o Day 25 hoje (ainda tem chão, são 222 dias essa primeira parte!). A proposta do Getting Started 1 e Getting Started 2 é que a criança aprenda a ler cedo para que possa trabalhar sozinha quando começar o Level 1. Eu não tenho intenção nenhuma de acelerar as coisas... quero ir no tempo delas. Porém, vejo que elas estão ávidas por aprender. A Nicole me pede para estudar! As lições são bem gostosas e curtas o suficiente para que a Alícia, que ainda nem completou 3 anos, consiga acompanhar - ela está aprendendo a clicar com o mouse, rs. Eu prevejo que no futuro, quando ela crescer e ganhar mais maturidade, eu tenha de refazer muitas lições com ela, mas pode ser que eu esteja enganada. Só a experiência dirá. Quase todo dia tem alguma sugestão de craft para fazer, e quase sempre inclui pintar, recortar e colar. Pra mim se tornou terapia! Como não temos impressora, eu já fui algumas vezes à faculdade e imprimi com antecedência uma quantidade razoável de lições de que vamos precisar.

Hoje excepcionalmente usamos canetinhas para fazer o craft,
mas normalmente usamos lápis de cor (Nicole) e giz de cera (Alícia).

O outro currículo que usamos é da mesma empresa de quem compramos livros no ano passado (Sonlight Christian Homeschool Curriculum). Desta vez, comprei o Pre-Kindergarten Program para crianças de 4-5 anos. O pacote anterior, Preschool Program, para crianças de 3-4 anos, nós já tínhamos e o trouxemos na mala para cá. Simplesmente amamos o tempo de leitura no sofá! Terminamos hoje a Week 4 com elas (cada ano tem 36 semanas). O tempo diário previsto para as atividades desse programa é 20-40 minutos e dá para fazer a qualquer hora do dia. Os Read-Alouds (as leituras em voz alta) têm bastante poesia, rimas, contos e curiosidades em geral. Às vezes lemos e encenamos a história para recontá-la ao papai depois. Uma novidade no programa deste ano é um livro sem imagens, só de texto. No começo foi difícil para a Nicole e exigiu um tipo de concentração diferente já que o seu hábito era ficar do lado "lendo" as ilustrações enquanto eu lia em voz alta. Mas agora percebo que já estamos engrenando melhor e aos poucos ela está se acostumando a usar a própria imaginação.

Como gostei muito do Mighty Mind que veio no kit do ano passado, acrescentei ao pacote deste ano, por um valor à parte, um material de matemática chamado Patternables. São figuras geométricas que acompanham folhas com desenhos para as crianças encaixarem. Elas gostam muito de montar com as pecinhas. Além disso, usamos muito o ipad tanto para exercícios de matemática quanto de alfabetização. Tem cada aplicativo maravilhoso! Como devem ter percebido, não sou contra tecnologia para crianças. Acho que devemos usá-la, com sabedoria, a favor da nossa educação. É uma ferramenta muito útil. Esclareço ainda que, curiosamente, matemática e alfabetização são as únicas duas matérias de metodologia de ensino que ainda não cursei na faculdade (sou estudante de Pedagogia). Por isso, quando voltarmos para o Brasil, agora no próximo semestre, estou ansiosa para saber o que os teóricos da educação têm a dizer sobre essas duas áreas. Vai ser interessante!  Terei a oportunidade de estudar a teoria de algo que eu já estou adquirindo um certo "saber fazer" (e, claro, formulando minhas próprias concepções teóricas) e isso, com certeza, vai potencializar minha capacidade de crítica durante o curso.

Finalmente, às vezes ouço mães que gostariam de homeschool dizer que acham excelente, mas que não se consideram suficientemente organizadas ou disciplinadas para fazê-lo. Pode ser ilusão minha de principiante, mas estou usando dois programas diferentes e posso garantir que não toma tanto tempo assim - no máximo 2 horas por dia, mas pra falar a verdade raramente chega a tanto! As meninas ainda têm tempo de sobra pra brincar, assistir desenho, e fazer outras atividades livres. No momento, a Nicole também está fazendo aulas de piano e de balé durante a semana. Como eu sou muito simpatizante do unschooling, prezo mais o raciocínio e lógica do que conteúdo em si. Minha filosofia tem sido me permitir toda autonomia e liberdade de que preciso para fazer ajustes conforme a vida pede pois, é tanto impossível como indesejável seguir uma rotina rígida. Por exemplo, o meu horário ideal de fazer as atividades é pela manhã, logo após o café (digo meu porque é quando meu cérebro está mais ativo), mas neste um mês de experiência, houve dias em que não foi possível fazer toda manhã, então fizemos de tarde ou de noite. Outros dias, pra ser sincera, nós nem fizemos!! Mesmo assim, estamos "em dia com a matéria", ou seja, cumprimos com o programa sugerido para a semana. Pelo menos neste estágio, o programa é bem simples... o principal, ao meu ver, é o que elas aprendam com a vida e que sejam instigadas pela curiosidade natural à medida que fazem perguntas. A curiosidade infantil é aguçada! Como muitas coisas que eu não sei explicar ou não lembro direito, pesquisamos juntas no google e no Youtube. Olha só os temas que já exploramos (sem esgotá-los, é evidente) nas últimas duas semanas que nada tiveram a ver com o programa oficial de estudos:

- Porque o céu fica laranja no pôr-do-sol;
- Que "bicho" é a joaninha é antes de virar joaninha;
- O que é um furacão; - O que as cobras comem;
- Como as aves constroem seus ninhos (assistimos a alguns vídeos sobre o joão-de-barro):
- Porque a gente tem febre.

Eu tenho outros assuntos relevantes sobre os quais ainda gostaria de escrever, mas o post está ficando longo demais. Vou deixar para começar um novo em breve. Espero conseguir me organizar para voltar a escrever no blog com mais frequência...

Confira a parte 2 aqui.

Um grande abraço a todos e todas que me leem!

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Relato de parto natural domiciliar... e super rápido! Você encararia um assim?

O relato de parto que venho publicar hoje é de uma amiga muito querida no Brasil que pediu para eu não divulgar o nome das pessoas da sua família. Nos conhecemos há mais de 2 anos e ficamos amigas porque éramos da mesma igreja e nossas filhas têm a mesma idade (com diferença de poucos meses). Como ela também se sente chamada a praticar o homeschooling, no 1o semestre de 2013 fizemos encontros quinzenais (play dates) com as nossas filhas que deixaram muitas recordações!

Quando deixei o Brasil, em 01/09/2013, ela havia acabado de completar 40 semanas de gestação de sua 3a filha. A bebê nasceu no dia seguinte! Foi um parto natural EM CASA como ela havia sonhado e orado a Deus. Seus dois primeiros partos foram normais também, porém hospitalares e cheios de intervenções, e ela queria muito viver uma experiência natural desta vez. Lembro de várias conversas que tivemos sobre este assunto durante a gravidez (já que é um assunto de que eu gosto muito, rs), sei que ela pegou dicas com outra amiga que também teve partos domiciliares (dois!), frequentou um grupo de apoio à maternidade, conversou bastante com o marido e, principalmente, pediu direção de Deus até se sentir em paz com a decisão. Enfim, ela pesquisou e se informou o máximo que pôde sobre o assunto para tirar dúvidas em relação ao que era melhor: parir em hospital, em casa de parto, ou em casa? Com ou sem doula? Com obstetra ou obstetriz (parteira)?

Abaixo segue o relato que ela me enviou (escrito dois dias após o nascimento da bebê e que eu editei para preservar a privacidade das pessoas envolvidas).

Relato de Parto – escrito em 04/09/2013
DUM 24/11/2012

Que alegria, estava grávida de mais um bebê. Queria muito essa gestação apesar dos temores. Fiquei feliz. Já fazia um tempo que havia desmamado a minha segunda filha, estava menstruando desde de julho e só fui engravidar mesmo em dezembro.

A gestação foi normal, perfeita, cheguei aos 75kg como nas outras duas, strepto B negativo, que bom, tudo perfeito. US de 38 semanas disse que ela era pequena com 2700g, mas na verdade ela não era pequena, nasceu bem com 3450g.

Durante a gestação fui aprendendo sobre o parto, as intervenções, conheci o GAMA e passei a ir nas reuniões de 5a feira. Foi muito bom. Tomei coragem, nos conscientizamos e decidimos pelo parto domiciliar. Passei com a parteira de uma amiga, mas não gostei. Passei com outra parteira e resolvi ficar com ela porque ia ser um pouco mais barato. No final, com 38 semanas resolvi mudar de parteira novamente porque achava esta menos intervencionista, mais preparada para intercorrências, mais moderna e mais profissional. A anterior tinha certos métodos (aminioscopia, estourar bolsa, massagem, etc.) que eu não queria.

Dia 31 de agosto, sábado, completei 40 semanas. O tampão saindo aos pedacinhos e pedações durante a semana inteira, sentia a barriga pesada e uma pressão maior no períneo. Passei no médico na 3a feira, dia 27, e ele disse que estava com 4-5 cm de dilatação. Achamos que o parto poderia ser a qualquer momento. Na 4a feira eu queria ir ao mercado, mas estava com medo de entrar em trabalho de parto e liguei para a parteira para ela me examinar. Ela disse que o colo estava posterior e que essa dilatação era residual por ser a 3a gestação, que eu poderia ir ao mercado porque ainda não era a hora. Dia 31, sábado, foi o picnic da igreja, queria muito ir, mas não estava em paz. Acabei entendendo no meu coração que tem tempo pra tudo e que naquele momento eu deveria me submeter às minhas circunstâncias. Era tempo de ficar quieta e aguardar. Tive poucas cólicas que vinham e iam. Domingo também, algumas coliquinhas pela manhã, à tarde passou, voltou a noite. Mandei uma mensagem pra parteira no domingo à noite. Tínhamos ido ao Habib's com as meninas para elas brincarem um pouco (pois passamos o final de semana de molho em casa), mas eu estava tendo as coliquinhas lá no restaurante. De lá mesmo mandei mensagem pra parteira, que ficou de sobreaviso. 

Na hora de dormir, domingo, eu estava cansada. Pensei comigo mesma: "Eu não vou entrar em trabalho de parto essa noite, eu vou dormir. Quero estar descansada". Dormi mesmo, dormi bem, não senti NADA. Acordei tranquila. Quando fiz xixi pela manhã, percebi uma gotinha de sangue no papel. Lembrei do que a minha mãe havia dito, que isso foi um sinal pra ela de que o parto estava chegando, mas pensei: “De pequenos sinais estou cheia. Pode ser agora ou não". Não estava sentindo nada. Mandei uma mensagem pro meu pai pela manhã:

Oi Pai,
Dormi bem, não tive cólicas durante a noite.
Hoje de manha, saiu um pontinho de sangue, menos que uma gota.
Esta progredindo, mas neste momento não estou sentindo nada.
Fiquem tranquilos porque eu vou perceber quando começar.
Bjs.

Tomei banho, desci, dei café para as meninas e tomei café. Quando ia começar a arrumar a cozinha, tive uma contração forte. Era 8:30. Pensei: “Essa foi forte. Não vou poder ficar aqui sozinha com as meninas se continuar assim. Vamos ver se vai engatar…”. 

Dez minutos depois, outra contração igual. Nem terminou a contração, já liguei para o meu marido. Falei pra ele que tive duas cólicas fortes e que não poderia ficar em casa sozinha, falei pra ele vir pra casa pra ficar comigo e me ajudar a cuidar das meninas. Ele disse que só poderia vir mesmo se fosse para a neném nascer, mas que ele iria falar com o chefe e ver se poderia vir, e que me ligaria de volta. Liguei para minha mãe e disse pra ela o que estava acontecendo, que ele viria logo e que ela poderia vir pegar as meninas pelo meio-dia (nem imaginava que tudo seria tão rápido!).

Dez minutos depois meu marido liga de volta, diz que está vindo. Eu confirmei dizendo que se não fosse um parto domiciliar, ele teria que me levar para o hospital naquele momento. Isso o tranquilizou de que realmente era hora de vir pra casa. Ele me mandou ligar para a parteira e pedir pra ela vir me ver. Eu resolvi terminar de arrumar a cozinha pra ligar pra ela depois, pois sabia que ela chegaria rapidamente, já que ela morava perto. Tentei terminar de arrumar a cozinha, mas tive uma outra daquelas contrações que me interrompeu e me assustou... resolvi ligar pra ela naquela hora! Ela perguntou de quanto em quanto tempo, falei que achava que de 10 em 10 minutos. Ela estava cansada pois tinha passado a noite em claro com outro parto, pediu para que eu contasse quantas contrações na próxima meia hora e então retornasse pra ela. (Sério?! OK). 

Meu marido chegou em casa às 9:30, eu estava andando pela sala. A minha filha mais velha, que fofa, segurava na minha mão e ia andando comigo enquanto eu vocalizava. Foi muito especial ter o suporte dela nessa hora. Muito, muito especial mesmo. Eu perguntei pra ela se ela estava com medo, ela disse que não e ela me perguntava se a bebê estava chegando. Eu não tinha certeza ainda (rsrs!), mas dizia pra ela que achava que sim. Quando o meu marido chegou, passei a lista pra ele do que precisava ser feito: 1) cronometrar as contrações para a parteira, 2) arrumar as meninas, 3) encher a banheira e 4) ligar para a minha mãe pra pegar as meninas AGORA.

Eu precisava de quietude, a dor era intensa e estava tudo muito agitado. A parteira liga e pergunta como está, meu marido diz que de 3 em 3 minutos, ela diz: “Opa, estou indo!”. Acabei indo para o quarto e fechei a porta. Fiquei lá e via o meu marido arrumando as meninas, enchendo a banheira, eu não tinha a menor condição de ajudá-lo. A dor era tanta, me ajoelhei no chão, apoiei minha cabeça na cama e fiquei ali. Vinha e voltava, mas entre as contrações ficava ainda uma dorzinha. Era tão rápido e já vinha outra. Eu queria água, ele ocupado, pensei: "Não tenho a menor condição de descer para pegar água". Fiquei ali mesmo, queria trocar de roupa, ir para o banheiro, para o chuveiro, precisava me acomodar de alguma forma, porque a dor estava forte. Eu pensava: "São 9:30 da manhã, acho que não vou aguentar até 12:00 com essas dores. Meu Deus, me ajude!". O versículo que Deus havia me dado para este parto era Salmos 28:6-7a: "Bendito seja o Senhor, pois ouviu as minhas súplicas. O Senhor é a minha força e o meu escudo; nele o meu coração confia, e dele recebo ajuda". Dele recebo ajuda. Dele recebo ajuda. Soava no meu coração. Pedia graça, forças. 

Decidi que tinha de me trocar, juntei forças e levantei, me troquei e fui para o banheiro. Meu marido tinha deixado um treco embaixo da banheira, estava super desconfortável para pisar ou entrar na água. Fiquei tentando levantar a banheira (que já estava meio cheia) pra tirar aquele treco, consegui! Me acocorei lá dentro com a água batendo nas minhas costas e fiquei lá. Nesse tempo chega minha mãe, e a parteira. E eu lá fazendo os meus barulhos, com as minhas cólicas, acocorada dentro da banheira. Não sei muito bem como foi, só lembro da parteira chegando com um sorriso, me chamando de querida, e perguntando se eu ia botar um ovo hoje. Eu ri e disse que sim, um ovo bem grande! Rsrs.


Acho que eu cumprimentei minha mãe também, mas não tenho certeza. De repente aparece o meu marido, pedi pra ele tirar foto. Eram cólicas muito fortes, fiquei ali de quatro com a água batendo nas minhas costas. Quando apoiava a cabeça na banheira, conseguia relaxar mais as costas, os ombros e a dor era melhor. O meu marido queria falar comigo, mas eu pedia pra ele não falar porque eu não tinha como me concentrar no que ele estava falando, eu precisava ficar bem fechada em mim mesma. Orava, queria chorar, queria fraquejar, mas falava pra mim mesma: "Tenho de ser forte, não posso fraquejar". Fraquejava e me erguia, foi uma luta interior naquele momento. Orava. De repente, vontade de fazer força, vontade de fazer cocô, falei para a parteira: "Quero fazer cocô!". Ela disse: “É a neném, querida! Não é cocô, é a neném, pode vir, deixa vir".

E assim a força veio, sozinha, eu só me rendi, e a cabecinha começou a sair. UAU! Eu não acreditava que já estava nascendo, doía, mas era muita emoção, uma mistura de medo, alegria e dor, muita dor, tudo tão rápido. Pus a mão lá embaixo e senti a cabeça dela. UAU! Foi saindo. Pedi para o meu marido pôr a mão ali e sentir a cabeça dela, meio pra dentro, meio pra fora. Que loucura! Que emocionante! Foram 4 contrações para ela sair. Entre as contrações do expulsivo, eu estava maravilhada! Conseguia esquecer da dor, porque estava muito maravilhada! Durante muita dor, mas já estava no final. Senti arranhar por dentro, mas era menos dolorido do que a contração porque a contração durava 1 minuto ou um pouco mais e o arranhão eram 2 segundos. Ela nasceu! Eu estava chocada, como havia sido rápido!

Eram 10:25, e a minha bebê nasceu. Eu perguntava se ela estava bem, pois esse era o meu medo. E a parteira dizia: "Ela está ótima querida, ótima"! UAU! Eu peguei ela no colo, estava em choque, como foi rápido, que sensação impressionante, ela tinha saído de dentro de mim, passado pelo canal vaginal e estava chorando em meus braços. Que especial! Minha bebê. Que linda! Que perfeita! Obrigada, Deus!

Uau, já tinha terminado. Ficamos ali uma meia hora. Minha mãe apareceu com as meninas. Tiramos fotos. Foi demais! Saí da banheira e fui pra cama. Fiquei com a bebê no colo, ela chorava, mas pouco, ficava a maior parte do tempo quietinha, respirando e mexendo os bracinhos, as mãozinhas e os dedinhos. Que fofinha. Logo saiu a placenta, com mais umas contraçõezinhas. Mas tranquilo. Carimbamos a placenta. Ela mamou, sugava tão bem. Forte. Sugou por 1h. Depois cortamos o cordão.

A parteira desceu e me deixou sozinha com o meu marido e a neném. Ficamos ali, que lindo! Contemplando, digerindo todo aquele momento. Coloquei a minha roupa novamente e ligamos rapidamente no Skype para passar a noticia para os pais do meu marido. Nem havíamos pesado a bebê ainda. Falamos rapidamente com eles, voltamos pra cima, pesamos a bebê, estava tudo bem. 

A parteira foi embora, minha mãe levou as meninas pra almoçar na casa dela e passar a tarde com as primas. Meu marido comprou duas marmitas no bar da esquina e nós almoçamos juntos, com a neném   do nosso lado. Que momento especial. Que fome! Foi lindo, perfeito, abençoado, demais! Melhor parto, falei que se tiver outros, não quero hospital de jeito nenhum! E dessa vez, se eu deixasse pra ir pro hospital às 8:30, na hora em que começaram as contrações, provavelmente a neném teria nascido no carro. Deus tem sido muito bom conosco! Obrigada, Senhor! Tu és fiel!!

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Os primeiros mil dias da criança e a importância dos pais!

Um assunto que sempre chama a minha atenção é a importância dos laços afetivos para a formação emocional saudável de uma criança. Há menos de um ano tive o privilégio de ler um livro que fala justamente sobre isto. Escrito por uma psicanalista e psicoterapeuta de Oxford chamada Sue Gerhardt, ele demonstra através da ciência como as primeiras interações psíquicas e sociais de um bebê afetam a constituição fisiológica do seu cérebro em desenvolvimento. Não é um livro de cunho cristão e acredito que ele ainda não tenha sido traduzido para o português - em inglês o título é Why Love Matters - How Affection Shapes a Baby's Brain - mas se você lê em inglês eu fortemente recomendo a leitura. Ele apresenta evidências científicas interessantíssimas confirmando o que fica cada vez mais claro para mim: a diferença que faz para a educação dos filhos a presença amorosa e diretiva dos pais no dia-a-dia.

Sem querer julgar ninguém por suas escolhas pessoais, até porque vejo que é antes de tudo um problema de políticas públicas, eu admito que tenho dificuldade de engolir o argumento de que o único fator que importa é a qualidade de tempo que se dedica aos filhos. Sim, claro que a qualidade é essencial, mas ela é intimamente ligada ao fator 'tempo'. Como é possível ter qualidade de tempo sem quantidade?? Eu acho bem difícil, ainda mais nos primeiros anos, quando o cérebro da criança ainda está em formação e sendo literalmente marcado para a vida toda, como mostra a autora.

Por isso, hoje venho compartilhar as sábias palavras do pediatra e ex-reitor da UNICAMP, José Martins Filho, que "discute a atual licença-maternidade no Brasil e defende uma mudança na legislação que permita à mãe ficar mais próxima de seu filho nos primeiros anos de vida, sem que tenha que abrir mão do trabalho" (conforme a descrição publicada pelo Instituto Alana no Youtube).

São menos de 4 minutos de entrevista que espero que a ajudem a refletir sobre o seu papel como mãe. Desejo que você seja inspirada ao vislumbrar a diferença que a sua presença faz na vida dos seus pequenos, hoje e amanhã, e o impacto que isto fará na construção de um mundo melhor! E, finalmente, que encontre forças em Deus para não desistir de ficar mais perto deles hoje, apesar das inúmeras dificuldades e resistência que talvez você encontre pelo caminho.



Antes de terminar e seguindo esta mesma linha da importância dos vínculos familiares para a vida social bem sucedida do ser humano, existe um outro livro, escrito pelo psicólogo canadense Gordon Neufeld e o médico húngaro Gabor Maté, que eu também estou muito interessada em ler.  O título é Hold On to Your Kids: Why Parents Need to Matter More Than Peers. Na verdade, eu assisti a uma entrevista de 2004 em que o Dr. Gordon Neufeld denuncia a falsa suposição de que quanto mais cedo a criança entrar na escola melhor. Ele mostra que o contrário é verdadeiro e aponta para o perigo da formação precoce de vínculos com os pares (crianças da mesma idade), em vez de com os pais, numa idade em que o que a criança precisa é de amor incondicional e de direção de um adulto. Afinal, salvo minorias exceções de pais abusivos, quem melhor do que mãe e pai para suprir esta necessidade da criança?! Veja a entrevista toda, se souber inglês, e compartilhe com seus amigos. Garanto que serão 26 minutos muito bem investidos!

Aproveito o assunto de hoje para também direcioná-los à leitura de outros posts em que já falei sobre o assunto de maternidade, família, creche e políticas públicas.

Basta clicar nos links abaixo para lê-los.

Creche noturna beneficia a sociedade?
Você concorda com o aumento da jornada escolar?
Eu largar o emprego e depender financeiramente do meu marido? Você só pode estar louca!
Meu bebê nasceu e logo termina minha licença. O que eu faço agora?

Um grande abraço,
Talita

domingo, 15 de dezembro de 2013

Uma mulher e três experiências: uma cesariana, um parto normal hospitalar e um parto domiciliar - PARTE 2

(Este post é continuação do de ontem. Para lê-lo clique aqui!).

Relato do Parto da Giulia

O positivo
A Giulia veio inesperadamente. Parei com o anticoncepcional por causa das dores pós-parto do Lorenzo. A solução da médica para acabar com meu problema era aumentar os níveis de estrogênio. Ou eu parava a pílula e via se meu organismo reagia sozinho ou eu tomava uma pílula tradicional e corria o risco com a amamentação. Como eu já tinha tentado de tudo para acabar com o problema, resolvi tentar parar com o anticoncepcional já que correr risco com a amamentação estava fora de cogitação.

Em outubro, já tinha passado da data da minha menstruação vir e resolvi fazer um teste. Negativo. Passou mais uma semana e nada da minha menstruação, fiz outro teste e a segunda linha apareceu bem fraquinha. Comprei um terceiro teste, mais confiável, e repeti dois dias depois. A lista estava lá, bem nítida. Eu estava grávida, de novo... Feliz por um lado, mas em pânico por outro.

A gravidez
Eu liguei em todas as clínicas da minha cidade e não consegui nenhuma vaga para fazer pré-natal. Grávida de umas 6 ou 7 semanas e ninguém tinha vaga?? Começou meu desespero. Também liguei nas duas casas de parto possíveis e me inscrevi na fila de espera sem nenhuma esperança. Em uma última tentativa consegui um médico para o início de dezembro. O problema é que eu verifiquei as referências sobre o tal médico na internet e era terrível. Ele tinha usado fórceps e deixado um bebê com sequelas. Decidi que não iria nele de jeito nenhum. Era melhor encarar uma gravidez sem pré-natal.

Decidi então que iria parir em casa com uma parteira tradicional. O problema é que eu precisava de um médico de qualquer maneira. Como ela não era “legal”, não tinha como solicitar exames e em uma emergência, era melhor ter um prontuário aberto em algum hospital. Consegui uma médica na cidade vizinha por indicação de uma conhecida. Ela me sugeriu outra cesárea logo de cara e eu disse que gostaria de tentar de novo. Ela disse que me ajudaria. Sai de lá confiante. Pelo menos, se eu precisasse de médico, ela parecia ser uma opção razoável.

Novas consultas e novas emoções. Meu exame de urina acusou presença de strepto B. A médica, muito calma, disse que eu tomaria antibiótico durante o TP e pronto. E como eu faria com o antibiótico em um PD? Além disso, ela me disse que provavelmente começaríamos uma indução às 37 semanas para evitar que o bebê nascesse muito grande. Começou meu desespero de novo. Somado a tudo isso, horas de espera por uma consulta de 5 minutos.

Com 20 semanas eu decidi que não iria mais para as consultas. O prontuário já estava aberto e eu decidi que ir ao médico era tortura desnecessária. Toda vez que eu tinha consulta eu me sentia mal antes, durante e depois. Na mesma semana que eu tomei este decisão, a casa de parto me ligou e tinham uma vaga para mim!

O pré-natal na casa de parto foi excelente. Consultas de 1h, muito carinho, tiravam todas as minhas dúvidas, me davam informações e nada foi imposto. Todos os procedimentos foram discutidos comigo e cabia a mim decidir se eu queria ou não (inclusive o antibiótico para o strepto B). E eu poderia parir em casa se eu quisesse! Tirando a questão do strepto que me atormentou a gravidez toda, a partir deste momento eu me senti em paz.

Eu não vi a gravidez passar até que comecei a sentir contrações demais (por volta de umas 32 semanas) e a parteira me pediu para “repousar” o máximo que eu conseguisse para não nascer prematuro, se não, eu teria de ir para o hospital.

O parto
De domingo para segunda-feira (17/06 – com quase 38 semanas), os meninos quiseram dormir com a gente. Por volta das 6h da manhã, Lorenzo acordou querendo mamar. Eu estava amamentando-o quando veio uma contração e eu senti um pouco de líquido escorrer. Levantei-me e vi que realmente tinha vazado líquido, além do tampão também ter saído.

Arrumei os meninos para a escola, avisei minha amiga e ela veio ficar comigo. Saímos para a casa de parto já era quase hora do almoço e nada de contrações ou pelo menos nada diferente do que eu já vinha sentindo. O mais estranho é que o líquido parou de vazar. A parteira me examinou, fez dois testes e disse que provavelmente não era líquido, só lubrificação comum do final da gravidez.
Voltei para casa, o marido foi para o trabalho de bicicleta e eu fiquei de buscar as crianças. Passamos uma tarde agradável. Eu fiquei na bola, forramos a cama e resolvi deixar as roupas dos meninos separadas para uma emergência. Minha amiga ainda ficou tirando um barato do meu alarme falso. No final da tarde, eu comecei a sentir as contrações mais fortes, mas ainda sem ritmo e não me preocupei. Fui ao supermercado, preparei as coisas para a minha reunião e busquei os meninos na escola. Eu estava meio indisposta, mas atribui ao cansaço já que tinha dormido mal. Falei com a minha mãe no skype e ela me perguntou o que estava acontecendo porque minha cara estava estranha. Eu disse que não era nada, só cansaço mesmo e como estava calor, eu estava um pouco indisposta. Engraçado como eu não percebi que as contrações tinham mudado e minha mãe, do outro lado do mundo, era capaz de perceber que algo estava diferente. Eu cheguei a me esconder na cozinha em uma das contrações para minha mãe não me ver!

Fui para a reunião por volta das 19h e comecei a cronometrar as contrações. Elas duravam no mínimo uns 45 segundos e vinham a cada 15 minutos. Tentei me distrair o máximo que eu pude, mas eu simplesmente não conseguia disfarçar, nem me mexer na hora da contração. Mandei uma mensagem para meu marido perguntando se não era melhor eu ligar pra parteira de novo, mas ele achou que ainda não precisava, que era cedo. Por volta das 22h, esperei passar uma contração, peguei o carro e vim pra casa. Deu tempo certinho de eu estacionar e veio outra.

Chegando em casa, pedi para o meu marido colocar as crianças para dormir e ele acabou dormindo também. Fui para o banho com a bola. Enquanto eu tomava banho eu quis desistir. Fiquei pensando onde eu estava com a cabeça quando resolvi ter esse bebê. Eu devia ter decidido por outra cesárea porque passar 3 dias com estas dores e ainda aguentar o TP (trabalho de parto) todo não ia ser moleza (eu estava me baseando no TP do Lorenzo). O bom é que esse desânimo passou rápido. Conversei com meu bebê e disse que se ele quisesse vir, eu estava esperando e pronto, que a gente ia conseguir. Por incrível que pareça saí do chuveiro mais calma. Era um pouco antes das 23h. Tentei acordar meu marido, mas ele disse que ia descansar porque eu podia precisar dele no outro dia e ele estava muito cansado.

Fiquei na sala sozinha com minha bola e eu tentava arrumar uma posição cada vez que vinha a contração, mas todas as posições eram péssimas e eu comecei a sentir muito sono. Deitei no sofá e tentei dormir. Eu dormia exatos 10 minutos e lá vinha a contração. Eu tinha que levantar porque deitada era tortura demais. Fiquei assim um pouco mais de uma hora quando comecei a sentir frio também. Vesti meu pijama e minhas meias de inverno porque me deu até tremedeira e fui deitar na minha cama. Eu tive umas duas ou três contrações na cama com um intervalo de uns 7-8 minutos. De repente, outra contração e eu resolvi ficar de quatro. A bolsa estourou, mas estourou mesmo. Fez barulho e saiu muita água. Molhou a cama, o chão, tudo. Meu marido me ajudou a ir para o chuveiro e do banheiro mesmo ligamos para a parteira e para a doula. Era um pouco mais de 12h30.

Elas falaram que já estavam vindo, mas eu já não conseguia nem falar nesta hora. As contrações vinham a cada 2 minutos e duravam mais de 1 minuto cada. Mal dava tempo de eu respirar entre elas. A casa estava uma zona. Imaginem que meu marido tinha ficado sozinho com as crianças por 3h. Tinha brinquedo espalhado por tudo, a pia cheia de louça, um caos. Ele me deixou no banheiro e foi arrumar um pouco a bagunça. Ah, e ainda pediu pra eu passar uma água nas minhas roupas pra tirar a meleca...

Eu fiquei no chuveiro com a bola até a primeira parteira chegar. Ela tentou ouvir o coração do bebê umas 3x entre as contrações, mas não conseguiu e pediu pra eu sair só um pouco para ela ouvi-lo e eu poderia voltar. Eu nem sei como cheguei até a minha cama. Ela ouviu o coração e perguntou se poderia me examinar. Eu deixei morrendo de medo de não estar dilatada com toda aquela dor (traumas do Lorenzo ainda), mas eu estava com 9 cm!

Eu fiquei tão feliz, pelo menos faltava pouco e eu não ia ficar com aquela dor 3 dias como eu estava imaginando. Logo em seguida a outra parteira e a doula chegaram e eu já comecei a sentir os puxos. Foi muito rápido. Eu não tive nem coragem de mexer e fiquei deitada de lado na cama, do jeito que eu estava. Veio aquela vontade de fazer força e eu me segurei. Eu confesso que fiquei morrendo de medo de rasgar tudo de novo. A doula me deu a mão e me lembrou que eu não precisava ter medo, que se eu quisesse podia colocar a mão pra ajudar, assim, eu sentiria o bebê nascendo. Foi ótimo, me deu o maior ânimo colocar a mão e sentir o bebê coroando. A contração veio e eu não fiz muita força, fiz força o suficiente só para a cabeça não voltar pra dentro. Senti queimar e depois a cabecinha saindo. Me deu um alívio tão grande! Ninguém puxou minha bebê e nem me apressou para ela terminar de sair. A parteira viu se não tinha circular de cordão e esperou. Quando a contração veio de novo, eu empurrei o corpinho e senti ela saindo inteirinha. Peguei ela e a abracei. Tão linda! Toda cheia de vernix e sem sangue!!!!

Ninguém viu o sexo. Puseram um paninho sobre ela para aquecer e fui eu que vi que era uma menina! Peguei no cordão também, senti ele pulsar, a textura. O marido que cortou o cordão e decidimos guardar a placenta para plantarmos mais pra frente.

A primeira parteira chegou em casa por volta da 1h30 e a Giulia nasceu à 1h48 da manhã do dia 18/06/2013, com 51cm e 3125g. Ela não sofreu nenhuma intervenção. Não teve colírio, vitamina K, antibiótico, nada. Nasceu na hora e da maneira que ela quis e eu não tive nenhuma laceração (oba!).

Realmente cada parto e cada bebê é único. Foi tudo muito diferente do que eu imaginei e não podia ser mais perfeito. Foi um caminho longo, onde pude contar com pessoas especiais (obrigada!!!) e que curou muitas das minhas feridas. Espero que a minha história sirva de inspiração para outras mulheres e que elas se sintam realizadas assim como eu!

Nascimento do Pietro - Cesariana eletiva no Brasil.

Nascimento do Lorenzo - Parto normal hospitalar no Canadá.

Nascimento da Giulia - Parto natural domiciliar no Canadá.

Uma mulher e três experiências: uma cesariana, um parto normal hospitalar e um parto domiciliar - PARTE 1

Amanda Naldi tem 32 anos, é casada com Daniel e mãe de Pietro (5 anos), Lorenzo (2 anos) e Giulia (5 meses). Natural de São Paulo, ela imigrou para o Canadá há pouco mais de 3 anos. Eu a conheci num grupo de brasileiros pelo Facebook quando li seu comentário de que havia ganhado bebê em casa, aqui no Canadá. Fiquei curiosa para saber mais e pedi que ela contasse como foram suas experiências de parto para eu compartilhar aqui com vocês.

Foram três experiências de parto completamente diferentes! Primeiro, uma cesariana eletiva tranquila em São Paulo, depois um parto normal hospitalar traumático seguido de um parto domiciliar dos sonhos, ambos aqui no Canadá. Uma história que vale a pena ler!

Relato de parto – VBAC no Canadá

História
Eu cresci ouvindo minha mãe falar barbaridades de parto normal. Ela sofreu muito no meu parto, tentaram de tudo, inclusive fórceps e eu acabei nascendo através de uma cesárea, toda machucada (quase fiquei cega e uso óculos até hoje por causa disso). O diagnóstico: DCP (desproporção cefalo-pélvica). Minha mãe ficou traumatizada e influenciou toda a família. Meu irmão mais novo nasceu através de uma cesárea eletiva, assim como todas as minhas primas e os filhos das minhas primas também. Logo, depois das minhas avós, todas na minha família tiveram os filhos através de cesáreas.

Meu primeiro filho nasceu no Brasil, através de uma cesárea eletiva sem nenhuma indicação. Ele nasceu no dia que completamos 40 semanas. Eu não fui amarrada, todos foram muito gentis comigo e o amamentei assim que terminaram de me costurar e examiná-lo (ele sofreu todas as intervenções de rotina). Pra mim aquilo era o normal e eu estava dando o melhor para o meu filho. Na época, eu inclusive achei a recuperação excelente. Tive dor por alguns dias, mas eu conseguia cuidar do meu filho sozinha e estava encantada com a maternidade.
 

No entanto, amamentar doía e eu vivia com meu seio machucado. Minha família começou a pressionar para eu dar mamadeira porque era o “normal”. Minha mãe me dizia que logo eu voltaria a trabalhar e seria melhor assim. Nesta época eu ficava bastante tempo na internet e decidi pesquisar sobre amamentação e descobri outro mundo. Eu decidi tomar as rédeas da situação e fazer as coisas do meu jeito. O grupo GVA (Grupo Virtual de Amamentação) no Orkut me salvou. Eu não apenas amamentei exclusivamente meu filho até os 6 meses, como ele foi amamentado por quase 3 anos mesmo eu trabalhando em tempo integral. Não foi fácil, mas toda vez que eu penso nisso fico orgulhosa de nós dois. Junto com a pesquisa sobre amamentação acabei lendo muito sobre educação de crianças, parto, etc. A maternidade em geral. Isso me tornou outra pessoa. Acho que neste momento eu sai da “matrix”.
 

Decidi que quando eu tivesse outro filho tudo seria diferente. O tempo foi passando, minha vida deu uma reviravolta e decidimos imigrar para o Canadá. Largamos emprego, família, casa e viemos para o Canadá sem nada. Meu filho estava com 2 anos e 4 meses na época. Uns 4 meses depois, época de Natal eu me senti mal, desmaiei e fui parar no hospital com um sangramento que eu pensava ser minha menstruação querendo voltar (eu ainda não tinha ficado menstruada depois do nascimento do meu filho). Como a data da minha última menstruação era de 2007 decidiram fazer um ultrassom. Eu descobri então que eu estava grávida de 8 semanas!
 

Foi um período muito difícil. Estávamos sem emprego, num país novo e tendo que se comunicar em uma língua que não dominávamos (francês). Desespero total!
 

Passado o susto inicial, marquei consulta pra fazer o pré-natal e comecei a procurar uma doula. Meu marido concordou comigo que seria um investimento válido mesmo a situação financeira sendo complicada. Procurei na internet e, no fim, alguém me indicou uma doula brasileira.
 

Entrei em contato com a doula. Na época eu estava com 13 semanas mais ou menos. Ela se mostrou interessada e logo depois marcamos um encontro. Ela foi em casa e conversamos bastante. Neste encontro conversamos um pouco sobre a cesárea eletiva do Pietro, sobre não ter tido nenhum tipo de intercorrência na gravidez, sobre a recuperação "perfeita" que eu tive mesmo sendo uma cirurgia, sobre os meus medos (episiotomia e fórceps), a história da minha mãe e do meu nascimento, minha vontade de tentar um parto natural desta vez, entre outras coisas.
 

Ela me explicou que ela fez um curso de doula e que ela ainda era "estagiária". Por esta razão ela poderia me acompanhar se eu quisesse e não haveria custo nenhum. Além disso, ela buscaria respostas com suas professoras caso fosse necessário. O único porém era que não teria uma substituta caso ela não pudesse comparecer no parto. Confesso que eu fiquei muito feliz depois desse encontro. Eu acreditava ter tirado a sorte grande! Era tudo de que eu precisava!
 

Com uns 7 meses de gravidez, as coisas começaram a complicar. O médico que me acompanhava no pré-natal começou a me dar fortes indícios de que ele queria fazer outra cesárea. Solicitou um exame que mediria a altura da cicatriz uterina para ver se eu poderia tentar um VBAC (Vaginal Birth After Cesarean). Disse que não seria seguro porque minha cesárea foi costurada em apenas um plano (conforme o papel que minha médica do Brasil forneceu, explicando como foi feita minha cesárea e atestando que era seguro um VBAC), enquanto que o padrão dos EUA e no Canadá (mais seguro) seria de costurar em dois planos. Cada consulta que eu tinha com ele era uma aflição. Menos de 5 minutos de consulta e ele conseguia me deixar insegura!
 

Obs: Aqui não é fácil trocar de médico, nem escolher o hospital em que você vai ser atendida. O sistema de saúde é bem diferente do Brasil. Além disso, eu não conhecia muita coisa e tinha dificuldades com o idioma, o que tornou as coisas ainda mais complicadas.
 

Alguns pontos que eu gostaria de registrar porque eram coisas muito importantes para mim ou eventos que me marcaram nesta época:
 

1) O exame. Eu fiquei 2 meses esperando o hospital me ligar para eu ir fazer o tal exame e eles nunca me ligaram! Fiquei 2 meses tensa por nada!
 

2) O médico do pré-natal. Na última consulta que eu tive com o médico que fez meu pré-natal, ele simplesmente passou uma requisição para o hospital solicitando uma segunda opinião sobre meu VBAC (já que eu não fiz o exame) e me informou que ele sairia de férias por 4 semanas (eu estaria entre 37 e 41 semanas de gravidez neste período). Se ele voltasse de férias e o bebê não tivesse nascido, ele faria outra cesárea porque seria perigoso demais uma indução no meu caso. Ele não quis nem olhar meu plano de parto! Ele disse para mim, você mostre isso no hospital quando ele for nascer, eu não vou olhar porque não sou eu quem vai fazer seu parto! Se for eu, será uma cesárea e pronto. Saí da consulta atordoada. Conversei com a doula e ela me disse que eu poderia ter tido sorte dele sair de férias, afinal ele estava com todo jeito de querer fazer outra cesárea.
 

3) A anestesia. Eu não queria tomar anestesia de jeito nenhum. Eu fiz meu marido prometer que se eu ficasse com muita dor e começasse a pedir anestesia, não era pra deixar me darem. Ele ficou inseguro, mas aceitou meu pedido: ele não deixaria me darem anestesia. Até que este assunto surgiu em um dos encontros com a doula... Ela foi veementemente contra! Ela nos disse que só eu saberia o limite da minha dor e que ele não poderia tomar esta decisão por mim, afinal o corpo e a percepção da dor eram meus. Ele estaria lá pra me apoiar, mas que a decisão no momento deveria ser apenas minha.
 

4) A posição para parir. Eu não queria parir deitada de jeito nenhum. Deixei isso bem claro em todos os momentos. Eu odeio deitar de barriga pra cima em qualquer momento, imagine na hora do parto, com dor e ainda por cima depois de ler tanta evidência científica dizendo que essa posição é péssima, só é fácil para o médico mesmo.
 

5) Episio e fórceps. Eu tinha muito medo de episio e fórceps. Cresci ouvindo minha mãe me contar do pesadelo do meu nascimento. Eu conversei sobre isso com a doula e com meu marido. Aqui não fazem episio de rotina e, portanto, mesmo que acontecesse uma laceração, ela não seria muito “grande”. Era fazer exercícios e preparar o períneo. Assim com 34 semanas eu comecei a massagem e os exercícios regularmente.

Pródromos e Parto
Tudo começou no sábado pela manhã ((39+3sem). Todos saíram e eu fiquei sozinha em casa. Do nada fiquei apertada para ir no banheiro fazer xixi. Quando me limpei tinha uma borra com sangue. Achei que era o tampão. Passei o dia todo com essa borrinha com sangue e sem dor nenhuma. De noite percebi que estava com contrações. Fiquei me remexendo, levantei, andei... Resolvi marcar e as contrações estavam de 15 em 15 minutos, às vezes de 10 em 10 minutos. Finalmente a manhã chegou e com a claridade elas se foram completamente! Como em um passe de mágica elas desapareceram.
 
Domingo acabei passando o dia bastante ansiosa, com muito poucas contrações e muito irregulares. O dia foi embora e eu fiquei com medo do que me esperava a noite... Dito e feito, bastou eu dormir para as contrações começarem de novo. Passei a noite toda me remexendo na cama e anotando as contrações que vinham a cada exatos 15 minutos. Fiz isso das 12h as 4h e adivinha? Passaram completamente depois disso. Resolvi desencanar de marcar os intervalos.
 

Na segunda-feira pela manhã eu falei com a doula de novo e combinamos que se acontecesse de novo na próxima noite que ao invés de ficar parada eu iria me movimentar.
 
Quando escureceu eu comecei a sentir algumas contrações novamente. Eu resolvi tomar um banho e jantar (comi um pão o dia todo e no fim não consegui jantar). Enquanto eu mexia na geladeira veio uma contração e eu senti escorrer um pouco de líquido. Resolvi me abaixar e na primeira acocorada eu senti escorrer um monte de líquido. Eu tive certeza que a bolsa tinha estourado!
 

Liguei pra doula e contei o que tinha acontecido. Ela pediu pra eu tomar um banho e aguardar um pouco porque como eu não estava com contrações era melhor tentar fazer o trabalho de parto engrenar um pouco antes de ir pro hospital. Como não podia induzir, se eu fosse pro hospital sem contrações a chance de ter que fazer cesárea seria maior. Fiquei de ligar pra ela dentro de 2h pra dizer como iam as coisas.
 

Tomei um banho e as contrações começaram com força total. Sentei no computador pra usar o contador de contrações porque contar a duração com dor era impossível. Marquei por uns 30 min e resolvi ligar pra doula porque elas estavam de 5 em 5 minutos, às vezes de 4 em 4. Ela falou pra gente ir pro hospital que ela nos encontraria lá.
 

Vesti minha roupa e terminei de arrumar as coisas pra maternidade. Eu já estava com tanta contração que pra descer as escadas e chegar na rua eu devo ter demorado uns 15 minutos. Cada dois passos eu tinha que parar e esperar a contração passar. Chegamos no hospital e eu ainda consegui rir porque eu não conseguia chegar até o elevador!
 

A entrada na maternidade foi bem fácil e sem nenhuma burocracia. Entreguei a carteirinha e o plano de parto e já me levaram pra sala de parto. Em menos de 5 minutos eu já estava na sala de parto, que mais parecia um quarto mesmo, com a enfermeira instalando o monitor fetal e fazendo o acesso no meu braço. Na hora fiquei feliz porque não iam me amarrar em lugar nenhum, eu ia ficar sem soro e poderia andar se eu quisesse. Logo depois disso a enfermeira me examinou e a primeira decepção. Só tinha 3cm de dilatação! Tudo aquilo de dor e 3cm??? Fiquei apavorada. Ela saiu e deixou nós três sozinhos.
 

Isso eram umas 22h (eu acho). Ficamos nós três na sala, a doula me fazendo massagem e me ajudando com as contrações. Apagamos a luz, ficamos bem confortáveis. Eu não conseguia nem ficar em pé de tanta dor, quanto mais andar. A melhor posição era sentada na beirada da cama mesmo. Eu tentava fazer as respirações que aprendi na yoga, me acalmar, mas nada funcionava. Eu imaginei que ia sentir dor, mas nunca imaginei que as contrações ficavam tão próximas umas das outras tão rápido e faltando tanto pra chegar no final. Quando eram umas 2h eu não aguentava mais de dor. As contrações vinham de 2 em 2 minutos e duravam mais de 1 minuto cada uma. Eu queria vomitar de tanta dor, tentei tudo quanto é posição e nada me ajudava. Não dava tempo nem de respirar e já vinha outra contração. Eu já estava num mundo à parte mesmo. Eu gritava, ficava de 4, esperneava, não estava nem aí pra nada. A enfermeira veio me examinar de novo e a dilatação ainda estava em 5 cm. Nesta hora eu entrei em desespero mesmo, ainda faltava metade e eu já estava com muita dor desde as 20h quando a bolsa rompeu! 6 horas de dor e apenas 5 com de dilatação... A enfermeira sugeriu a banheira e eu aceitei, mas não cheguei a ir até a banheira. Comecei a pedir a anestesia. Meu marido me perguntou se era isso mesmo que eu queria, se eu não preferia ir pra banheira primeiro e eu disse que não, que queria a anestesia. A doula não abriu a boca. Segundo meu marido, ele olhou para ela e ela o apoiou, como quem diz: ela que decide, você não pode fazer nada.
 

Fui no banheiro, tirei minha roupa e coloquei a camisolinha do hospital. Nesta hora, eu quis chorar, de dor, de medo, de ter fracassado tão rápido. Respirei fundo e pensei que talvez não tivesse outro jeito mesmo, pelo menos eu estava tentando o máximo que podia.
 

O anestesista chegou um pouco depois e eu tomei a epidural. Ele falou que demorava uns 10 minutos para fazer efeito, mas acho que foi mais rápido que isso, porque eu senti mais algumas contrações e passou. Nossa, como eu agradeci a quem inventou a anestesia. Me deu um alívio tão grande na hora. Pena que o alívio durou tão pouco tempo. Em segundos eu senti alguém me deitando e me colocando a máscara de oxigênio. Eu não via nada direito, só sei que tinha um monte de gente na sala. Não estava conseguindo entender nada. Só vi a médica falando pra mim que os batimentos cardíacos do bebê tinham caído muito (estavam menores que 80) e que se não voltassem em menos de 10 minutos ela teria que fazer uma cesárea de emergência.
 

Os batimentos estabilizaram. A médica me explicou que isso podia ter acontecido porque o bebê pressionou o cordão umbilical, mas que não dava para garantir e que ele podia estar ficando cansado. Graças a isso, foi instalado um monitor fetal na cabeça do bebê e eu não podia mais me mexer... A médica disse que não podia arriscar perder os batimentos cardíacos depois do que aconteceu e que se baixasse de novo, era cesárea na certa. Assim que tudo se acalmou e ficamos sozinhos de novo, a primeira coisa que a doula me disse foi: "Você sabe que agora você vai ter que parir deitada né?" Eu nem questionei o porquê, eu me odeio por causa disso. Na minha cabeça ela sabia mais do que eu. E pior, nem foi o médico ou a enfermeira que me disse isso, foi minha doula!
 

Depois disso, a doula e meu marido foram descansar e eu fiquei lá imóvel, respirando fundo e observando o monitor de batimentos cardíacos. Fiquei neurótica, não conseguia relaxar. A enfermeira vinha de tempos em tempos conversar comigo, me dizer que estava tudo bem e que eu poderia tentar descansar que ela estava verificando o monitor pra mim, mas eu simplesmente não consegui!
 

Sei que ficamos muitas horas assim. Pela manhã a enfermeira veio ver a dilatação de novo e ainda estava em 7cm... Ela e a doula ficaram impressionadas com a quantidade de contrações que eu tinha e por tanto tempo pra dilatação ainda estar em 7cm. Pouco tempo depois eu comecei a sentir uma vontade de empurrar o monitor fetal pra fora de mim. Falei isso com a doula e ela disse que provavelmente eu já estava quase dilatando tudo e a hora do expulsivo chegando. Ela chamou a enfermeira e a dilatação estava em 9 cm. Faltava uma tal rebarba de um lado. A vontade de empurrar só piorava e agora eu já estava com muita dor de novo. Uma dor diferente das contrações, que vinha junto com uma vontade louca de empurrar.
 

Dilatação completa! Cada vez que vinha uma contração eu tinha que segurar nos meus joelhos e fazer força. O meu pesadelo vinha se concretizando. Eu não queria parir em posição de frango assado nem nos meus piores pesadelos e lá eu estava, nesta posição e segurando meus joelhos. Cada contração eu conseguia fazer 3 forças. Pegaram um espelho pra eu olhar e eu via a cabecinha do meu filho vindo. Isso era muito legal, me dava forças pra respirar fundo, aguentar a próxima e empurrar. Enquanto eu descansava entre as contrações, o médico fazia massagem no períneo, meu marido e a doula conversavam comigo. Eu tinha certeza de que ia conseguir, já estava quase acabando.
 

Mais de duas horas depois e nada do bebê nascer. A médica me diz que o bebê não estava conseguindo se recuperar entre as contrações. Que eu estava fazendo tudo certinho, que a força estava correta, tudo ótimo, mas que ele estava entrando em sofrimento fetal. A médica me disse que ele teria de sair na próxima contração de qualquer jeito e que ela ajudaria com o fórceps. Me disse que eu precisava fazer a maior força que eu conseguisse. A contração veio e eu fiz muita força. Eu senti o bebê saindo, escorregando inteirinho, mas senti tudo rasgando também. Ele saiu inteirinho e de uma vez só.
 

Assim que ele saiu já o colocaram em cima de mim, doía tanto que eu nem conseguia segurá-lo, fiquei com medo dele cair até. Logo em seguida, meu marido cortou o cordão umbilical e eu fiquei tentando colocá-lo no seio pra mamar. Ele gritava tanto, mas tanto que nunca vi coisa igual. Acho que ele gritou sem parar por quase uma hora! Ele nasceu com 3,5kg, 54cm, apgar 10/10/10.
 

A placenta saiu rapidinho em seguida. A médica me mostrou a placenta e o saco onde ele ficava, me disse que eu tive uma laceração de quarto grau, deu anestesia local (estava doendo muito) e costurou. Eu fiquei com meu bebê o tempo todo. Meu marido sentou na poltrona e abaixou a cabeça nas mãos. Eu me sentia atortoada, perdi muito sangue. Ninguém me explicou nada. Assim que fomos para o quarto, a doula foi embora. Foi a última vez que a vi.
 

Essa parte foi muito doída, doída no psicológico, no emocional mesmo. A última coisa que eu queria era parir que nem frango assado e precisar de fórceps. Fora a laceração grave! Além da dor, eu ainda comecei a sofrer com medo das conseqüências dela (incontinência principalmente). Minha mãe fez campanha a favor da cesárea minha vida toda justamente por causa do fórceps e meu parto dos sonhos terminou com o uso dele. Muito frustrante, não dá pra negar. Meu bebê nasceu um pouco machucadinho por causa do fórceps e com uma bossa gigante que sumiu quase um mês depois.
 

A doula me ligou uns 2 dias depois do parto para saber como nós estávamos. Uma conversa de uns 10 minutos na qual eu chorei bastante e disse que estava com muita dor. Ela me orientou a fazer compressas geladas. Ficou de nos visitar no final de semana, no máximo no outro. Esta visita nunca aconteceu. Pior ainda, ela desapareceu. Eu mandei diversos e-mails, tentei ligar diversas vezes, deixei recados e nada. Quatro meses depois do parto, eu decidi fazer um teste e liguei para ela de um número desconhecido. Ela atendeu o celular na primeira tentativa que eu fiz. Eu desliguei sem falar nada. Eu não tive forças pra pronunciar nenhuma palavra. Logo em seguida recebi um e-mail dela dizendo que ela estava muito ocupada e que poderíamos nos encontrar no início do próximo ano. Eu ainda estou esperando...
 

Eu confesso que me senti realmente abandonada depois do parto. Nunca fui examinada pra saber se estava tudo bem (na minha consulta pós-parto, o médico, aquele que queria fazer cesárea por causa da cicatriz, me disse que se não estivesse saindo fezes pela minha vagina era porque estava tudo certo). Chamou meu marido em outra sala e disse que eu estava com DPP (depressão pós-parto). Receitou antidepressivo por um ano sem acompanhamento (eu nunca os comprei). Os pontos demoraram 2 meses pra cicatrizar e eu senti dor durante mais de 6 meses. Eu não tive apoio nenhum. Depois de ir atrás de informações na internet, decidi procurar uma fisioterapeuta e uma psicóloga. Elas foram essenciais para a minha melhora física e emocional. Não tenho mais seqüelas físicas do parto, nem meu bebê, mas até hoje eu ainda não consegui aceitar as coisas direito.

Para ler a continuação deste post, clique aqui.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Homeschooling e tarefas domésticas: relato de um pai que fica em casa!

Como comentei no último post, meu marido é quem está ficando em casa com as meninas neste semestre. Por isso, pedi para ele escrever sua experiência de fazer as tarefas domésticas enquanto cuida/ensina as crianças ao mesmo tempo. E eis abaixo o resultado!

Hora de lavar a roupa!

Neste período aqui no Canadá estou tendo a oportunidade de desempenhar meu papel de pai em tempo integral. Eu assumi parte das tarefas da casa e do cuidado e ensino das nossas filhas, principalmente nos horários em que minha esposa está estudando.

O que temos entendido sobre homeschooling é que não basta apenas trazer a escola para dentro de casa, é preciso trazer as crianças para dentro das tarefas da casa. Uma coisa que fascina as crianças é ver um adulto fazendo uma tarefa. O mais comum é a criança pedir para ajudar. Mas o que temos a tendência de fazer é "enxotar" a criança para que ela não nos atrapalhe. É difícil (e por vezes perigoso) cozinhar com uma criança por perto. É complicado limpar a casa com elas no meio do caminho. Então, como trazer as crianças para perto? Como envolver seus filhos nas atividades cotidianas da casa? Isso é parte de sociabilizar uma pessoa, é ensinar a viver.

A tarefa que deu mais trabalho para eu aprender, pois eu também nunca tinha ficado com essa responsabilidade, foi lavar a roupa suja. A parte fácil é que no prédio já tem máquina de lavar e secar. A parte difícil é que o tanque é muito ruim e a lavanderia fica 2 andares abaixo do meu.

Então, como envolver as crianças na tarefa, uma vez que não dá para deixá-las sozinhas em casa e descer para lavar roupa? A primeira vez eu peguei os dois cestos de roupa suja, o cartão e desci com elas. Subi novamente, pois tinha esquecido o sabão, amaciante e o tira-manchas. São 28 degraus com duas crianças. Mas vamos lá. Começamos colocando a roupa na máquina e eu separei as que tinha que esfregar para tirar as manchas. Fiquei uns 20 minutos fazendo isso. Imagina como já estava a paciência das meninas? E eu também já estava ficando louco. Finalmente conseguimos colocar toda a roupa na máquina, passamos o cartão, escolhemos o modo de lavagem e apertamos o botão verder de ligar. Já tinham nos dado a dica de deixar a roupa lavando e voltar 30 minutos depois e foi exatamente isso que fiz. Coloquei um alarme para tocar e na hora certa descemos novamente. Tiramos a roupa da lavadora e a colocamos na secadora. Mesmo procedimento e 60 minutos depois estávamos de volta para tirar a roupa da secadora, dobrar e trazer de volta para casa. O duro é tirar a roupa da secadora e já dobrar com duas crianças desfazendo todo o seu trabalho (pois com a roupa quente não precisa nem passar, se dobrar direito). Foi bem sofrido das primeiras vezes até eu conseguir uma forma de envolver de verdade as meninas.

Veja o passo a passo depois das mudanças que fiz para elas poderem realmente ajudar.
1. Eu primeiro esfrego as roupas com manchas (na banheira) para já descer e só colocar tudo na máquina.

2. Pegamos o cartão, os cestos de roupa suja, os produtos químicos de lavagem e descemos.

3. Coloco as duas em cima da máquina e um cesto atrás de cada uma e elas vão colocando toda a roupa dentro da máquina enquanto eu vou arrumando.


4. A Nicole (4 anos) coloca o cartão na máquina, eu escolho o programa e a Alícia (2 anos) aperta o botão para ligar.

5. Subimos todos para casa e fazemos alguma atividade nos 30 minutos. Eu geralmente lavo a louça do café da manhã.

6. Eu tiro a roupa da lavadora e coloco dentro do nosso cesto que está na frente da entrada da máquina de secar. As meninas rapidamente pegam a roupa e a jogam para dentro da secadora. Depois de colocar toda a roupa, seguimos o mesmo procedimento para ligar a secadora.

7. Uma hora depois é hora de tirar a roupa da secadora. O desafio de envolvê-las aqui foi vencido fazendo com que elas separassem a roupa que estão tirando de dentro da secadora. Eu coloco dois cestos, um para panos, toalhas, cuecas, meias, sutiãns e calcinhas e outro para eu dobrar a roupa. Elas têm a responsabilidade de separar onde vai cada peça que tiram da máquina. Assim funcionou pois me dá tempo de dobrar a roupa razoavelmente bem e sem ninguém desfazendo o que eu faço.
Minha mãe é ótima com as tarefas da casa e me ensinou muitas coisas, mas antes de casar, o cesto de roupa sempre foi algo mágico para mim. Era só colocar a roupa nojenta lá dentro e alguns dias depois ela estava de volta limpinha dentro do armário. De mágico passa para trágico quando você vê que não sabe fazer algo tão básico como cuidar da própria roupa. Isso serve para todas as áreas da nossa vida. Passamos tanto tempo na escola aprendendo as ciências, as letras e números, depois vamos para a faculdade e aprendemos uma profissão, depois nos aperfeiçoamos com cursos, línguas etc. Mas para as coisas mais básicas da existência humana, como cuidar de si mesmo, ter um relacionamento amoroso sadio, aprender a lidar com a ansiedade, ira e outros sentimentos, cuidar das suas próprias finanças, entre outras coisas, dedicamos pouquíssimo tempo pensando ou estudando sobre isso. 

Homeschooling pode ser mais do que trazer a escola para dentro de casa. Pode ser encarado como uma proposta de formar o indivíduo como um todo, em todas as áreas da sua vida.

Douglas Marsola

domingo, 20 de outubro de 2013

Mudança de país e adaptações!

Olá a todos e a todas!

Eu amo escrever no blog. Amo mesmo, tudo o que leio de interessante e que me faz refletir ou o que aprendo no dia-a-dia fico com muita vontade de vir correndo aqui compartilhar. Se eu pudesse faria de "blogueira" a minha profissão, hehe. Mas esta não é a minha realidade no momento, então eu preciso fazer um esforço imenso para arrumar tempo pra escrever. Principalmente com as mudanças na minha vida nos últimos tempos, minha vontade de escrever o que vivo e aprendo com a maternidade precisou ficar em segundo plano. E explico o porquê: nós mudamos de país!! Estamos morando no Canadá. 

Chegamos, eu e a Nicole, há exatos 1 mês e 17 dias. O Douglas e a Alícia, infelizmente, chegaram somente uma semana depois por causa da demora para a liberação dos vistos. Tínhamos nos preparado e sonhado tanto com essa viagem em família e, no fim, viemos separados. Ah, antes disso, passamos duas semanas morando na casa dos meus pais (o Douglas e a Alícia uma semana a mais!) porque a nossa casa já estava alugada. Eu viajei primeiro porque minhas aulas na universidade começariam no dia seguinte e eu não podia mais esperar. Vim com uma das filhas (em vez de sozinha) por causa da bagagem - seria muito complicado para um só viajar com duas crianças pequenas e ainda tantas malas. Obs: Me arrependi amargamente de ter trazido malas tão pesadas, passei altos apuros por causa disso!

Agora imaginem vocês que era fim de tarde de uma segunda-feira de feriado quando eu cheguei no nosso apartamento vazio, após passar a noite anterior toda dentro de um avião e boa parte do dia dentro de um trem. Detalhe: com uma criança de 4 anos! Foi física e emocionalmente cansativo, pra dizer o mínimo, principalmente porque a Nicole estava muito teimosa e isso deixa qualquer pai à beira dos nervos. Os mercados estavam todos fechados e na primeira noite comemos comida congelada comprada numa farmácia 24 horas. Começar a vida quase do zero é muito difícil! E percebi que o que dizem é verdade: a gente tende a não dar valor a certas coisas até que não as temos - no nosso caso, eram desde coisas bem básicas do dia-a-dia, como panelas, pratos e, sim, um abridor de latas (tive de fazer macarrão alho e óleo um dia porque comprei o molho de tomate, mas não é que me esqueci do abridor?) até as maiores, como mesa, cadeiras, sofá e cama!! 

Isso sem falar do choque cultural de não saber o idioma (francês) quando alguém lhe dirige a palavra ou então do exercício mental que é ficar freneticamente tentando entender o significado de palavras novas (praticamente todas!). No outro dia de manhã e em todos os dias que seguiram até o meu marido chegar pra ficar com as meninas, eu levei a Nicole comigo para as aulas e também para resolver as inúmeras pendências de alguém que acaba de chegar numa cidade nova - linha telefônica e internet para o celular, seguro de saúde-viagem, carteirinha de estudante, bilhete de ônibus/metrô, livros obrigatórios, mercado, etc. Na universidade, a minha estratégia foi colocar desenhos no netflix para ela assistir (com fones de ouvido, claro) e, felizmente, deu muito certo. Até recebi elogios sobre o quão bem ela havia se comportado... ufa. De todos os desafios, este nós tiramos de letra. :)

Mas o sufoco dos dias/semanas iniciais passou! E hoje já estamos bem melhor adaptados - fazendo amizades, conhecendo as redondezas, aprendendo sobre a cultura, o idioma, nos ajustando à nova rotina, ao clima... enfim, são muitas as mudanças e quero compartilhar um pouquinho disso tudo com vocês, na esperança de que vocês sejam edificados com as reflexões que faço daquilo que tenho vivido.

Mas antes, conheçam o nosso novo carro vermelho!



Acho que a nossa família tem uma atração especial pela cor vermelha. Engraçado pensar isso. A pintura externa da nossa casa no Brasil é vermelha e todos os carros que nós já compramos até hoje (se bem que só foram dois) eram vermelhos. Bem, é uma cor forte e chamativa e acho que combina bem com a nossa família. Este "wagon" não é diferente - nós o compramos há apenas 10 dias e ele já fez muito sucesso aqui no bairro! Decidimos comprá-lo porque estava ficando difícil e complicado carregar as meninas no colo quando saíamos. Criança é assim, anda um pouquinho e já cansa e quer colo (só para brincar é que não cansam!). E como aqui nós não temos um automóvel, fazemos muitas coisas a pé. Andamos até o ponto de ônibus, até o mercado, até o parquinho, até o centro comunitário, etc. Então este "wagon" está sendo extremamente útil. Quero ver como vamos nos virar com ele na neve!

Agora vamos às mudanças e adaptações.

Nossa Casa
Amamos o bairro em que moramos. O nosso apartamento fica numa pequena ilha, perto o suficiente do centro de Montreal e ideal para famílias que estão chegando na cidade. É um lugar especial, tem lago, muitas árvores, gramado e esquilos. No outono agora a paisagem estava espetacular! Me apaixonei pelos diferentes tons de vermelho, laranja e amarelo das folhas. É igualzinho a gente vê nos filmes. Agora o frio está aumentando e as árvores já estão ficando peladas. O inverno está se aproximando (ai que medo!). Aqui é muito tranquilo e gostoso para morar, com diversas opções de parques para as crianças brincarem e se divertirem. É um bairro onde vivem muitos imigrantes (acredite quando eu digo muitos!) e eu me senti bem acolhida, as pessoas que eu conheci foram receptivas e dispostas a ajudar. Fiz amizades muito rápido e com pessoas de lugares do mundo que eu mal saberia apontar no mapa!

Moramos num apartamento que fica no último andar de um prédio de três andares e que não tem elevador. São apenas quatro lances de escada porque o primeiro andar é o térreo, mesmo assim para nós já é uma mudança: subir ou descer os 28 degraus de escadas toda vez que saímos ou chegamos. Os apartamentos do prédio não têm área de serviço privativo, então a novidade para nós é usar uma lavanderia em comum (com um tanque bem esquisito e ruim de usar). Na lavanderia, a gente tem de pagar para usar a máquina de lavar e a máquina de secar roupas. Não é como no Brasil onde a gente estende as roupas para secar no varal. O ponto ruim é que não temos ferro de passar e nem cabides o suficiente para pendurar todas as roupas da família, então mesmo dobrando as roupas ainda quentes, a maioria fica bem amassada. Mas como as pessoas aqui parecem não ligar pra isso, tudo bem, rsrs.

Uma vantagem é que os apartamentos de aluguel já vêm com fogão, geladeira, armários (nos quartos, na cozinha e no banheiro) e também água quente (inclusos no aluguel, que não é barato, mas o "menos caro" que conseguimos encontrar por aqui). Pagaremos somente a conta de luz que vem de 2 em 2 meses (algo que eu achei curioso). A cozinha do nosso apartamento é bem pequena. Bem mesmo. Primeiro eu achei que seria ruim ter uma cozinha tão minúscula desse jeito (um terço do tamanho da nossa casa no Brasil), mas agora já estou gostando! Antes, quando a cozinha estava "de pernas para o ar" depois de uma refeição, eu tinha a sensação de que a casa toda bagunçada e não ficava feliz enquanto ela não estava arrumadinha de novo. Agora a louça por lavar não me incomoda tanto!! E também acho super prático colocar a mesa ou guardar as coisas porque está tudo ali tão pertinho.

Uma desvantagem é que, com exceção do banheiro, da cozinha e da copa, não há lâmpadas no teto, A iluminação é feita via luminárias e/ou abajures e não é a mesma coisa. A casa fica escura, o que me incomoda, principalmente quando preciso ler alguma coisa. Gosto da claridade e quero ver como vamos nos adaptar no inverno já que nos disseram que o dia escurece às 16:30.

O banheiro também é um pouco diferente do que estávamos acostumados. Primeiro, porque ele é um só (e para uma família de quatro pessoas, eu acho pouco!) e porque ele também é pequeno. O banheiro tem um exaustor barulhento (que liga quando você acende as luzes) e lâmpadas bem quentes. Eu não gosto porque fica muito calor, eu sento no vaso e tenho a sensação de estar tomando sol (porque o teto, ainda por cima, é mais baixo). Mas talvez seja uma daquelas coisas que eu vou dar graças a Deus de ter quando estiver um frio de menos 30 graus, não é mesmo?! O lado bom é que temos uma banheira!! Para o tamanho do meu marido ela é pequena e apertada, mas para mim e para as meninas ela é ótima! Eu apenas gostaria de ter uma mangueira com chuveirinho porque acho que facilitaria muito pra dar banho nelas.

Outra mudança é que aqui as meninas dormem numa cama de casal que foi deixada no apartamento pelos moradores anteriores. Tivemos alguns episódios delas caírem da cama no começo (opps!), mas agora que empurramos a cama contra a quina da parede o problema foi solucionado! Colocamos um cobertor no meio pra dividir o espaço e não tivemos grandes problemas delas dividirem a cama. Se bem que às vezes um de nós precisa sim ficar voltando lá pra mandar a Alícia colocar a cabeça de volta no travesseiro dela (ela gosta de mexer com a irmã). Mas isso não é novidade, acontecia em SP também.

Nossa Rotina
Minha rotina mudou muito e ainda não sei dizer se para melhor ou pior. Eu vim com "permissão para estudo" porque vamos ficar por 1 ano, mas o visto do meu marido e o das meninas é de turista. Faz um mês que o Douglas fez o requerimento para obter a "permissão para o trabalho" e enquanto ela não chega, ele fica em casa e passa a maior parte do tempo com as meninas enquanto eu saio para estudar. No Brasil eu também estudava, mas o que mudou mesmo foram os horários. Antes eu ia para a universidade à noite e passava o dia com as meninas homeschooling (e, claro, limpando, cozinhando, lavando, ha!) enquanto o Douglas trabalhava fora. Agora invertemos as tarefas e eu ainda estou me acostumando com a ideia. E as meninas também, principalmente a Alícia que é quem percebo que está mais sentindo essa troca. Eu chego em casa e ela fica louca tentando chamar a minha atenção, pede para eu fazer as coisas no lugar do pai (colocar comida no prato dela, levá-la pra fazer xixi, etc.).

Como os meus horários de aula são variados e eu sou o que a universidade chama de "estudante em tempo integral" (significa que eu faço 4 disciplinas e, em tese, preciso dedicar nove horas semanais de estudo extra-classe por disciplina), nos dias em que tenho aula normalmente passo muitas horas fora. A parte boa é que meu marido é quem ficou com a parte realmente difícil - cuidar da casa, da roupa, da comida e das meninas. Eu não lavei roupa nenhuma vez ainda, rs. Ele está fazendo tudo!

Perto de casa tem um centro comunitário, com biblioteca e inúmeras atividades legais para adultos e crianças. A maioria são pagas, mas é um suporte bem legal que eles dão para os pais do bairro. Nos inscrevemos em algumas aulas. Na 2a feira à tarde as meninas estão fazendo dança (hip hop) e esta é a única atividade que elas fazem sozinhas. Nas demais a mãe, pai ou responsável pela criança tem de participar junto (é uma aula em conjunto). Na 3a feira, por exemplo, eu e a meninas participamos do "Quack-Quack". É um grupo de aprox. 20-25 mães e filhos que brincam juntos por duas horas. A educadora responsável monta uma brinquedoteca, com mesas de atividades diferentes (como massa de modelar, pintura e artesanato), e toda vez faz um curto momento dirigido de leitura e músicas, para bebês e crianças até 5 anos. E, na 6a feira de manhã, a gente faz música e depois aula de cerâmica.

Aqui cabem duas observações. Uma delas é a tentação do "hiperscheduling". Quase caí nessa armadilha, mas consegui perceber a tempo e parei pra analisar no que eu estava me metendo. Mãe tem dessas às vezes, né? A gente quer ver o(s) filho(s) desenvolvendo o máximo do seu potencial o mais cedo possível e sem perceber comete excessos, reduzindo demais o tempo da criança em casa que é tão bom e deve ser curtido e valorizado!! Não é porque a criança está fora de casa o tempo todo, fazendo mil e uma atividades "pedagógicas", que ela está realmente aprendendo e desenvolvendo alguma coisa. Ela pode estar vendo um monte de gente em diversos lugares, mas nem por isso está se sociabilizando adequadamente ou tirando proveito desses momentos fora. A lição que fica aqui é o célebre "menos é mais". E a outra observação que quero fazer segue uma linha bem próxima, o engano de que a gente precisa logo "passar a bola" para outro (o "especialista") que sabe ensinar nosso(s) filho(s) porque não temos capacidade de fazê-lo. Está aí uma mentira deslavada! Quem é que conhece o filho melhor do que mãe e pai? Com criatividade e disposição para aprender, é lógico que eles podem sim estimular pedagogicamente os filhos, fazendo um trabalho de excelência e, se quiserem, com certeza bem melhor do que o de um(a) educador(a) infantil pago para isso. Mas é muito mais fácil acreditar no contrário e, pasmem, me deu bobeira aqui e eu estava quase indo por esse caminho. Vou contar como foi.

Uma das preocupações quando cheguei aqui era saber se quando o Douglas conseguisse um emprego nós teríamos o benefício que o governo dá de subsídio em "garderie" (palavra francesa para creche). Não que eu fizesse questão de que as meninas fossem pra creche (claro que não!!), mas pensei que seria uma oportunidade boa para elas aprenderem o francês. Afinal, não é sempre que a gente passa um ano em outro país. Eu nem pretendia enviá-las todos os dias, mas queria organizar minhas aulas na universidade para coincidir com elas irem algumas vezes por semana, em meio-período, por exemplo. Nessa de eu tentar me informar e perguntar para as pessoas daqui como é que funciona o reembolso do governo, descobri que as "garderies" têm uma lista de espera absurdamente longa. As mães colocam o nome do filho quando ainda estão grávidas e chegam a esperar 3 ou 4 anos por uma vaga (e a gente que pensou que esse problema só existia no Brasil, hein??). Daí as pessoas foram me indicando "garderies priveé" (as particulares), mas os preços são altos demais e não teríamos condições de pagar. Até que fiquei sabendo de um "pre-school program" de dois dias por semana (3 horas por dia, ou seja, bem mais puxado do que as atividades que fazemos hoje), que estava com um preço bom e me empolguei. Detalhes importantes que eu deixei passar: 1) ele era em outro bairro (eu precisaria pegar ônibus, metrô e ainda andar um quarteirão inteiro com as meninas, já pensou fazer isso nos meses de neve?), 2) o foco era preparar crianças de 2 a 5 anos para entrar na escola (hein? eu não preciso disso, estou pensando em "homeschool" minhas filhas!), e 3) o programa era todo em inglês (peraí, o objetivo não era aprender francês?). Ou seja, já tinha saído totalmente do meu propósito e eu nem percebi. Haha! Engraçado como uma coisa puxa a outra. Se o seu objetivo não estiver muito claro, são dois palitos para perder o foco. Foi o que aconteceu. Cheguei a ir até lá pra conhecer, paguei a inscrição e estava "tudo certo" para começarem na semana seguinte. Mas daí percebi a tempo a besteira que eu estava prestes a fazer, voltei atrás e optei pelas atividades mais curtas aqui no centro comunitário perto da minha casa mesmo.

Pensando agora, talvez o que mais tenha me chamado a atenção nesse "pre-school program"(e o que me fez ficar tão empolgada) foi o fato de eu perceber que este era um programa claramente educativo. Sim, porque uma coisa que me chamou a atenção (negativamente) foi ter visto dois grupinhos de "garderie en milieu familial" (creche em ambiente familiar) fazendo passeio num parque aqui perto de casa. Achei muito estranho e jamais teria coragem de colocar as meninas numa "garderie" dessas! Para resumir, a postura da "garderienne" era de cuidadora (e olhe lá) e uma delas ficou o tempo todo no celular. O semblante das crianças era de tristeza e apatia, me deixou com a pulga atrás da orelha! Compartilhei o que vi num grupo de facebook de mães/pais brasileiros que moram no Canadá e o assunto rendeu. A minha conclusão é: Se o "ambiente familiar" é assim ao ar livre, que dirá dentro de quatro paredes onde nenhum outro adulto vê? Eu, hein... Tô fora!

Mas o meu ponto inicial era dizer como é importante e gostoso ficar em casa! Não só para as crianças, mas para mim também. O lar é um lugar propício para ensinar as crianças, fazer atividades divertidas e educativas, ficar à vontade na companhia de quem a gente ama, se alimentar bem, enfim... é o lugar ideal para as crianças pequenas, principalmente, crescerem e se desenvolverem. Elas não precisam ir para escola todo dia para isso, não sei porque às vezes temos a mania de pensar o contrário e achar que, porque estamos em casa, não estamos fazendo nada de bom ou de importante.

Nossa Alimentação
Para o meu paladar, a comida daqui é ruim: acho-a picante e gordurosa.

Na verdade, ainda não sei exatamente qual é a culinária canadense, só sei que quando estamos na rua é difícil achar um lugar para comer bem. E por "bem", claro que me refiro à comida saudável e gostosa, sabe? Tipo um arroz, feijão, mistura e salada, rsrs. Ah, e sim, um suco natural para acompanhar. :)

Outra observação é que a diversidade cultural é tamanha que há restaurantes de comidas típicas de vários lugares, principalmente comidas asiáticas e árabes. Para nós é muito esquisito ainda e não sei se/quando vou me acostumar. Vou pra universidade e, quando não consigo levar o meu próprio lanche, passo o dia à base de Tim Hortons ou Pizza Bella, pois além de CARA, a comida aqui não me apetece.

Em casa, é claro, estamos tentando fazer a nossa comidinha de sempre. A única coisa que ainda não conseguimos fazer com regularidade são os sucos naturais, mas como faço muita questão (porque não sou fã de sucos industrializados!) já estamos dando um jeito, hehe.

Bem, pessoal, escrever esse post foi quase como ter um parto.... demorou, mas saiu!

Beijos e até uma próxima.